Despedida do meu Pai que Ja Morreu

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⁠RISO

Demétrio Sena - Magé

Já podemos curtir a Gloria Groove,
sem cair no vespeiro anti-comunas;
ver as dunas na praia e não temer
que nos firam por nossa liberdade...
E podemos falar de Paulo Freire,
relembrar o Darcy, crer na cultura,
na sutura do caos que se alastrou
nesses anos de plena ignorância...
Derrubamos o monstro do cercado;
seu legado esperneia pelas ruas,
mas aos poucos a pilha se desgasta...
Ninguém ache que agora é paraíso;
é apenas o riso dos que sabem
que ninguém é feliz com repressão...
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#respeiteautorias Isso é lei

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⁠BONDE FANTASMA

Demétrio Sena - Magé

Minha vida já deu; não por desgosto;
por nenhuma tristeza; depressão;
pelo não do meu sonho a cada dia
nem por tantos cansaços de seguir...
É um flanco estendido sob os pés,
a lacuna dos tempos desgastados,
um revés de mistérios resolvidos
que perderam a graça para mim...
Os meus anos gastaram a minh'alma;
desbotaram as minhas fantasias;
tenho calma que arrasta ferros velhos...
Quero ir e não tenho para onde;
meu estado é cratera capital;
é um bonde fantasma sem destino...
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#respeiteautorias É lei

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⁠REVISÃO DA VIDA TODA

Demétrio Sena - Magé

Já magoei tanta gente, e tão profundo, que as mágoas têm herdeiros. Atravessaram geração. Tive muita raiva do mundo, na infância e juventude. Com a raiva, muitos complexos, paranoia, espírito armado e uma truculência, um deboche ácido que não poupavam ninguém... todo mundo era o mundo do qual tive raiva.
É tanto perdão a ser pedido, que meu medo é dar espetáculos e constranger. Às vezes o faço de forma expressa, e outras, com tentativas sutis de aproximação nem sempre bem sucedidas. Sei como me dirigir a quem magoei, mas é difícil fazê-lo com os herdeiros das mágoas. Acho que todas as demonstrações de afeto, apreço e as manifestações naturais das mudanças que o tempo fez em mim serão insuficientes. Criei nas pessoas um temor de que aquele jovem ainda esteja escondido em minhas entranhas. Hoje, quando me recolho, é porque reconheço a razão que todos têm para isso.
Neste momento escrevo para mim. Mas também para que meus "ledores", que porventura tenham essa experiência, não se sintam sós... e para que alguns jovens, também raivosos do mundo, reflitam sobre não permitirem que sua raiva lhes faça o mesmo que a mim. Esse sentimento habita bem mais pessoas do que supomos.
Não sou o típico indivíduo maduro que bate no peito e se diz alguém muito melhor do que "ontem". Sou a mesma pessoa, que hoje lida melhor consigo, com o outro, aprendeu a se administrar, desenvolveu afeto e faz da raiva do mundo, ativismo social com literatura. E ter errado tanto, com tantos, me ajudou a não levar a ferro e fogo aqueles que hoje erram comigo (sim, algumas pessoas também erram comigo).
Sermos mais humanos, por termos aprendido com a própria desumanidade, nos ajuda a entender e ter empatia pelo próximo. E se não cometo os erros do passado, sei que ora cometo outros; espero que não tão contundentes... como espero continuar melhorando e aprendendo. Isso é para sempre... na duração do nosso sempre.
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⁠ESCRAVO DE NÃO SER ESCRAVO

Demétrio Sena - Magé

Já tive a fome como a minha escolha,
quando meu cardápio era ter fome ou ser livre.
Quando ter comida e ter também liberdade
não caberiam na bolha do meu mundo...
Na verdade, optei por comer poesia,
por ter as artes como sobremesa,
se a mesa não podia ser variada;
era isto ou aquilo, na barriga ou n'alma...
Hoje como ensopado de cultura,
já tendo alimentado bem o corpo...
não cato mais tanajura pra ter "carne"...
poesia é meu emprego, as artes complemento.
Meu alimento é graças à teimosia
de querer me manter de ambas as formas.
Compro meu vestuário, embora modesto,
com o que "não dá camisa pra ninguém";
não disse amém à receita desumana
de suor e de sangue para ter comida;
da lida insana que os exploradores ditam.
Fui um bravo sem nome; sem escudo;
devo tudo a ter escolhido a fome,
quando a fome queria me tornar escravo.
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⁠SÓ ME RESTA SABER

Demétrio Sena - Magé

Há um peso nos olhos pro futuro
e minh'alma já pede pra descer,
a viagem no escuro dos meus passos
é um ter que seguir porque respiro...
Uma vida que teme o mundo à vista,
em um tempo que há tempos expirou,
minha grande conquista não é mais
do que haver alcançado a minha idade...
Levo apenas o caos nesta mochila,
o meu sonho cochila e caio em mim,
só me resta saber que tudo é resto...
Chego ao ponto em que sigo reticências,
vim além da banguela e sobrevoo
as vivências há muito não vividas...
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⁠ATADOS

Demétrio Sena - Magé

Já não morro de amores por te amar;
sentimento inquieto e sem futuro;
há um mar entre nossos continentes,
tem um muro difícil de transpor...
Minhas fugas acabam em retornos,
cada voo termina em recaída,
são adornos as nossas alegrias
numa vida marcada por tensões...
Um amor que nos gasta feito lixa;
uma rixa incrustada na paixão;
soluções insolúveis que viciam...
Nós estamos atados um ao outro
pelos nós do sentido que não faz,
quando jaz o que vive de morrer...
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⁠DÍZIMO E VOTO

Demétrio Sena - Magé

Já nem tento entender o sucesso do mal;
da vingança, da raiva e do separatismo;
do mesmismo incansável dessa multidão
que parece tomada por crenças vorazes...
Não entendo a cegueira descabida e bruta
empedrada na fé dominada por donos
dos palácios, dos tronos e templos venais
onde marcam fiéis e tangem feito gado...
É difícil saber com que ópio esse povo
come ovo, nem isso, mas arrota ostras
e cultua quem brinca da sua pobreza...
Ou quem tem algo mais e se mostra guru
do faminto e do nu que dão graças a Deus,
pois ainda conseguem dar dízimo e voto...
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⁠MEGA

Demétrio Sena - Magé

Quem achar que seguir é só correr,
já não pode agachar o próprio ego,
vá viver de confetes, holofotes,
numa saga de coisas e montantes...
Ganhe tempo; não perca com amigos
que não podem somar no seu estoque;
não evoque as raízes; as origens;
nostalgias não cabem nos negócios...
Os afetos de outrora, os primitivos
estão vivos, mas finja que morreram
e alguns estão mesmo de partida...
Coma e beba o que há pra consumir,
compre tudo que dá para mostrar
ou que possa entupir o seu abismo...
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Inserida por demetriosena

⁠PELA RAIZ

Demétrio Sena - Magé

Se ele ou ela,
mal começou,
já lhe assevera
em alta voz:
"Se afaste dele
ou dela,
por mim, por nós,
por nosso amor"...
Chegou a hora
de ir lá dentro,
se recompor,
impor su'alma,
sem aquarela...
Sem meio passo,
se afaste dele
ou dela...
não daquele
ou daquela
de quem ele
ou de quem ela
quer lhe privar...
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Inserida por demetriosena

⁠FEIRA DO TEMPO

Demétrio Sena - Magé

Minha mãe já demora e me preocupa,
pois me deixa perdido nesta feira,
nesta culpa infantil por ter ficado
entretido nas cores; entre cheiros...
Ela nunca voltou pra me buscar;
fico aqui, neste choro, a ver o mundo;
os meus olhos no mar e seus navios,
para dar um sentido à nostalgia...
E a feira do tempo não tem fim;
sua xepa se alonga no meu medo,
há em mim tanto caos e tanta espera...
O meu sonho perdeu a minha mãe;
meu silêncio ecoando além do além;
ela nem sinaliza; está bem mais...
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Inserida por demetriosena

⁠UMA VEZ

Demétrio Sena - Magé

Já teria sentido que feri bem fundo
e tentado lembrar quantas vezes o fiz;
pararia um segundo pra pensar melhor,
que ferir tantas vezes pode ser fatal...
Quem tem sempre razão e justificativa
ou se auto perdoa com base no brio,
seguirá prisioneiro do espelho enganoso;
nunca vai sentir frio na própria frieza...
Eu teria encontrado coragem medrosa
de quebrar o silêncio como jamais feito
e achar um defeito em minha perfeição...
Afinal correrei o meu risco temido;
ficarei espremido na sombra vezeira;
ousarei estar certo esta única vez...
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Inserida por demetriosena

⁠NOVA HISTÓRIA

Demétrio Sena - Magé

Esgotei os meus versos desse amor,
porque já me cansei de ser sozinho
no querer; no chamar; até na espera
do caminho traçado meio a meio...
Nunca hei de vencer uma razão
que resiste às verdades mais profundas,
tem um não como escudo indestrutível
contra outras razões que se afigurem...
Buscarei os meus versos noutras fontes;
vejo pontes que apontam outros vales;
vale a pena; preciso desse rumo...
Acharei um motivo pra compor
uma história de amor mais divisível
com quem tenha um olhar horizontal....
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Respeite autorias. É lei

Inserida por demetriosena

⁠DESMAIO

Demétrio Sena - Magé

Maio já desmaia
nos nevoeiros de junho...
a lua boceja.
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Inserida por demetriosena

Já faz tanto tempo que te vi mas ainda lembro do seu beijo. Ele tinha gosto de chiclete de morango.
Havia algo de errado comigo, como se eu tentasse ser serio. Mas era tudo tão engraçado. No fundo eu sabia que não haveria mais que um beijo.
As melhores estórias são como os melhores filmes,
sempre acontece alguma coisa pra perdermos o final.
Talvez se fosse um livro, onde sempre se acha uma hora pra reler, agente pudesse achar uma hora pra recomeçar. Mas olha que bobagem! Na vida não existe pause.
Então já que o whisky acabou, vou ouvir uma musica e lembrar de você.

Inserida por TeixeiraLuka

Se arrependimento matasse, a humanidade já estava extinta de tanto meter os pés pelas mãos.

Inserida por ironpaulo

Deus te da o que você precisa já a vida o que você merece!

Inserida por ironpaulo

A VIGILÂNCIA SERENA SOBRE O QUE JÁ FOI SUPERADO.
Autor: Marcelo Caetano Monteiro.

A reflexão que afirma que alguém não deve tropeçar no que já está abaixo de si não é um chamado ao orgulho, e sim um convite à brandura interior. O que está abaixo representa etapas vencidas, dores que já compreenderam seu lugar e aprenderam a silenciar. Contudo, cada vitória moral é sustentada por uma disciplina fraterna, jamais por altivez.

Quando olhamos para o próprior caminho com humildade, percebemos que ninguém progride sozinho. Os aprendizados vêm do contato com outros seres, das circunstâncias que nos moldam, e da benevolência que recebemos em momentos de fraqueza. Portanto, manter vigilância não significa erguer muros, mas caminhar com cuidado para não ferir a si mesmo nem aos outros. É reconhecer que a alma humana ainda traz áreas sensíveis que precisam de cuidado, e que o progresso espiritual é sempre uma construção comunitária.

Já ensinava Allan Kardec que o avanço do Espírito se realiza pela educação contínua e pela caridade recíproca. Assim, mesmo o que já parece resolvido em nós merece atenção, não como ameaça, mas como lembrança de que somos seres em aperfeiçoamento constante. A fraternidade que exercemos com o mundo deve refletir se também em nossa própria intimidade, acolhendo nossas partes frágeis sem julgamento severo.

A verdadeira grandeza não está em se sentir acima de algo, mas em caminhar com serenidade, humildade e afeto, compreendendo que cada passo pode ser uma oportunidade de servir, aprender e crescer.

Inserida por marcelo_monteiro_4

" Não tropeces no que já se encontra abaixo de ti. "

Inserida por marcelo_monteiro_4

AMIGOS. TÍTULO DE DOAÇÃO SILENCIOSA.
"Já não vos chamo de servos, mas de amigos"
(João 15:15)

" Esse é o título de maior grandeza qual poderíamos esperar receber do meigo Nazareno e pelo mesmo fazermos jus em toda nossa existência no corpo ou fora dele. "
Autor: Marcelo Caetano Monteiro .

Dentre os ensinamentos mais elevados e perenes de Jesus Cristo, há um que se destaca pela profundidade ética e pela exigência moral que impõe ao espírito humano. Em dado momento, afirmou o Mestre que “o verdadeiro amigo é aquele que dá a sua vida pela vida do amigo”.

Se tomarmos essa afirmação em sua literalidade rigorosa, seremos forçados a reconhecer a escassez de amigos autênticos na Terra. Pouquíssimos seriam capazes de entregar a própria existência física em favor de outrem. Contudo, o ensino do Cristo não se restringe ao plano biológico. Ele se projeta no campo simbólico, moral e espiritual da vida. Dar a vida não é apenas morrer pelo outro, mas viver para o outro. É dedicar tempo, energia, cuidado, escuta, renúncia e presença. Eis o labor silencioso da amizade verdadeira, tarefa que somente os amigos assumem com naturalidade e nobreza.

Essas amizades profundas, viscerais e estruturantes manifestam-se com frequência no seio da própria família. Não raramente, os maiores amigos dos filhos são seus próprios pais. A mãe que se anula em favor dos filhos, o pai que abdica do descanso, do lazer e do repouso para garantir escola, alimento, vestuário e dignidade. São existências que se doam integralmente, mesmo quando os filhos ainda não possuem maturidade para reconhecer tal grandeza e transformam-se, por vezes, em exigentes inconscientes do sacrifício alheio.

Esses pais representam o arquétipo do amigo maior. Oferecem tudo sem contabilizar retornos, e há um valor pedagógico imenso quando o filho percebe que não há cobrança, apenas entrega. A amizade autêntica percorre esse caminho da gratuidade, onde o amor não exige recibos nem garantias.

Por isso a amizade não se negocia, não se impõe, não se exige. Ela nasce da sintonia, da afinidade moral, da comunhão de sentimentos e da ressonância íntima entre consciências.

Os amigos apresentam-se sob as mais variadas formas. Há amigos religiosos e amigos ateus. Amigos de fé superficial e amigos de convicção profunda. Há os expansivos e os silenciosos, os simples e os sofisticados, os que transitam nos ambientes do prestígio social e os que vivem nas periferias da existência. Não importa a origem, a aparência ou o estatuto. Quando o coração pulsa de modo diferente na presença do outro, quando há alegria mútua no encontro, ali se estabelece a amizade.

A amizade assume relevância singular porque, muitas vezes, permite uma abertura maior do que a existente entre consanguíneos. Há temas íntimos, dores profundas e fragilidades que se expressam com mais liberdade diante do amigo do que no âmbito familiar. Isso não diminui a família, mas enaltece a função terapêutica e fraterna da amizade.

Justamente por isso, a amizade exige respeito. Não é lícito ferir com palavras, humilhar com censuras ou violentar emocionalmente aquele a quem chamamos amigo. Quanto maior o afeto, maior deve ser a delicadeza. A discordância é legítima, mas jamais pode converter-se em hostilidade. O verdadeiro amigo transita livremente na intimidade do outro sem profaná-la.

Ser amigo é, portanto, estar disposto a dar a vida no sentido moral do termo. Daí a amizade aproximar-se da irmandade. O amigo verdadeiro é um irmão de escolha consciente.

Essa alma irmã merece fidelidade. A amizade autêntica manifesta-se na constância, na presença nos dias claros e nos dias sombrios. Existem os chamados amigos ocasionais, que só se aproximam enquanto há vantagens, recursos ou prestígio. Quando a fortuna escasseia ou a visibilidade desaparece, eles se afastam silenciosamente.

Também é preciso reconhecer que, por vezes, nós mesmos falhamos como amigos, procurando-os apenas nos momentos de crise e esquecendo-os nos períodos de estabilidade. A ética da amizade exige reciprocidade contínua, não conveniência circunstancial.

Valorizamos aqueles que permanecem conosco em qualquer clima da vida. A fidelidade afasta a suspeita. Onde há amizade genuína, não deve haver desconfiança sistemática.

É fundamental não confundir amigos com colegas. O coleguismo limita-se ao espaço funcional, ao convívio circunstancial do trabalho, do esporte ou do cotidiano social. A amizade, por sua vez, pressupõe confiança, transparência, abertura e compromisso moral.

Nesse sentido, o ensino do Evangelho de João ilumina a compreensão da amizade quando registra as palavras do Cristo: “Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Tenho vos chamado amigos, porque tudo quanto aprendi de meu Pai vos tenho revelado”. Jesus define a amizade pela partilha, pela verdade oferecida sem máscaras, pela sinceridade que não oculta nem engana.

Evidentemente, trata-se de uma linguagem simbólica. O Cristo revelou tudo o que podíamos assimilar, respeitando nossas limitações intelectuais, morais e emocionais. A pedagogia do amor também ensina a dosar a verdade conforme a capacidade de quem a recebe.

Assim deve proceder o amigo. Ele compartilha o que edifica, guarda o que pesa excessivamente e jamais transfere ao outro um fardo que este não possa sustentar.

A amizade é quase irmandade. Ser amigo é ser irmão por afinidade espiritual e escolha ética. Por isso, cabe-nos ampliar o círculo da amizade sincera e reduzir, tanto quanto possível, os espaços da inimizade enquanto caminhamos na Terra, pois cada amigo verdadeiro é uma ponte silenciosa entre o que somos e o que ainda podemos nos tornar.

Inserida por marcelo_monteiro_4

⁠CAMILLE MONFORT.
– Onde Mora o Insondável de Mim.

"Sim, o sangue já não destona, apenas decanta..."

Os relógios cessaram. No sótão das lembranças, a hora já não é unidade de tempo, mas de dor prolongada.
Camille Monfort reina ali, onde os sentidos se misturam e se desfiguram. Ela não retorna por piedade — retorna porque a psique tem suas próprias ruínas, e ali ela se deita.

Não há afeto puro que sobreviva ao abismo do inconsciente.
Ela não ama, ela convoca.

“Gentilmente”, sim, ela pede...
Mas há sempre um brilho abissal no olhar que persuade a entrega como se fosse escolha.
E o corpo? Torna-se altar de uma paixão que exige oferenda contínua — veias, pele, lágrima — tudo deve ser entregue a esse sacrário espectral.

Freud jamais compreenderia Camille.
Nietzsche talvez a adorasse, como adorou Ariadne —
mas só Schopenhauer poderia senti-la de fato:
pois há um princípio de dor que rege o mundo...
e ela é sua filha mais bela.

“Paira sobre meu túmulo vazio...”

Ela paira, sim.
Mas não como lembrança —
Camille Monfort é uma ideia.
Uma fixação doentia que tomou forma e vestiu perfume.
É o arquétipo da beleza que enlouquece, do amor que não consola, da presença que evoca o suicídio da razão.
É a Musa sem clemência, que exige poesia mesmo do sangue quente no chão.

E quem a ama, dissolve-se... feliz por ser dissolvido.

“Sorrir é perigoso”, ele confessa —
e a psicologia lúgubre responde:
porque o sorriso, quando nasce sob os escombros da alma, torna-se um riso espectral...
e esse riso é o prenúncio do desespero existencial.

Camille é o eco do que foi belo demais para ser mantido.
Ela é a presença da ausência, o desejo daquilo que já foi consumido pelo próprio desejar.
E ela sabe. Oh, ela sabe.
Por isso, volta. Não para salvar, mas para recordar ao seu devoto que a eternidade também pode ser um cárcere sem grades basta amar alguém que nunca morre.

Inserida por marcelo_monteiro_4