Deus fez Vc para Mim
Pai olha pra mim
Preciso tanto de ti
Pai sei que errei
E o quanto falhei
E agora venho clamar
Por sua graça e amor sem par
Pai estende sua mão, quero seu perdão, sem ti nada sou
Pai ouça meu clamor, te imploro o favor, oh meu salvador.
Pai eu sei que falhei
Por ti não busquei
Pai eu busco a ti
Quero voltar a sorri
Pai estende sua mão, nos trás salvação, vem morar em mim
Pai por Cristo Jesus, e o sangue na cruz, que seja assim.
Até o fim.
Por que vives em mim?
Conto os dias desde que partiste,
mas partiste apenas de corpo.
Tua alma ficou.
Assim como teus olhos,
tua boca,
teus trejeitos.
O que faço sem ti?
Apenas vivo.
Espero, a cada dia,
o retorno do meu amor.
Desistir de ti não me passa pela mente.
Machucaste-me fundo —
e eu também te machuquei.
Perdoo-te todos os dias,
assim como me perdoei.
Não posso fazer mais nada.
Mas o que posso, não canso de fazer:
amar-te com tudo o que tenho a oferecer.
Para mim, o maior tédio do amor é quando você está ao lado de alguém especial e sente uma paz enorme, gigantesca... Aquela paz que vem de Deus, sabe? Você só quer ficar ali o resto do dia, deixando as horas passarem, porque do lado dela o mundo para!
Raphael Denizart
hereditário, até mim.
Meu filho, minha filha, eu ainda não sei como será o seu rosto, se você vai carregar os meus olhos, o meu sorriso ou alguma mania tão parecida comigo que vai me fazer parar por alguns segundos diante de você tentando entender como alguém que ainda nem existia conseguiu carregar alguma parte de mim, mas existe uma coisa que eu já sei antes mesmo de conhecer a sua voz, você nunca vai precisar olhar para dentro de si procurando uma razão para o meu amor. Eu quero que você cresça sabendo que foi desejado antes de ser visto, amado antes de ser tocado e esperado antes mesmo de ter um nome, porque eu conheço o estrago que a dúvida pode fazer quando ela cresce junto com uma criança.
Eu sei como é olhar para os próprios pais e não entender por que o carinho parece tão difícil de alcançar, como se existisse alguma distância invisível entre você e as pessoas que deveriam ser o seu primeiro abrigo. Passei boa parte da infância tentando compreender coisas que uma criança nunca deveria precisar compreender, observando meu pai, observando minha mãe, tentando encontrar algum sentido nas dores que existiam dentro daquela casa e que, embora não tivessem começado comigo, acabavam chegando até mim.
Meu pai tinha as próprias feridas, os próprios erros e as próprias maneiras de fazer o mundo pesar sobre quem estava perto dele, e minha mãe carregava as consequências de muitas dessas coisas dentro dela, junto com a sensação de ter perdido uma parte da própria juventude e de ter precisado amadurecer em lugares onde talvez só devesse ter vivido. Eu era pequeno demais para saber separar a dor dela da minha, então muitas vezes aquilo que machucava minha mãe encontrava em mim um lugar para continuar existindo, e eu recebia sentimentos que não sabia nomear, muito menos entender de onde vinham.
Hoje eu consigo olhar para isso com outros olhos e perceber que ela também era uma pessoa tentando sobreviver às próprias circunstâncias, mas naquela época eu não tinha essa capacidade. Eu só sabia que alguma coisa estava errada e, como toda criança que ainda não conhece a complexidade dos adultos, comecei a procurar a resposta em mim. Talvez eu tivesse feito alguma coisa. Talvez eu não fosse bom o bastante. Talvez se eu fosse diferente, mais obediente, mais quieto, mais fácil de amar, alguma coisa dentro daquela casa finalmente encontrasse paz.
Foi assim que algumas culpas cresceram comigo.
A culpa por não conseguir proteger minha mãe, como se fosse responsabilidade de uma criança impedir a dor de um adulto. A culpa por sentir raiva de quem também estava sofrendo. A culpa por ter precisado de afeto justamente quando as pessoas ao meu redor estavam ocupadas demais tentando sobreviver às próprias dores para perceber que eu também precisava ser cuidado. E, enquanto outras pessoas podiam simplesmente atravessar a infância, eu fui aprendendo cedo demais a observar o ambiente, medir palavras, perceber mudanças de humor e tentar descobrir quando era seguro simplesmente existir.
Eu não quero isso para você.
Quero que a sua infância tenha espaço para ser infância, que você possa desperdiçar uma tarde brincando de alguma coisa que eu não entendo, que possa voltar para casa cheio de histórias inúteis e maravilhosas, que possa se apaixonar pela primeira vez sem medo de contar, errar sem imaginar que o seu erro vai fazer alguém deixar de amar você e crescer sem precisar descobrir cedo demais como os adultos escondem suas próprias dores.
Quando alguma coisa acontecer, eu quero que você pense em mim como alguém para quem você pode correr, não alguém de quem precisa se esconder. Se o mundo te machucar, eu quero conhecer a ferida antes de perguntar quem teve razão. Se você fizer alguma coisa da qual tenha vergonha, quero que a primeira coisa que encontre nos meus olhos seja a certeza de que aquilo não mudou o lugar que você ocupa em mim. Se um dia você não souber o que está sentindo, quero que possa sentar ao meu lado em silêncio e ainda assim sentir que não está sozinho.
Porque eu sei o que acontece quando uma criança aprende que precisa resolver tudo dentro dela.
Ela cresce.
E leva essa criança consigo.
Durante muito tempo eu carreguei a sensação de que precisava ser forte antes mesmo de saber o que força significava, e talvez parte dos problemas que vieram depois tenham nascido justamente dessa falta de colo, dessa dificuldade de acreditar que alguém poderia ficar quando eu deixasse de ser conveniente, dessa necessidade de procurar nos outros aquilo que deveria ter aprendido primeiro dentro de casa. A ausência de afeto não desaparece quando a infância termina, as vezes ela apenas muda de roupa e passa a aparecer nos relacionamentos, nas escolhas, nos medos, na maneira como alguém ama e até na maneira como espera ser abandonado.
Eu não quero que você precise aprender amor pela falta dele.
Quero que você aprenda pelo excesso.
Quero que você saiba que pode ser amado sem produzir nada em troca, que pode existir sem precisar provar o próprio valor, que pode discordar de mim sem perder meu respeito, que pode seguir uma vida completamente diferente da que eu imaginei e ainda encontrar em mim alguém torcendo por você. Não quero criar uma versão de você que corresponda às minhas expectativas, quero conhecer a pessoa que vai nascer quando você descobrir quem é.
E se algum dia você se parecer comigo, que seja apenas nas coisas bonitas que eu conseguir deixar para trás. Talvez você tenha meu rosto, minha voz, meus gestos ou alguma mania que vai fazer sua mãe rir porque ela vai reconhecer imediatamente de onde veio, mas eu não quero que você precise carregar aquilo que me feriu só porque veio antes de você. Você não é a continuação das minhas dores, assim como eu não deveria ter sido responsável pelas dores dos meus pais.
Eu passei muito tempo tentando não me tornar aquilo que me machucou e descobri que não basta fugir de uma herança para quebrá-la, é preciso olhar para ela de frente, reconhecer onde ela deixou marcas e decidir conscientemente o que termina ali. Eu não posso mudar o pai que tive, não posso devolver a infância que perdi, não posso apagar as vezes em que precisei entender sozinho coisas que deveriam ter sido explicadas com carinho, nem posso voltar no tempo para abraçar aquele menino e dizer que nada daquilo era culpa dele.
Mas posso fazer uma coisa que talvez seja ainda mais importante.
Posso impedir que ele continue existindo através de você.
Se algum dia eu errar, quero que você veja em mim alguém capaz de reconhecer o próprio erro. Se eu estiver errado, quero que minha idade não seja uma desculpa para estar certo. Se você me mostrar uma dor que eu não consigo compreender, quero que minha primeira reação seja tentar conhecê-la, não diminuí-la. Eu não quero usar a autoridade de ser seu pai para impedir que você tenha voz, porque sei demais sobre o que acontece quando uma criança aprende que seus sentimentos precisam desaparecer para que os adultos consigam continuar.
Você não vai precisar carregar a culpa pelo casamento dos seus pais, pelas dificuldades deles, pelas escolhas deles ou pelas coisas que aconteceram antes de você chegar. Se eu e sua mãe tivermos problemas, eles serão nossos. Se estivermos cansados, será nossa responsabilidade encontrar uma maneira de cuidar um do outro sem transformar você em testemunha ou responsável por aquilo que não lhe pertence.
Eu quero que você tenha uma coisa que para mim demorou muito para existir, a certeza de que os adultos ao seu redor são responsáveis pelas próprias feridas.
Você será filho.
Nada além disso.
E talvez seja justamente essa a maior forma de proteção que eu possa oferecer.
Não quero que você seja meu confidente quando eu estiver quebrado, não quero que você precise escolher lados, não quero que sinta que precisa me salvar, muito menos que precise amadurecer para me entender. Se um dia eu estiver mal, vou tentar encontrar outros adultos para dividir o peso, porque você não nasceu para carregar aquilo que eu não consegui resolver.
Você nasceu para viver.
E eu quero assistir.
Quero assistir você descobrir as coisas, mudar de ideia, escolher caminhos que eu jamais escolheria, quebrar a cara, voltar para casa, se apaixonar, perder alguém, ganhar alguma coisa importante, rir até faltar ar e chegar aos trinta anos contando uma história da sua adolescência que eu provavelmente vou fingir que já sabia. Quero estar presente nas partes bonitas e nas partes difíceis, não para controlar a sua vida, mas para que você nunca precise atravessar nenhuma delas acreditando que está sozinho.
Talvez algum dia você me pergunte sobre o meu passado e eu precise falar das coisas que me fizeram ser quem sou. Talvez eu conte sobre um menino que cresceu cercado por adultos que também não sabiam muito bem como cuidar das próprias dores, sobre um pai que deixou marcas e uma mãe que também carregava marcas demais, sobre a culpa de ter visto coisas que nunca deveria ter visto e sobre a sensação de ter perdido pedaços de uma juventude tentando entender uma família que não sabia como permanecer inteira.
Eu provavelmente vou chorar quando contar.
Mas espero que, depois de ouvir tudo, você consiga perceber que aquelas histórias chegam até mim e param aqui.
Não atravessam você.
Porque você não precisa pagar pela minha infância, assim como eu nunca deveria ter precisado pagar pela infância dos meus pais. Eu não quero transformar aquilo que me faltou em uma dívida que você precisa quitar sendo o filho perfeito. Quero transformar aquilo em consciência, para que eu saiba exatamente o tipo de pai que quero ser quando você precisar de mim.
E talvez seja por isso que pensar em você tenha uma tristeza tão bonita.
Porque, de alguma maneira, eu consigo imaginar uma criança recebendo aquilo que um dia eu procurei sem saber como pedir. Consigo imaginar alguém crescendo com a certeza de que existe uma pessoa no mundo para quem sua existência nunca será um peso. Consigo imaginar você entrando pela porta depois de um dia ruim, jogando as coisas no chão, sentando ao meu lado e contando alguma coisa que para qualquer outra pessoa pareceria pequena, mas que para mim será importante simplesmente porque aconteceu com você.
E talvez naquele momento eu entenda que não consegui voltar para buscar aquela criança que fui, mas consegui impedir que ela desaparecesse sem deixar nada de bom para trás.
Ela me ensinou o que eu não quero repetir.
Ela me mostrou onde dói.
E, de alguma forma, me trouxe até você.
Se um dia você olhar para mim e perceber que somos parecidos, eu espero que não seja preciso ter medo daquilo que encontrou. Quero que você possa reconhecer meu rosto no seu sem encontrar nele a obrigação de repetir minha história. Quero que você carregue meu sangue sem carregar meus fantasmas, que tenha meus olhos sem enxergar o mundo através das minhas cicatrizes e que, quando pensar em mim, a palavra que venha antes de qualquer outra seja abrigo.
Porque eu quero ser o homem que fica.
O homem para quem você liga quando não sabe para onde ir.
O homem cujo abraço não precisa ser merecido.
O homem que consegue ouvir um “eu errei” sem transformar aquilo em vergonha.
O homem que, mesmo depois de uma discussão, ainda deixa a porta aberta.
E, principalmente, quero ser aquele pai que você nunca precisará perguntar se ama você, porque isso estará tão presente na maneira como eu te olho, te escuto, te protejo e te deixo ser quem você é que a pergunta sequer vai precisar nascer.
Quando você for adulto, talvez já não precise tanto de mim. Talvez tenha sua própria casa, sua própria família, seus próprios problemas e uma vida que eu só vou conhecer em partes. Mas eu espero que alguma coisa permaneça intacta dentro de você, uma memória simples de quando era pequeno e acreditava que o mundo podia ser enfrentado porque seu pai estava por perto.
E se algum dia você tiver um filho, talvez compreenda por que eu escrevi tudo isso antes mesmo de saber quem você seria.
Eu não estava tentando imaginar uma criança perfeita.
Estava tentando imaginar uma criança livre daquilo que me aprisionou.
Eu não quero ser lembrado como o pai que nunca errou. Quero ser lembrado como o pai que tentou não fazer você pagar pelos erros que vieram antes dele. Quero que você saiba que eu também tive medo, que também carreguei culpa, que também precisei aprender a amar sem confundir amor com abandono, mas que em algum momento decidi que a minha história não precisava continuar exatamente como começou.
Algumas heranças são feitas de sangue.
Outras são feitas de silêncio.
Eu quero que a minha para você seja feita de amor.
E talvez seja essa a única maneira que encontrei de conversar com aquela criança que ainda existe em algum lugar dentro de mim, prometendo a ela que o que faltou não será esquecido, mas também não será repetido.
Porque um dia você vai nascer, vai olhar para mim sem saber absolutamente nada sobre o homem que está diante de você, e eu vou ter a vida inteira para te mostrar.
Nesse primeiro olhar, eu espero que você não veja perfeição.
Espero que veja presença.
E, quando você crescer, quando puder entender todas as coisas que eu não consegui explicar enquanto era pequeno, talvez finalmente consiga compreender a promessa que fiz antes mesmo de você existir
eu não posso mudar o pai que eu tive, nem a mãe que tive, nem salvar o menino que fui, mas posso amar você de uma maneira que faça aquela história terminar em mim.
E, se eu conseguir fazer isso, talvez pela primeira vez uma coisa que começou como ausência termine como presença, uma coisa que começou como culpa termine como proteção, e tudo aquilo que um dia me fez perguntar se eu era digno de amor encontre finalmente uma resposta em você.
Não porque você veio me curar.
Mas porque você nunca precisará ser ferido para aprender o que é ser amado.
O que é a felicidade pra mim?
Antigamente, eu diria que amar e ser amada, preferencialmente trabalhando com o que ama também. O que, pra mim, já que essa é uma pergunta muito subjetiva, seria tudo o que eu queria e precisava. Hoje, eu digo que a felicidade só existe realmente em filmes e séries onde a justiça sempre acontece e geralmente o amor dá certo de alguma forma, por mais improvável que seja. Hoje eu não acredito em felicidade, só em momentos felizes que nunca duram o bastante e raramente acontecem.
O nosso mundo é uma fábrica de dor, não de sorrisos. É inútil esperar pela felicidade. Raramente alguém consegue isso. A dor é a única certeza da vida, tanto física quanto emocional. Quando você para de esperar por algo bom, é quando para de sofrer tanto pela falta disso. Você entende o jogo.
Se há felicidade, não é aqui. Talvez do outro lado, em outra vida, em outro mundo. Mas não aqui. Raros sortudos conseguem isso, mas mesmo assim, costuma acabar em algum momento. Se a gente considerar o amor como parte da felicidade de alguém, que é sempre subjetivo, a vida sempre vai dar um jeito de arrancar a pessoa de você, ou te arrancar dela se você tiver mais sorte e viver menos. Mesmo que encontre o "felizes para sempre", em algum momento vai perder ou será a perda. Claro, eu preferiria viver isso, mesmo que perdesse, do que não, mas... Pra os raros que conseguem isso de verdade, além da fachada, ou de relações de plástico, por conveniência, onde seria fácil deixar o outro pra trás, mesmo esses não costumam ter um final feliz, ainda que consigam, contra todas as probabilidades, uma vida assim.
As vezes sinto falta de acreditar nisso, mas raramente eu sinto de novo como se o impossível fosse possível. Talvez, por crescer entre o fim dos anos 90 e início dos 2000, vendo comédias românticas, me tornei uma romântica e tive, desde que me entendo por gente, o amor como a razão da tudo. Hoje o amor é algo fora de moda, considerado tosco e até estranho. Essa não é mesmo a minha época. Sinto que perder isso foi como perder o sentido de tudo. Isso era a felicidade pra mim. Antes eu dizia, e realmente acreditava, que poderia morar embaixo de uma ponte e ser feliz, contanto que estivesse com quem amo. Eu sei, é estúpido. Mas essa é a verdade sobre mim. Felicidade, pra mim, é ilusão.
Hoje o dinheiro é o que mais importa pra tornar a vida um pouco menos insuportável, já que ele vale mais que a vida de qualquer pessoa no sistema que vivemos. Além disso, por minhas questões de saúde, jamais poderia morar embaixo de uma ponte hoje. No fundo, ainda daria tudo pra reencontrar o que perdi e mudar de ideia, mas... Aqui é a vida real, não é?
- Marcela Lobato
Quando o “você” morreu em mim…
Foi em uma tarde azul de nuvens-pássaro
Constantei, de repente,
Que morreu em mim aquela distância,
Aquela ânsia
E aquela saudade,
E o você que me torturava…
E eu sorri menino,
De um riso que se desprende em meio ao medo.
Escapa o sorriso, e o coração se vê livre
De qualquer algema que tenha um nome.
E a cabeça pergunta como, onde, quando e por quê,
E o corpo só quer dançar e voar nesses momentos,
Com aquelas nuvens-pássaro
A bailarem com o vento…
O Homem que Sobrou de Todos os Homens
Antes de mim
já havia o silêncio.
Depois,
alguém acendeu uma luz
e chamou aquilo de nascimento.
Não me perguntaram
se eu queria estar aqui.
Deram-me um corpo,
um nome,
um punhado de ossos
e uma consciência inquieta
demais para caber dentro deles.
Passei a infância
aprendendo o tamanho das coisas.
O quintal parecia infinito.
O céu não terminava.
O tempo não tinha pressa.
Eu ainda não sabia
que um dia os relógios
começariam a devorar pessoas.
Nem que homens adultos
acordariam cedo
para vender seus dias
em troca de dinheiro
com o qual comprariam
mais alguns dias.
Eu ainda não sabia
que crescer seria
descobrir lentamente
que quase tudo aquilo
que chamávamos de escolha
já vinha com preço.
Então cresci.
E o corpo cresceu comigo.
Mas dentro dele
continuava aquele menino
batendo nas paredes
de uma casa que não sabia
ser sua.
Foi quando comecei
a desmontar o universo.
Procurei Deus
atrás das estrelas.
Depois procurei estrelas
dentro dos átomos.
Procurei respostas
na matéria,
e encontrei vazio.
Procurei vazio,
e encontrei movimento.
Procurei movimento,
e encontrei caos.
Procurei o caos,
e encontrei a mim.
Talvez tenha sido aí
que tudo começou a dar errado.
Porque descobrir a própria consciência
é uma forma sofisticada
de perder a inocência.
Depois que percebemos
que estamos vivos,
não conseguimos mais
fingir que não estamos.
E eu pensei demais.
Pensei até o pensamento
ficar pesado.
Pensei até transformar
a própria cabeça
em um quarto sem janela.
Houve noites
em que o silêncio
tinha mais presença
que qualquer pessoa.
O mundo dormia.
Eu não.
Eu contava as rachaduras
do teto
como quem procura
uma saída no mapa de uma prisão.
Às vezes queria desaparecer.
Não como quem deseja um fim,
mas como quem deseja
que alguém apague
uma palavra escrita errada
antes que a página inteira
seja condenada por ela.
Queria ser menos eu.
Depois descobri
que era impossível.
Então tentei ser outra coisa.
Fui raiva.
Fui veneno.
Fui punho.
Fui grito.
Fui a palavra que ninguém queria ouvir
na mesa onde todos fingiam
que estava tudo bem.
Olhei para o mundo
e achei que ele merecia
ser destruído.
Depois olhei melhor
e percebi:
eu também fazia parte dele.
Essa foi uma descoberta pior.
Porque é fácil odiar monstros
quando acreditamos não possuir dentes.
Mais difícil é perceber
que às vezes o monstro
mora no espelho
e paga suas próprias contas.
Ainda assim, lutei.
Contra homens.
Contra ideias.
Contra sistemas.
Contra deuses.
Contra o destino.
Contra mim.
E por algum tempo
confundi liberdade
com não pertencer a nada.
Que erro.
A liberdade não é ausência de correntes.
É saber quais delas
você aceita carregar.
Então veio o amor.
E eu, que desconfiava
de quase tudo,
acreditei.
Que ironia.
Passei anos procurando
uma prova de que a vida tinha sentido
e bastou alguém
olhar para mim
como se eu tivesse.
O amor não me salvou.
Nenhum amor salva.
Ele apenas mostrou
que havia coisas
pelas quais valia a pena
continuar lutando.
E isso foi suficiente.
Depois vieram as perdas.
Porque toda coisa que amamos
carrega consigo
a possibilidade de nos ferir.
Aprendi tarde
que algumas pessoas
não ficam.
Algumas são passagem.
Algumas são cicatriz.
Algumas são casa
e algumas são incêndio.
E algumas conseguem ser
as duas coisas.
Continuei andando.
Não por coragem.
Por insistência.
Há uma diferença.
Coragem olha para o abismo
e decide saltar ou não.
Insistência simplesmente
acorda no dia seguinte.
Eu acordei muitas vezes.
Algumas sem vontade.
Algumas sem esperança.
Algumas sem saber
o que fazer comigo.
Mas acordei.
E um dia percebi
que havia outras pessoas
acordando por minha causa.
Foi então que o homem
que queria desaparecer
começou a compreender
o peso de permanecer.
Já não era apenas meu corpo.
Já não era apenas minha vida.
Havia mãos pequenas
que ainda não entendiam
a palavra futuro,
mas já eram capazes
de mudar o meu.
Foi nesse instante
que o tempo deixou de ser inimigo.
Ele passou a ser herança.
E compreendi algo
que nenhuma equação
havia conseguido me ensinar:
nós não somos apenas
aquilo que lembramos.
Somos também
aquilo que ensinamos
sem perceber.
Somos a frase que alguém repete
anos depois.
O gesto que alguém reproduz.
A coragem que alguém encontra
porque um dia viu a nossa.
Somos aquilo que permanece
quando o nome já não está
na boca de ninguém.
Talvez seja essa
a única forma humana
de eternidade.
Não durar.
Continuar.
Hoje ainda tenho perguntas.
Muitas.
Algumas envelheceram comigo.
Outras nasceram ontem.
Ainda desconfio de Deus.
Ainda desconfio dos homens.
Ainda desconfio de mim.
A diferença é que já não preciso
resolver todos os mistérios
para apreciar o fato
de estar dentro deles.
Já não preciso compreender
o universo inteiro
para amar alguém
nesta pequena parte dele.
Já não preciso vencer
todas as batalhas
para reconhecer
que sobrevivi a algumas.
E já não quero apagar
nenhuma versão de mim.
O menino.
O revoltado.
O apaixonado.
O bêbado de pensamentos.
O homem perdido.
O homem arrogante.
O homem quebrado.
O homem que achou
que não haveria amanhã.
Todos eles continuam aqui.
Não como fantasmas.
Como fundação.
Eu sou o erro
que aprendeu com o erro.
A ferida
que aprendeu a fechar
sem esquecer onde doeu.
A pergunta
que desistiu de exigir resposta.
O caos
que encontrou uma maneira
de não destruir tudo.
A matéria
que, por algum acidente absurdo,
aprendeu a amar.
E talvez seja isso
que mais me assuste:
depois de passar tanto tempo
querendo descobrir
o que existe depois da vida,
eu finalmente comecei
a prestar atenção
no que existe dentro dela.
Um café quente.
Uma madrugada.
Uma discussão.
Um abraço.
Uma criança dormindo.
Uma fotografia antiga.
Um erro que ainda dói.
Uma gargalhada inesperada.
Uma pessoa dizendo
“fica”.
O sol entrando pela janela
sem pedir licença.
A vida.
Essa coisa estranha
que nunca explicou
por que me escolheu.
E que, ainda assim,
eu escolhi de volta.
Quando meu corpo finalmente cansar,
quando a matéria
voltar a ser matéria,
quando meu nome for apenas
uma palavra antiga
em alguma boca distante,
não quero que digam
que fui um homem sem respostas.
Eu fui pior.
Fui um homem cheio delas.
Tive respostas demais
para perguntas erradas.
Passei metade da vida
tentando descobrir
como escapar do labirinto.
A outra metade
aprendendo a construir
janelas dentro dele.
E se algum dia
alguém encontrar minhas palavras,
não procure nelas
um homem pronto.
Não existe.
Procure um homem
tentando.
Porque foi isso
que eu fiz.
Tentei.
Tentei entender.
Tentei amar.
Tentei odiar.
Tentei fugir.
Tentei ficar.
Tentei ser pai.
Tentei ser filho.
Tentei ser homem
antes mesmo de descobrir
o que isso significava.
Tentei transformar dor
em alguma coisa que não fosse desperdício.
Às vezes consegui.
Às vezes não.
Mas escrevi.
E talvez escrever tenha sido
a maneira mais honesta
que encontrei
de deixar sangue no papel
sem precisar morrer por ele.
Agora olho para trás.
Há muitos homens
espalhados pela estrada.
Todos têm meu rosto.
Nenhum é exatamente eu.
Eu sou o intervalo
entre eles.
O espaço invisível
onde um termina
e outro começa.
Sou o menino
que ainda olha para o céu.
O homem
que ainda pergunta.
O pai
que já sabe que amanhã chegará.
E o velho
que ainda não conheço.
Talvez um dia
eu finalmente compreenda
por que nasci.
Talvez não.
Mas já não tenho tanta pressa.
Tenho coisas para fazer.
Tenho pessoas para amar.
Tenho erros para corrigir.
Tenho histórias para contar.
Tenho amanhã.
E, pela primeira vez,
isso não parece pouco.
Parece infinito.
Porque agora eu sei:
não é preciso vencer a morte.
Basta não deixar
que ela seja a última coisa
a dizer quem fomos.
Então, quando chegar minha vez,
que o universo faça comigo
o que sempre fez com tudo:
me desmonte.
Quebre meus átomos.
Espalhe minha matéria.
Devolva meu corpo
ao chão.
Não me importo.
Porque antes disso
eu terei sido muitas coisas.
E algumas delas
terão ficado.
Num filho.
Num abraço.
Numa lembrança.
Numa cicatriz.
Num riso.
Numa página.
E talvez,
em algum lugar,
um homem que nunca conhecerei
leia estas palavras
e perceba que não está sozinho.
Então tudo terá valido a pena.
Não porque eu descobri
o sentido da vida.
Mas porque, no fim,
eu finalmente descobri
que o sentido não estava esperando
por mim em lugar algum.
Eu estava construindo.
Enquanto caía.
Enquanto amava.
Enquanto errava.
Enquanto envelhecia.
Enquanto escrevia.
E entre todos os homens
que eu fui,
entre todos os homens
que ainda posso ser,
há somente um
que permanece.
Não o primeiro.
Não o último.
Mas aquele que escolheu
continuar.
Eu.
Se eu insisti em você, não foi por falta de amor-próprio, mas porque você era especial para mim. Infelizmente, nem todo mundo sabe valorizar o real e prefere viver de orgulho e status!
Uma vez sentado à uma mesa de bar degustando uma salada, um homem rude e bêbado veio à mim cambaleante com os olhos fixos no meu prato, parou e rapidamente furtou uma folha de alface com suas mãos sujas e disse: E agora, você vai fazer o que? Respondi: Agora eu vou te dar a outra alface mas não se acostume, pois os tempos mudaram!
As quintas-feiras são sempre filosóficas para mim.
Minha vida começou em uma quinta.
Uma quinta mudou minha vida.
É sempre às quintas...
Vai saber o que mais as quintas farão
ou quantas outras quintas virão.
Gente boa
(Mauro 1Evaristo)
Tem gente boa torcendo por mim
Logo, o peso do fardo não é tanto assim
O que não me deixa esquecer
Que tenho muito o que agradecer.
Tem gente boa torcendo por mim
Por isso, além das pedras, vejo jardins
O que favorece jamais esquecer
Que tenho muito o que agradecer.
Tem gente boa torcendo por mim
Por isso o fardo não pesa tanto assim
O que me possibilita entender
Que além das pedras existem jardins
Nos quais posso sempre perceber
Que tenho muito o que agradecer.
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Senhor, me concedeste uma princesa como esposa. Agora forja em mim a alma de um príncipe segundo o Teu coração.
Para mim, a tua beleza é incontestável,
tens um corpo divino, um rosto lindo e delicado, um olhar vívido e reluzente,
um fulgor notável
semelhante a uma cor escarlate
que irradia de todo o teu ser,
então, és uma mulher que atiça todos
os meus sentidos,
enaltecer-te é o mínimo que eu faço,
pois sinto uma incansável vontade
de ter-te em meus braços.
Pra mim, o teu olhar é atraente,
transmite uma verdade,
mas sei que é apemas uma amostra
da tua notória intensidade
e isso atiça a minha mente
pra tentar desvendar-te,
és uma mulher envolvente
de intensos detalhes.
O Som da Tua Essência
Se tu fosses música, sem dúvida, serias a mais ouvida por mim; a trilha sonora perfeita, adequada para os melhores momentos. Estarias exatamente no ritmo do meu coração: do batimento calmo ao mais intenso. Às vezes, estarias em forma de canção e, outras, na emoção de uma simples melodia, sempre conquistando a minha atenção.
Nos meus sonhos mais calorosos, passarias por uma transformação prazerosa e ganharias uma aparência física: uma arte sedutora e profunda, de muita veemência e lindas curvas, cuja alma seria amorosa e verdadeira. Teríamos uma forte sonoridade à nossa volta, que intensificaria ainda mais o nosso desejo. Em cada sonho, uma ocasião maravilhosa.
Para a minha sorte, tenho uma imaginação poderosa e, só de imaginar, consigo ouvir o som da tua essência. Sonho de olhos abertos com as notas dos nossos sentimentos sincronizadas, os nossos corpos afinados em um único propósito, numa loucura sensata e uma rica desenvoltura, que não poderia ser comparada se tu fosses música.
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