Feliz Dia da Mulher: frases para homenagear mulheres incríveis
Biguaçu
O Biguaçu floresce
em fevereiro,
março e abril,
Há sempre alguém
que nunca viu,
Neste último florescer
vou te contar que não
há nada mais que
me surpreenda diante
de quem da boca
para fora finge uma
causa defender
enquanto na prática
vive outra de outra
maneira achando
que por muito tempo
poderá continuar a convencer,
Com gente assim qualquer
tempo sempre será muito
tempo na vida a perder.
Magnífico Pau-d’arco
enfeitando o destino,
Não preciso de outro
maior marco que inspire
este brasileiro caminho.
O Cedro-aguano sob
o céu do destino
é um marco inesquecível
que recordo todos
os dias com os meus
Versos Intimistas
para te fazer doce,
pleno e absoluto
e vir fazer parte
do meu secreto mundo.
Não quero entrar em detalhes porque há 'sensíveis' por todos os lados, mas a data de 31 de março só vai me dizer algo se todos amadureceram e vierem a se unir em prol de questões para o bem comum máximo de todos nós brasileiros.
A cada linha
de minha total
responsabilidade
desde o dia
treze de março
do ano de dois
mil e dezoito
venho todo o dia
escrevendo
um poemário
sobre um General
que foi preso
injustamente
no meio de uma
reunião pacífica,
sobre uma tropa,
e também fatos
da nossa Pátria
América Latina,...
Neste nosso
continente
onde reina
o vôo do condor,
que é o protetor
dos nossos céus,
escrevo para
que jamais
deixem perder
as três virtudes
teologais,
para que seja
superada esta
noite escura,
a pandemia
e não deixem
perder a alegria;
No dia vinte
e um de março
que será
no Dia Mundial
da Poesia
que há de
ser celebrado,
espiritualmente
participarei
para não sentir
o peso desta
quarentena
pedindo gentilmente
a licença poética
para ser
mais uma
#PoesíaEnVozAltaPorVenezuela.
Aniversaria dois
anos trágicos
do fatídico dia
treze de março
do ano de dois
mil e dezoito,
e por maltrato
de que tem um
coração nefasto
o General quase
perdeu a vida,...
O General foi
preso num hotel
no meio de uma
reunião pacífica,
onde teve a militância
política interrompida
por causa de uma
miserável mentira,
O General é inocente,
qualquer crime
ou desordem
vocês sabem bem
que ele jamais cometeria:
como não cometeu;
O General continua
preso sem nenhum
acesso à justiça,
vítima de uma
injustiça interminável
e de um veneno
rasteiro e silencioso
que não concedeu
à ele nem mesmo
audiência preliminar,...
Desde o maldito
e fatídico dia
desta injusta prisão,
venho escrevendo
sem ninguém
ter me pedido
tantos versos por ele,
por tantos fatos,
rincões e pessoas
com ou sem patente
- que nada tem a ver -
com a história dele;
mas que me comoveram
igualmente mesmo
sem conhecer,
mas por pressentir
que talvez neste
continente não tenha
quase ninguém
para gritar por
toda esta gente
que pensa diferente;
E que possivelmente
talvez nem tenha
alguém ao menos
para uma única
oração na vida à ofertar.
Querendo saber
como se encontra
o General injustiçado
desde o dia treze
de março do ano
de dois mil e dezoito,
aprisionado num
martírio infinito, lento
e sem esperança
nenhuma de justiça,
ando revisitando
e revisando cada
poema que foi escrito,
buscando no escuro
do mundo o mistério
a ser esclarecido:
É assim que tentando
entender tudo o quê
se passa na Venezuela
e na América Latina.
Passaram três meses
ninguém foi punido
lá na Bolívia
para fazer dissolvida
a história
da nossa memória:
Estão apagando
aos poucos os vestígios
dos massacres
de Senkata,
Sacaba e Yapacaní;
Autorais frutos
das mãos imundas
por um golpe absurdo
de um abissal inimigo,
que deseja que
até estes capítulos
sejam esquecidos,
e bloqueios imperiais
por nós sejam
celebrados como
se fizesse parte
da lógica ser aceitos.
Da tropa e do General
que foi preso inocente
há quase dois anos
no dia treze de março
existe um poemário,
E venho contando
nas entrelinhas dos
meus versos dedicados
sobre os estilhaços
que tantos tiranos
estão a nos deixar,
Não vou parar por aí,
não posso ignorar,
É Pátria Grande
ou Pátria maior ainda.
Não há explicação
golpe é golpe,
O golpe na Bolívia
foi dado e um
informe da sucursal
do inferno que
leva como sigla
três letras a fraude
não conseguiu provar,
Não me canso
por este continente
um só minuto de gritar.
No exílio os líderes
se encontram
e estão convertidos
em milhões
que este golpe
não vão parar
de denunciar
pelo mundo e seus rincões.
A vida do General
que foi preso
injustificadamente
no dia treze de março
em meio a uma
pacífica reunião
há mais de um
ano e meio
requer cuidado,
E até agora mais
nada sobre ele
nos foi noticiado,
E estes versos
ardem pelos abraços
não dados pelas
filhas no pai exausto.
Com as amazônicas
cinzas aqui deixo
o meu lamento
para que nada caia
no esquecimento,
Em mim dói um
continente inteiro
só de saber
o quê foi feito
com as minhas irmãs
que foram vítimas
de exploração
em Trinidad e Tobago.
Não generalizo
a culpa porque
ninguém pode
ser responsável
por aquilo que
não fez e nem
por aquilo que você
entendeu de errado:
Deixo claro que para
cada direito violado
haverá sempre um
lamento para que
o crime não
seja banalizado,
A vida Warao a cada
dia se encontra num
circuito mais delicado.
O General foi
arrancado de
uma pacífica
reunião no dia
13 de março,
e se encontra
há quase
dois injustiçado.
É hora de ouvir
o pedido
desde Guárico
por ele
e por tantos
que estão
passando
pelo o quê há
de mais trágico.
Ele vem sendo
torturado
psicologicamente
diante de tanta
indignidade
sendo ofertada
pela justiça
atrasada
e por quem
vem negando
o quê é
do que é humano.
Que Março venha
para você abençoado,
Que seja inspirador,
cheio de poesia,
intenso, realizador
e muito apaixonado.
A poesia de março
você faz com a força
das águas e da sua paz
capaz de fazer um
laço que ninguém desfaz,
porque quem determina
o seu caminho é só você.
NÃO SOU O MUNDO — SOU O QUE ELE ME PERMITE SER
Por: Marco Arawak
A Terra não é cenário.
É o chão de tudo o que acontece.
Antes de qualquer pensamento,
há algo que sustenta.
Antes de qualquer palavra,
há aquilo que torna possível existir.
Nada em mim começa em mim.
Meu corpo é feito de coisas antigas:
água que já foi nuvem,
pó que já foi estrela,
calor que atravessou outras formas.
Sou um encontro breve
de elementos que existiam antes do meu nome.
Não sou origem.
Sou continuidade.
A Terra não me acolhe por escolha.
Ela simplesmente existe.
E enquanto suas condições permanecem,
eu também permaneço.
O chão não me sustenta por cuidado.
Ele sustenta porque é chão.
Se falha, eu caio.
Sem intenção.
Sem julgamento.
A água não me protege.
Ela corre.
Se está limpa, me nutre.
Se está ferida, atravessa meu corpo ferido.
O ar não se oferece.
Ele está.
E quando falta,
não há filosofia:
há silêncio.
Nada na natureza me explica o sentido da vida.
Mas tudo nela a torna possível.
Não vivo em um mundo que me reflete.
Vivo em um mundo que me antecede
e continuará depois de mim.
Minha história não é centro.
É passagem.
Sou um instante dentro de algo maior,
um acontecimento breve
num ritmo que não pede significado.
E, ainda assim, existo.
Não como dono.
Como parte.
Cada respiração é um acordo invisível
com o que me cerca.
Cada passo é uma confiança no chão.
Cada dia é um empréstimo de equilíbrio.
Nada em mim é garantido.
A Terra não é boa nem má.
Ela não cuida,
não pune.
Ela simplesmente segue.
Mas eu sinto.
Eu temo.
Eu escolho.
E é nesse ponto que algo muda.
A vida não é protegida.
Ela acontece enquanto pode.
Mas dentro dessa fragilidade,
nós nos movemos,
amamos,
construímos,
lembramos.
Sou forma por um tempo.
E toda forma, um dia, se desfaz.
Nada desaparece de verdade —
apenas muda de lugar, de estado, de nome.
Quando algo termina,
outra coisa começa.
O planeta não perde.
Ele se transforma.
Eu, sim, posso desaparecer.
Por isso, existir não é um direito natural.
É uma condição frágil.
O mundo não foi feito para mim.
Eu fui feito dentro dele.
Mas o modo como vivo dentro dele
não é neutro.
Tudo o que faço
— usar, gastar, descartar, modificar —
retorna de algum modo.
Nada realmente vai embora.
Tudo permanece, de outra forma.
O que jogo fora
continua existindo em algum lugar.
O que fere a Terra
volta, cedo ou tarde, ao corpo.
A natureza do planeta não pede admiração.
Mas pede limite.
Não pede discursos.
Pede cuidado.
Não quer que eu me veja nela.
Quer que eu compreenda
o peso de estar aqui.
Não sou a voz do mundo.
Sou um de seus muitos gestos.
Talvez isso seja o mais profundo:
não habito algo que me pertence.
Habito algo ao qual pertenço.
Sou feito da mesma matéria
que rios, montanhas e ventos,
mas organizado de modo frágil,
breve, reversível.
Não carrego a Terra dentro de mim.
Dependo dela em tudo.
Se ela sustenta,
eu existo.
Se ela se rompe,
não há pensamento que me salve.
Não é metáfora.
É condição.
A natureza do meu planeta
não é ideia, nem símbolo, nem consolo.
É a base silenciosa
sobre a qual a vida se arrisca.
Compreender isso
não me eleva.
Me responsabiliza.
Porque não estou aqui para dominar o mundo,
mas para não quebrar
o que me permite estar.
Não sou o sentido da Terra.
Sou apenas algo que acontece nela.
Mas enquanto aconteço,
posso escolher
não ser ruína.
E isso, talvez,
seja o que nos torna humanos.
ENTRE O ENCANTO E O DESGOSTO
Por: Marco Arawak
No mar profundo, onde o mundo parece dançar sobre as águas, há mistérios que nenhuma palavra consegue alcançar. As ondas se desfazem e retornam, como pensamentos que insistem em voltar. Há dias em que tudo parece distante, fosco, sem cor; dias em que o desgosto chega sem pedir passagem e transforma até aquilo que era familiar em paisagem estranha.
As sombras machucam não porque tenham mãos, mas porque às vezes carregamos dentro de nós aquilo que ainda não conseguimos compreender. Há olhares que pesam, silêncios que dizem mais que palavras e lembranças que permanecem mesmo quando já não queremos recebê-las.
Então uma brisa atravessa a copa das árvores.
É quase nada.
Mas basta.
O vento movimenta as folhas, leva alguns segredos e devolve outros. Talvez a vida seja assim: uma sucessão de coisas que chegam, permanecem por algum tempo e depois seguem adiante, deixando em nós marcas que nem sempre sabemos nomear.
A alma também possui suas marés.
Há momentos em que transborda e outros em que recua para lugares silenciosos. Chora sem testemunhas, questiona antigas crenças, enfrenta censuras, medos e incêndios que ninguém vê. E, no fundo dessas inquietações, o coração continua procurando um caminho.
Porque há paixões que começam como promessa e terminam como ferida.
Há sonhos que se desfazem justamente quando acreditávamos tocá-los.
Há amores que deixam de ser abrigo e passam a doer.
Mas nem toda perda é o fim de alguma coisa.
Às vezes, é o espaço necessário para que outra forma de vida encontre lugar.
O amanhecer não pergunta o que aconteceu durante a noite. Simplesmente chega. A luz toca lentamente aquilo que estava escondido e devolve contorno às coisas. O que parecia perdido ganha outra perspectiva. O que parecia definitivo revela-se apenas uma passagem.
É nesse instante que a poesia começa a fazer aquilo que a memória nem sempre consegue.
Ela transforma.
Não apaga a dor, mas muda sua linguagem.
Não nega o desgosto, mas impede que ele seja a última palavra.
O amor pode ter sido ferido e ainda assim continuar sendo amor. A confiança pode ter sido abalada e ainda assim reconstruída. O coração pode carregar cicatrizes sem precisar transformá-las em morada.
A vida segue como um caminho que não revela toda a paisagem de uma vez. Caminhamos entre certezas e dúvidas, entre encontros e despedidas, entre aquilo que desejávamos e aquilo que aprendemos a aceitar.
Às vezes caminhamos sozinhos.
Mas estar sozinho não significa estar vazio.
Há dentro de nós um lugar onde alguma coisa permanece acesa, mesmo quando tudo parece silencioso. Não é certeza. Não é promessa. É apenas a possibilidade de continuar.
Um fio.
Um movimento.
Um passo depois do outro.
No céu vasto, o azul parece infinito. O sol atravessa as sombras e lembra que nenhuma noite possui o poder de apagar definitivamente a possibilidade de um novo dia.
Até a tristeza, quando atravessada com consciência, pode perder sua força.
Ela pode continuar existindo, mas já não governa.
O desgosto deixa de ser destino e transforma-se em passagem. O que antes parecia apenas ferida pode tornar-se consciência. O que doeu pode ensinar sem precisar permanecer doendo para sempre.
É assim que sigo.
Não porque tenha deixado de sentir medo, mas porque aprendi que coragem não é caminhar sem medo. É continuar mesmo quando o caminho ainda não está completamente iluminado.
Verso após verso, reúno aquilo que a vida espalhou.
Memórias.
Desejos.
Perdas.
Afetos.
Silêncios.
E, com tudo isso, construo não um universo perfeito, mas um universo possível: aquele em que a tristeza pode existir sem destruir a alegria, em que o pranto pode dividir espaço com o sorriso e em que a dor não precisa apagar o encanto.
Talvez seja esse o segredo da poesia.
Ela não promete que a vida será leve.
Promete apenas que podemos olhar novamente para aquilo que nos feriu e encontrar outro significado.
O que ontem parecia fim pode amanhã revelar uma passagem.
O que parecia vazio pode guardar sementes.
O que parecia desgosto pode, com o tempo, ensinar novamente o gosto da vida.
E a alma, depois de atravessar suas próprias tempestades, talvez não volte a ser a mesma.
Talvez volte mais consciente.
Mais silenciosa.
Mais inteira.
Porque a primavera não nasce negando o inverno.
Ela nasce depois dele.
E quando finalmente chega, não precisa explicar por que demorou.
Apenas floresce.
A vida é sobre confiar em si mesmo.
Cada marco do seu sucesso esculpe seu esforço e esforço, te enche de orgulho, te entusiasma e te faz feliz
Em cada fase que falha na vida você precisa se ajustar, respirar e dar um leve suspiro, se esforçar e se animar.
Comece de novo, porque se desanimar e deixar ser tomado pela preguiça isso o deixará mais fraco e cada dia mais longe da vitória.
Isso pode impedi-lo de saborear o gosto da vitória
O INVENTÁRIO DE NÓS
Por Marco Arawak
Há períodos da vida em que parece que alguém entrou em nossa casa enquanto dormíamos e mudou algumas coisas de lugar. Tudo continua reconhecível, mas já não encontramos facilmente aquilo que procuramos.
Uma lembrança surge onde não deveria estar.
Uma ausência ocupa um espaço antes insignificante.
Uma antiga certeza perde a posição que tinha dentro de nós.
Talvez o desencanto comece assim: não como uma ruptura, mas como a percepção de que aquilo que sustentava nossa maneira de compreender o mundo já não permanece intacto.
Carregamos conversas, escolhas, desilusões, expectativas frustradas e vínculos que mudaram de forma. Nem sempre sabemos imediatamente o que fazer com tudo isso.
Algumas lembranças permanecem próximas; outras tentamos esconder. Mas aquilo que não nomeamos continua participando de nós.
Por isso, chega um momento em que precisamos examinar o que carregamos. Não para transformar cada experiência em ensinamento, mas para distinguir o que ainda nos pertence daquilo que mantemos apenas por hábito.
Aceitar que certas relações se afastaram, que alguns projetos terminaram e que nem tudo pode ser corrigido pela nossa vontade não significa considerar justo o que aconteceu.
Significa reconhecer os limites do nosso controle.
Talvez escrever seja uma maneira de realizar esse inventário. A palavra aproxima o que estava confuso, dá contorno ao que permanecia sem nome e permite olhar para uma experiência sem aumentá-la nem diminuí-la.
Reorganizar não é apagar. É escolher o destino de cada coisa. Algumas lembranças permanecem; outras perdem a centralidade.
Há sentimentos que precisam ser compreendidos antes de serem deixados para trás.
Há vínculos que encontram outra forma de existir.
Há portas que já não precisamos manter abertas.
Maturidade talvez tenha menos relação com esquecer do que com aprender a distribuir o peso do que vivemos. O desencanto pode permanecer na história sem determinar quem somos. Uma ausência pode ser reconhecida sem transformar-se em vazio permanente. O passado pode continuar verdadeiro sem ocupar sozinho o presente.
Também precisamos, às vezes, do silêncio. Quando o ruído diminui, surgem perguntas que evitamos enquanto tentávamos corresponder às expectativas alheias: o que ainda faz sentido?
O que mantenho apenas por receio de perder?
O que realmente pertence à minha história?
Nem sempre encontramos respostas. Mas perguntar já modifica nossa relação com o que vivemos.
Talvez coragem seja justamente isso: não viver sem receio, mas não permitir que ele decida sozinho o que permanece.
Não somos obrigados a transformar toda despedida em explicação, nem todo encerramento em começo. Algumas coisas precisam apenas ser reconhecidas e encontrar seu lugar na nossa história.
No fim, continuar não significa reconstruir quem éramos antes. Significa compreender que também somos feitos das escolhas que fazemos diante do que nos aconteceu.
Talvez esse seja o verdadeiro inventário de nós:
o que recebemos,
o que nos atravessou,
o que deixamos partir e
o que, conscientemente, decidimos conservar.
Não somos apenas o conjunto do que nos aconteceu. Somos também a maneira como damos destino ao que aconteceu.
DICOTOMIA
Autor: Marco Arawak
Há uma fronteira quase invisível entre aquilo que desejamos e aquilo que somos capazes de suportar. É ali que o amor começa a nos dividir.
De longe, parece simples. Gostar, querer, aproximar-se, sentir falta. Uma pequena gramática de presenças e ausências. Mas basta atravessar a superfície para descobrir que, por baixo do gesto mais banal, existe quase sempre uma pergunta que não sabemos responder.
Queremos companhia, mas também espaço. Queremos atenção, mas tememos a vigilância. Pedimos sinceridade e, quando ela chega sem delicadeza, desejamos que certas verdades permanecessem intocadas.
Queremos ser procurados, mas nem sempre queremos ser encontrados.
É assim que o contraditório se instala, primeiro nas pequenas coisas, depois em tudo.
Dizemos que queremos alguém que nos conheça profundamente, mas tememos ser conhecidos por inteiro. Desejamos transparência, embora preservemos dentro de nós regiões que nem sequer sabemos explicar. Procuramos segurança e, quando a encontramos, às vezes sentimos falta daquilo que nos fazia tremer.
O raso não é o oposto do profundo. É apenas aquilo que ainda não foi atravessado.
Por trás de um simples “fica” pode existir o medo de ser deixado. Por trás de um “preciso de espaço”, a necessidade de não desaparecer dentro de alguém. Por trás de um silêncio pode haver indiferença, medo, cansaço ou uma verdade que ainda não encontrou linguagem.
O amor promete encontro, mas devolve cada um à própria solidão.
Quanto mais nos aproximamos, mais percebemos a distância que permanece. Ninguém atravessa inteiramente o território de ninguém. Há sempre uma região inviolável, um lugar onde continuamos estrangeiros até para aqueles que mais amamos.
E talvez seja justamente isso que nos assuste.
Queremos ser compreendidos sem sermos completamente decifrados. Queremos pertencer sem deixar de existir por conta própria. Procuramos no outro uma morada, embora saibamos que nenhuma morada pode substituir aquilo que somos.
Queremos permanência, mas somos feitos de mudança.
Queremos certezas, mas muitas vezes é o imprevisível que nos desperta.
Queremos liberdade dentro do vínculo e vínculo dentro da liberdade.
Queremos que o outro permaneça, mas não queremos permanecer os mesmos.
E talvez nenhuma dessas contradições seja um erro.
Talvez sejam apenas sinais de que amar não é possuir uma resposta, mas sustentar perguntas que não cabem numa resposta.
Entregar-se é uma forma estranha de coragem. Não porque elimine o medo, mas porque decide não obedecer inteiramente a ele.
A razão calcula o risco.
O desejo ignora a conta.
E, entre os dois, existimos nós.
A razão não é inimiga do sentimento. É a consciência do preço. Sabe que toda entrega modifica quem entrega, que todo vínculo abre possibilidades de perda e que aquilo que nos transforma também pode nos desorganizar.
Ainda assim, avançamos.
Às vezes queremos alguém que nos liberte da solidão, mas tememos torná-lo indispensável. Queremos intensidade, mas recuamos diante do excesso. Pedimos profundidade e, quando ela finalmente nos alcança, descobrimos que ser visto é também perder alguns esconderijos.
Na superfície, queremos o abraço.
No fundo, queremos ser reconhecidos.
Na superfície, queremos companhia.
No fundo, queremos que alguém compreenda a nossa solidão sem tentar ocupá-la.
Na superfície, queremos alguém que fique.
No fundo, queremos continuar sendo nós mesmos enquanto esse alguém permanece.
É nessa passagem do raso ao profundo que a dicotomia deixa de ser contradição e se revela condição.
Não está entre o amor e o medo.
Está no próprio amor.
Porque amamos justamente aquilo que pode nos atingir. Abrimos a porta sabendo que o mesmo gesto que permite a entrada também torna possível a ferida.
Queremos o outro porque somos incompletos, mas precisamos permanecer inteiros para que o encontro não se transforme em desaparecimento.
Vivemos entre forças que não se anulam: permanecer e partir, aproximar-se e preservar-se, entregar-se e guardar-se, ser dois sem deixar de ser um.
Essa é a verdadeira dicotomia.
Não escolher entre extremos, mas descobrir que ambos podem ser verdadeiros ao mesmo tempo.
Toda escolha carrega aquilo que recusamos. Toda aproximação conserva alguma distância. Toda entrega guarda, em algum lugar, a possibilidade da retirada.
Talvez amadurecer seja abandonar a necessidade de resolver aquilo que a própria existência insiste em manter aberto.
Há conflitos que não pedem solução.
Pedem consciência.
O amor talvez seja isso: não abolir a distância, mas aprender a habitá-la. Não esperar que o outro nos complete, mas reconhecer que ninguém nos completa e, ainda assim, escolher compartilhar a incompletude.
Dois seres inteiros aproximando-se sem a pretensão de se tornarem um.
Duas solidões que se reconhecem.
Não para se possuir.
Não para se salvar.
Mas para testemunhar, ainda que por um instante, aquilo que existe de mais inacessível em cada um.
Porque intimidade não é atravessar completamente o outro.
É chegar suficientemente perto sem destruir o mistério.
Amar é permanecer diante desse mistério sem exigir que ele deixe de ser mistério.
É querer ficar e saber partir.
É entregar-se sem desaparecer.
É pertencer sem possuir.
É aproximar-se sem destruir a distância que torna possível o encontro.
Talvez essa seja a única eternidade possível entre seres finitos: não vencer o tempo, não impedir a perda, não garantir o amanhã, mas fazer com que duas existências se reconheçam profundamente sem jamais poderem possuir-se por inteiro.
E talvez seja aí que o amor deixe de ser promessa e se torne verdade.
Quando já não precisamos vencer a dicotomia para permanecer.
Quando compreendemos que a contradição não é a falha do amor.
É a sua forma mais humana de existir.
Porque somos assim também: rasos naquilo que dizemos, profundos naquilo que calamos; contraditórios no que desejamos, lúcidos apenas depois de sentir.
No fim, talvez amar não seja encontrar uma resposta.
Talvez seja ter coragem de permanecer inteiro diante da pergunta: Será?
O INVENTÁRIO DE NÓS
Por Marco Arawak
Há períodos da vida em que entramos em nós mesmos e percebemos que alguma coisa mudou de lugar. As mesmas lembranças continuam ali, os mesmos afetos, as mesmas marcas, mas já não sabemos exatamente onde guardamos cada coisa. Uma ausência se torna maior do que esperávamos. Uma antiga certeza perde o brilho. E aquilo que parecia definitivo revela, sem alarde, que também estava de passagem.
Talvez o desencanto não comece quando alguma coisa termina. Talvez comece quando já não conseguimos olhar para o que aconteceu com os mesmos olhos.
Carregamos palavras que ficaram por dizer, encontros que não chegaram ao destino imaginado, escolhas que ainda nos visitam de vez em quando e expectativas que a realidade não soube acolher. Algumas lembranças permanecem próximas. Outras se afastam para regiões menos visíveis da memória. Nem por isso deixam de participar de quem nos tornamos.
Chega um momento em que precisamos olhar para esse acervo íntimo sem a pressa de julgá-lo. Não para transformar cada acontecimento em lição, nem para encontrar uma explicação onde talvez ela não exista. Apenas para perceber o que ainda tem sentido e o que continuamos carregando porque nunca paramos para escolher.
Nem tudo o que recebemos precisa ser conservado. Nem tudo o que perdemos precisa ser recuperado. Há vínculos que mudam sem desaparecer completamente, projetos que terminam antes de cumprir o que prometiam e pessoas que continuam importantes mesmo depois de deixarem de caminhar ao nosso lado.
Há experiências para as quais não encontramos reparação.
Com o tempo, encontramos outra maneira de lembrá-las.
Aceitar isso não significa considerar justo tudo o que aconteceu. Significa reconhecer que a nossa vontade não governa o tempo, os outros, nem aquilo que já passou. Existe uma liberdade silenciosa em parar de pedir ao passado aquilo que ele não pode devolver.
Talvez escrever comece nesse ponto. Não quando compreendemos tudo, mas quando encontramos palavras para permanecer diante do que vivemos sem fingir que foi diferente. A escrita não desfaz o passado. Apenas nos permite olhá-lo de outro lugar.
Às vezes, isso basta.
O que parecia absoluto ganha contorno. O que permanecia confuso encontra um nome. E aquilo que ocupava quase todo o pensamento começa, pouco a pouco, a perder o tamanho que tinha.
Reorganizar não é apagar.
É escolher.
Algumas lembranças merecem permanecer perto. Outras podem descansar mais longe. Há sentimentos que precisam ser compreendidos antes de serem deixados para trás. Há vínculos que encontram outra forma de existir. Há portas que, depois de algum tempo, já não precisamos manter abertas.
Maturidade talvez tenha menos a ver com esquecer do que com aprender a não entregar ao passado o governo do presente. Uma lembrança pode continuar viva sem ocupar tudo. Uma ausência pode ser reconhecida sem se transformar em destino. Aquilo que nos marcou pode permanecer verdadeiro sem decidir, sozinho, quem ainda podemos ser.
Às vezes precisamos nos afastar do ruído. Não para fugir, mas para escutar o que pensamos quando ninguém está falando por nós.
É nesse intervalo que algumas perguntas aparecem: o que ainda faz sentido? O que continuo sustentando apenas por receio de perder? O que escolhi de fato e o que simplesmente aprendi a carregar?
Nem sempre encontramos respostas. Algumas perguntas permanecem durante anos, mudando de significado conforme nós mesmos mudamos. Talvez isso também seja amadurecer: aceitar que nem tudo precisa ser resolvido para deixar de nos confundir.
Talvez coragem seja não viver sem receio, mas não permitir que ele escolha sozinho o que permanece.
Por isso, nem toda despedida precisa transformar-se em explicação. Nem todo encerramento precisa anunciar um começo. Algumas coisas simplesmente terminam.
E talvez seja suficiente reconhecer que existiram.
Continuar também não significa voltar a ser quem éramos antes. Há acontecimentos que modificam nossa maneira de olhar, de escolher, de permanecer e de partir. Depois deles, a antiga disposição das coisas já não volta exatamente ao lugar.
Então aprendemos outra maneira de estar no mundo.
Não necessariamente mais fácil. Nem sempre melhor.
Apenas nossa.
Talvez seja essa a parte mais silenciosa do amadurecimento: compreender que não somos somente aquilo que recebemos da vida, mas também aquilo que fazemos com o que recebemos.
Esse é o inventário de nós: as presenças que nos formaram, as ausências que nos modificaram, os encontros que permaneceram, os desencontros que nos ensinaram limites, aquilo que deixamos partir e aquilo que, apesar de tudo, escolhemos conservar.
No fim, não somos apenas o que nos aconteceu.
Somos também a maneira como aprendemos a viver depois.
E talvez, quando já não precisamos esconder o que fomos nem transformar o passado em monumento, quando algumas lembranças deixam de pedir explicações e certas ausências já não exigem respostas, possamos olhar para tudo o que ficou sem orgulho e sem culpa.
Não para dizer que tudo valeu a pena.
Mas para reconhecer que tudo isso fez parte de nós.
E que ainda existe, dentro de nós, alguma coisa que não estava no inventário.
A escolha do que fazer com o que vem depois.
O INVENTÁRIO DE NÓS
Por Marco Arawak
Há períodos da vida em que parece que alguém entrou em nossa casa enquanto dormíamos e mudou algumas coisas de lugar. Tudo continua reconhecível, mas já não encontramos facilmente aquilo que procuramos. Uma lembrança surge onde não deveria estar. Uma ausência ocupa um espaço antes insignificante. Uma antiga certeza perde a posição que tinha dentro de nós.
Talvez o desencanto comece assim: não como uma ruptura, mas como a percepção de que aquilo que sustentava nossa maneira de compreender o mundo já não permanece intacto.
A casa continua de pé.
Somos nós que já não sabemos exatamente como habitá-la.
Carregamos conversas, escolhas, desilusões, expectativas frustradas e vínculos que mudaram de forma. Nem sempre sabemos imediatamente o que fazer com tudo isso. Algumas lembranças permanecem próximas; outras tentamos esconder. Mas aquilo que não nomeamos continua participando de nós, às vezes de maneiras que só percebemos muito tempo depois.
A memória também tem seus quartos sem luz.
Por isso, chega um momento em que precisamos examinar o que carregamos. Não para transformar cada experiência em ensinamento, nem para encontrar uma explicação para tudo, mas para distinguir o que ainda nos pertence daquilo que mantemos apenas porque nunca paramos para escolher.
Há coisas que permanecem conosco sem jamais terem sido escolhidas.
Aceitar que certas relações se afastaram, que alguns projetos terminaram e que nem tudo pode ser corrigido pela nossa vontade não significa considerar justo o que aconteceu. Significa reconhecer os limites do nosso controle e começar a fazer as pazes com aquilo que não podemos modificar.
Nem toda ausência pede preenchimento.
Algumas pedem apenas reconhecimento.
Talvez escrever seja uma maneira de realizar esse inventário. A palavra aproxima o que estava confuso, dá contorno ao que permanecia sem nome e nos permite olhar para uma experiência sem aumentá-la nem diminuí-la. Escrever não muda o que aconteceu. Muda, às vezes, o lugar de onde conseguimos olhar para o que aconteceu.
E há coisas que só se tornam compreensíveis quando encontram linguagem.
Reorganizar não é apagar. É escolher o que merece permanecer perto, o que pode ser guardado mais longe e o que já não precisa ocupar nossa atenção.
Algumas lembranças permanecem.
Outras perdem a centralidade.
Não porque tenham deixado de existir, mas porque deixaram de governar.
Há sentimentos que precisam ser compreendidos antes de serem deixados para trás. Há vínculos que encontram outra forma de existir. Há portas que, depois de algum tempo, já não precisamos manter abertas.
Nem tudo o que se fecha precisa ser lamentado como perda.
Às vezes, fechar também é uma forma de cuidado.
Maturidade talvez tenha menos relação com esquecer do que com aprender a distribuir o peso do que vivemos. O desencanto pode permanecer na história sem determinar quem somos. Uma ausência pode ser reconhecida sem transformar-se em vazio permanente. O passado pode continuar verdadeiro sem ocupar sozinho o presente.
O que aconteceu não precisa desaparecer para deixar de ocupar o centro.
Também precisamos, às vezes, do silêncio. Não necessariamente para encontrar respostas, mas para escutar aquilo que o ruído costuma encobrir. Quando diminuímos a pressa de corresponder às expectativas alheias, algumas perguntas começam a aparecer.
É curioso como, quando tudo silencia, certas verdades fazem menos barulho e dizem mais.
O que ainda faz sentido?
O que mantenho apenas por receio de perder?
O que realmente pertence à minha história?
Nem sempre encontramos respostas. Algumas perguntas permanecem conosco durante anos, mudando de significado à medida que nós também mudamos. Mas perguntar já altera alguma coisa. Devolve à consciência aquilo que o hábito havia decidido por nós.
Há perguntas que não querem uma resposta imediata.
Querem tempo.
Talvez coragem seja justamente isso: não viver sem receio, mas não permitir que ele escolha sozinho o que permanece.
O receio pode bater à porta.
Não precisa receber as chaves.
Não somos obrigados a transformar toda despedida em explicação, nem todo encerramento em começo. Algumas coisas simplesmente terminam. E talvez precisemos apenas reconhecer que existiram.
Nem todo fim precisa de uma última palavra.
Às vezes, o silêncio é a única forma honesta de encerrá-lo.
No fim, continuar não significa reconstruir quem éramos antes. Há experiências que mudam nossa maneira de olhar, de escolher, de permanecer e de partir. Depois delas, a antiga disposição das coisas já não volta exatamente ao lugar.
Então aprendemos a viver de outra maneira.
Não necessariamente mais fácil.
Apenas mais nossa.
Talvez seja essa a parte mais silenciosa do amadurecimento: compreender que também somos feitos das escolhas que fazemos diante do que nos aconteceu.
O passado nos oferece matéria.
Mas não deveria escrever sozinho o que somos.
Esse é o verdadeiro inventário de nós: o que recebemos, o que nos atravessou, o que deixamos partir e o que, conscientemente, decidimos conservar.
Nem tudo merece permanecer.
Nem tudo precisa ser esquecido.
Há uma diferença entre carregar uma lembrança e continuar vivendo dentro dela.
No fim, não somos apenas o conjunto do que nos aconteceu. Somos também a maneira como damos destino ao que aconteceu.
E talvez seja justamente aí que alguma coisa se abre.
Não uma resposta.
Não uma promessa.
Apenas a possibilidade de continuar, levando conosco aquilo que ainda reconhecemos como nosso e deixando para trás, sem culpa, aquilo que já cumpriu o seu tempo.
Porque, às vezes, amadurecer não é acrescentar mais alguma coisa àquilo que somos.
É finalmente saber o que podemos deixar de carregar.
