Como a Vida Imita o Xadrez de Gary Kasparov

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*BOLERO NUNCA MAIS*

Bolero contigo nunca mais.
Bolero é colado demais,
é promessa demais,
é peito com peito fingindo que é pra sempre.
Contigo, nunca mais.
Um tango talvez,
na hora da despedida.
Tango pode.
Tango é bonito pra quem já vai embora.
Tem drama, tem perna, tem queda,
mas todo mundo já sabe que termina quando a música acaba.
Então guarda o bolero.
Bolero é pra quem fica.
Pra gente?
Deixa o tango.
Uma última dança,
bem pisada,
sem sorriso,
sem volta.
Depois cada um pro seu lado da rua.
Sem porta encostada.
Sem travesseiro.
Só o eco do salto no salão vazio.
(Saul Beleza)

*inteira pela metade*

prefiro te imaginar rindo inteira
em outro abraço,
do que te ter aqui
pela metade.
metade não me aquece,
metade me confunde,
metade me faz ficar
onde já não estou mais.
se for pra ser minha,
que seja inteira.
se não for pra ser inteira,
que seja livre.
e que eu aprenda,
mesmo doendo,
a amar o que você se tornou
longe de mim.
(Saul Beleza)

condenado sem culpa.

que culpa ela teve
se eu não soube amar?
nenhuma.
ela veio inteira,
eu vim com medo.
ela veio com tempo,
eu já vinha atrasado.
A vida foi curta
para nós dois,
e longa demais
para o que eu não fiz.
Agora carrego
o que não dei:
o amor que ficou preso
na garganta.
e ela se foi
leve,
sem culpa.
e eu fiquei,
condenado
não por ela,
mas por mim, que não soube dizer o quanto amei.
(Saul Beleza)

Pague o resgate


Venha me resgatar
desse inferno
que é pensar em você.


pague o preço,
questione o valor,
me julgue depois,
mas venha.


porque até esse inferno
tem gosto de céu
quando é você que me prende nele.


é tortura e abrigo,
é dor e casa,
é o lugar de onde eu quero fugir
de onde eu fico
te esperando.
(Saul Beleza)

reclamação

eu não reclamo
por não gostar de mim.

isso eu já aprendi a carregar,
já fiz as pazes com a falta.

eu reclamo
é por gostar tanto de você assim.

por esse excesso que me transborda,
que me deixa sem sobra pra mim.

se eu me gostasse um pouco mais,
ou te gostasse um pouco menos,
talvez doesse menos.

Mas eu fico aqui:
inteiro pra você, e
metade pra mim.
(Saul Beleza)

Eternamente

Não quero que esse amor seja eterno.
eterno pesa,
eterno prende,
eterno cansa até o que é bonito.
e se for pra ser eterno,
que eu morra
sem te amar de verdade.
que eu morra amando pouco,
amando torto,
amando de longe.
porque te amar de verdade e pra sempre
seria morrer todo dia
um pouco mais.
(Saul Beleza,)

Se quiser
tem um quartinho ali nos fundos,
fique à vontade.
não é o quarto principal,
não tem vista bonita,
mas tem silêncio
e cabe alguém que não quer fazer barulho.
pode deixar suas coisas espalhadas um pouco,
pode chorar baixinho se precisar,
eu já me acostumei com visitas
que ficam pouco.
só tem outra coisa,
quando sair
arrume toda a bagunça,
aquela que você fez,
e aquela que já estava antes de você.
apague as luzes,
feche as janelas,
não deixe cheiro,
não deixe recado na geladeira.
E principalmente,
não esqueça nada,
nenhum casaco,
nenhuma desculpa,
nenhum beijo pela metade.
para que não precise
vir buscar.
porque quem volta pra buscar,
volta pra ficar,
e eu já não sei mais receber mais ninguém.
Não venha me bagunçar de novo.


(Saul Beleza)

*Para Mateus e Mariana*

sei que vocês
não cabem mais
em meus braços.

cresceram.
estão pesados de mundo
e de sonhos.

mas no meu abraço,
ah, no meu abraço
vocês se encaixam
perfeitamente.

sempre couberam.
sempre vão caber.

*(Saul Belezza )*

Não tenho mais aquela eloquência ao teu ouvido,
não nos abraçamos mais com carinho,
não nos beijamos mais com desejo.
Nossa conchinha se separou,
ficou um espaço frio no meio da cama,
onde antes cabia o mundo.
Nossas gargalhadas não têm mais graça,
viraram riso sem vontade,
só pra disfarçar o silêncio.
Nosso banho é cada vez mais curto,
antes era demora,
agora é pressa de sair.
E o nosso amor...
esse nosso amor?
onde foi que a gente se perdeu
dentro da própria casa?
A gente ainda se ama,
ou só tem medo de admitir.

*- Saul Beleza*

Se for para eu te olhar com olhos de maldade,
que Deus derrame cegueira em meus olhos.
Se for para eu te tocar sem amor,
que minhas mãos percam o tato.
Se for para eu te falar sem verdade,
que minha voz se cale.
Porque em você eu só sei ver o bem,
só sei tocar com carinho,
só sei falar com amor.

*- Saul Beleza*

O amor não pode esfalfar.
Ele tem que ser estimulante,
gratificante e duradouro.
Amor que cansa, pesa e esgota,
não é amor, é fardo.
Amor de verdade é descanso,
é fôlego,
é vontade de ficar.

*- Saul Beleza*

Se você não vier alegrar a minha sexta-feira,
tenha certeza...
eu serei a alegria
no sábado de alguém.
Não é ameaça,
é amor-próprio.
Quem não valoriza a minha presença,
vai ter que lidar com a minha ausência.

*- Saul Belezza*

Não tenho um amor,
eu tenho uma companhia.
Talvez se fosse amor,
não seria assim.
Estou amando a tua companhia,
e o amor?
Ah, o amor me acompanha
ao teu lado.


(Saul Beleza)

Não posso amar sozinho.
A madrugada é fria
e eu rolo na cama vazia
sonhando contigo.
O lençol não te abraça como eu,
o travesseiro não tem aquele teu perfume que me entontece e fica jogado no piso frio e sem brilho,
e a noite...
ah, a noite não acaba sem você aqui.

*- Saul Beleza*

Nem saí da cama ainda...
Dormi muito tarde,
já era cedo quando peguei no sono.
E agora a cama me abraça
como você não abraçou,
o lençol me prende
como eu queria te prender.
Lá fora o mundo grita,
aqui dentro eu só quero
mais cinco minutos de você
no meu pensamento.

*- Saul Beleza*

Vou navegar na crista da tua onda,
lindo enquanto dura,
alto enquanto me deixas.
Pois sei...
quando a maré baixar,
serei esquecido na areia da praia.
Como espuma.
Como rastro.
Como se nunca tivesse amado tanto.

*- Saul Beleza*

Quem deveria estar aqui comigo
nesse exato momento,
era você.
E não as tuas lembranças
espalhadas pela casa,
no cheiro por todo quarto,
na xícara que ficou pela metade.
Quem deveria me abraçar agora
era você.
E não essa saudade fria
que deita do meu lado
e finge ser teu corpo.
Quem deveria me dizer boa noite
era você.
E não o silêncio
que repete teu nome
a noite inteira.

*- Saul Beleza*

Deus é uma hipótese necessária da imbecilidade humana.

Tenho a impressão de que os olhos também colecionam memórias. Cada paisagem bonita amplia o repertório da alma. Depois de contemplar certos reflexos, certas luzes e certos horizontes, voltamos diferentes, não porque o mundo mudou, mas porque carregamos dentro de nós mais maneiras de enxergá-lo.

Passamos tempo demais tentando salvar versões de nós que já cumpriram seu papel. Continuamos repetindo gestos, sustentando personagens e defendendo identidades que um dia nos protegeram, mas que hoje apenas nos apertam por dentro.