Depoimento para Mim Mesmo

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Vivo conectado dentro de mim mesmo.

Dentro ou fora, estou sempre dentro de mim mesmo.

Dentro de mim, vive o bem e o mal; o mal sou eu negando a mim mesmo; só eu posso me libertar do mal, me aceitando viver do jeito que eu sou.

Quando escolhi ser poeta, eu disse para mim mesmo: Eu vou poetizar o mundo.

Sempre fui um náufrago de mim mesmo, boiando em incertezas. Mas no meio de tanto mar, seu abraço foi a primeira vez que senti o chão firme.

A solidão me apresentou a mim mesmo e eu fiquei. A solidão pode ser espelho, quem ali nos visita pode ser o próprio eu que ainda havia de nascer.

Já fui o fim de mim mesmo, e ainda assim recomecei. Recomeçar depois de se perder é prova de que o limite era apenas um mapa, não sentença.

Perdi tudo e ganhei a mim mesmo, no vazio reencontrei o essencial, perda virou retorno para o que importa, ganhei liberdade e rosto próprio.

A esperança renasce em mim como uma chama teimosa, mesmo quando o vento da vida sopra para apagá-la, eu a protejo com as mãos feridas e calejadas, porque sei o quanto ela já me salvou, e continuarei acendendo-a até o fim dos meus dias.

A fé me devolveu a mim mesmo,
quando eu já tinha esquecido quem era, ela me levantou antes mesmo que eu pedisse, e hoje eu sigo firme, porque sei de onde vem minha força.

A fé me salva de mim mesmo, dos meus excessos, dos meus impulsos, das minhas sombras, ela é minha luz interna.

A vida me ensinou a escrever cartas para mim mesmo. Nelas encontro conselhos antigos e ternos. Algumas servem de manual para dias de crise. Outras são lembretes para celebrar pequenas vitórias. E reler é gesto de autocompaixão bem praticado.

Há manhãs em que não desejo o fim, apenas uma pausa na consciência, um repouso de mim mesmo e do barulho da minha mente.

Não estou quebrado, estou apenas saturado: excesso de ontem, excesso de nós e excesso de mim mesmo.

Luto diariamente para não me tornar um fantasma de mim mesmo, um corpo que ocupa espaço, mas que já não habita o presente.

Quando perdi tudo, encontrei a mim mesmo.

A solidão me ensinou a ser companhia pra mim mesmo.

Todavia,
não me importo nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, pois a entrego inteira ao que me atravessa
— ao amor que me desfaz,
à fé que me refaz, à chama que insiste mesmo quando tudo em mim é cinza.


Se caminho é porque
algo maior me chama pelo nome,
e aceito perder-me para que outros se encontrem em mim.
Que minha dor seja ponte,
que meu silêncio seja abrigo,
que meu cansaço ensine alguém
a descansar.


Não me pertenço
— e nisso encontro paz.
Vivo como quem se derrama,
não como quem se guarda.
Se algo em mim tiver valor,
que seja apenas isto:
ter amado até o fim,
sem poupar o coração.

Às vezes me perco de mim mesmo, e toda vez que me reencontro, passo a me conhecer um pouco mais. Na verdade, percebo que esses desvios não são falhas, mas sim o terreno fértil onde minhas novas identidades nascem. O eu que retorna é sempre mais resistente e autêntico do que aquele que partiu.

Tudo em mim te venera
com o Mapuche-Huilliche
Da tua mão - não solto
mesmo que resista ou evite


Como Diucón com Chilco
que foi libertada do gelo
O espírito é de recomeço
amar não tem nenhum preço


(O Ano Novo virá com apreço)