Criação e inspiração
Então, GPS, você pode até calcular minha melhor rota, e recalculá-la quando eu teimar em te desobedecer.
Mas quem decide onde ir, onde chegar, sou eu!
Daí a vida te leva, te traz, e de repente você descobre que o melhor disso tudo é caminhar, sempre...
Que toda inveja se transforme em inspiração para escrever, escrever, escrever...
Não apenas pra mim, mas pra quem já sentiu ou sente esse monstrinho capaz de atrofiar asas, pensamentos...
Da série:
"Li e a Estrada"
A inspiração é como um raio.
Vem e vai embora com a mesma rapidez.
Daí você tem que parar naquela hora, naquele minuto, exatamente naquele segundo, e em se tratando de inspiração para escrever, você tem que anotar o flash imediatamente.
No meu caso, eu paro.
Paro porque isso acontece, invariavelmente, em vários quilômetros da estrada.
Todos os outros passam por mim, e eu continuo à frente deles, mesmo assim.
É a estrada.
É aqui que eu paro, e continuo a voar.
A melhor forma de se manter um burro de carga andando é fazê-lo superestimar o sobrepeso que carrega, sobretudo se esse excesso pertencer, unicamente, à quem lhe puxa as rédeas.
A melhor forma de se cativar a vontade de um burro de carga é convencê-lo de que todo o sobrepeso que ele carrega, desnecessariamente, o levará à liberdade, ou para alguns, a um "punhadinho de feno".
Quando eu sou boa, sou a melhor delas.
Quando sou ruim, a pior.
Isso é só excelência no que me proponho a fazer, ser.
Quando eu disser, ou ficar subentendido que não quero falar contigo agora, para o seu bem, é melhor aproveitar o escudo que estou lhe oferecendo: o meu silêncio.
Eu só fico aqui imaginando Deus me olhando e resmungando: "Abestada, meus planos prá ti são muito melhores que os seus, sua taióba mocoronga!"
Faça alguma coisa que você realmente ame, porque ainda assim haverão dias
... melhores uns que os outros!
Daí a vida te leva, te traz, e você continua a confirmar que o melhor disso tudo é caminhar, sempre...
Não se preocupe em ser o melhor, exceto o melhor de si mesmo. Esse é o nosso único papel absolutamente insuperável, e talvez inesquecível.
Todos os outros...
O melhor formador de bons pais é o exemplo.
Seja um bom e verdadeiro pai para seu filho (a).
E permita que seu filho também o seja.
Minuit
Onze e meia. Melhor, vinte três horas e trinta minutos. Ela ainda não estava pronta. Sempre fora assim. Não se dava bem com o tique-taque do relógio. Se fosse necessário estar pronta às vinte horas, marcava as dezenove. Ainda assim, os cinco minutos a mais eram sagrados. Vivia em descompasso, mas era assim que vivia. Bem, estava quase pronta. Apenas faltava-lhe alguma coisa. Só não sabia o que era.
Cabelos soltos, macios. Corpo desenhado por um vestido que lhe deixava os seios livres, ligeiramente excitados com o toque e a leveza do tecido. Salto alto. Olhos marcantes. Boca desenhada. Um anel apenas. Era assim que gostava. Um anel, uma pulseira. Brincos, sim. Os brincos eram maiores. Perfume. Claro, perfume.
Volta e meia ao espelho, e ela se depara com a imagem dele logo atrás. Toda a cena tinha sido minuciosamente acompanhada por ele. Desde o início, há muito tempo ele a observava.
Carinhosa, ela o abraça. Sente um misto de saudade, tristeza, não entende bem o que é. Não diz nada. Só o abraça. Impossível não recordar.
As cartas ainda estavam sobre a cama, as fotos também. Por pouco não se desfizera de tudo que viveram. Por pouco não queimara todas as lembranças, os bilhetinhos, as juras, as promessas! Não fosse aquele olhar, não fosse aquele abraço...
Muitas vezes pensara nisso. Em devolver tudo. Em queimar tudo. Em doar tudo. Nunca tivera coragem para tanto. Não eram as fotos que incomodavam, não eram as cartas que machucavam. Era o que não saía da memória que feria, apertava, sufocava. Não adiantava se desfazer do que o coração ainda sentia.
E o relógio continuava a trabalhar.
Então, devagarzinho ela o deixa. Afasta-se um pouco, se recompõe, e ele fica ali, com o mesmo olhar de sempre.
Anda mais alguns passos, e à saída de casa ainda sente que lhe falta alguma coisa.
Volta ao quarto, olha-se ao espelho pela última vez, dirige-se até onde ele continua, dá-lhe um beijo de boa noite, e abaixa o porta-retrato.
Pronto. Agora não faltava mais nada.
Meia-noite. Já era um novo dia. Era hora de sair...
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