Coleção pessoal de valeria_azevedo_vieira
Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer
nos mostrar a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer
Nos mostrar a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer
Nos mostrar a importância da vida.
Enquanto existir nas leis e nos costumes
uma organização social que cria infernos
artificiais no seio da civilização, juntando ao
destino, divino por natureza, um fatalismo
que provém dos homens; enquanto não forem
resolvidos os três problemas fundamentais
a degradação do homem pela pobreza, o aviltamento
da mulher pela fome, a atrofia da
criança pelas trevas; enquanto, em certas
classes, continuar a asfixia social ou, por
outras palavras e sob um ponto de vista
mais claro, enquanto houver no mundo ignorância
e miséria, não serão de todo inúteis
os livros desta natureza.
Flor Delírio
O teu amor de mulher,
sei ser dom materno.
Uma vez que o der,
será infinito e eterno.
No teu sangue um elo,
em teu nome uma flor,
de fato a venero,
óh deusa do amor.
Definirei como quero,
Não aceito recusas.
Inspira o que é belo,
és musa das musas!
O meu amor tem oitocentas mãos
sensíveis e outras tantas não
se sentem senão no coração
grã feijão entre os pequenos grãos
da areia movediça em que me atolo
atol com tu por fora e tu por dentro
a dizeres que sais e então eu entro
descolas e eu voo no teu colo
Vêem-se aves demoradamente
estampando o céu azul de azul celeste
toca-se um círio pousa-se num cipreste
e em silêncio diz-se o que se sente
O meu amor tem oitocentas vidas
sensíveis e outras tantas sim-
plesmente canto de serafim
anjo entre os anjos das nuvens prometidas
- Miguel Martins
Alguns homens veem as coisas como são, e dizem 'Por quê?' Eu sonho com as coisas que nunca foram e digo 'Por que não?'
Tivesse eu os panejamentos bordados dos céus, (...)
Estenderia esses mantos a teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas sonhos;
E estendi meus sonhos a teus pés;
Pisa com delicadeza, pois estás pisando em meus sonhos.
Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.
Se a um espelho e depois a outro,
pergunto se tudo vai bem
não é por vaidade:
procuro o rosto que tinha
antes do mundo o transformar”.
Muitos amaram teus momentos de alegre graça,
e tua beleza, com falso ou vero amor,
Mas um homem amou a alma peregrina em ti,
E as mágoas de teu rosto sempre a mudar.
Quando estiveres velha e grisalhas,e cabeceares
De sono à beira da lareira,pega este livro,
e lentamente o lê,e sonha com a aparência suave
Que tinham outrora teus olhos,e suas sombras densas;
Muitos amaram teus momentos de alegre graça,
e tua beleza,com falso ou vero amor,
Mas um homem amou a alma peregrina em ti,
E a mágoas de teu rosto sempre a mudar.
AEDH DESEJA OS TECIDOS DOS CÉUS
Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.
