Coleção pessoal de TiagoScheimann
Não uso a dor como tema, uso como tinta. É a partir dela que desenho os contornos do que ainda resta de mim.
Sou o adulto que tenta ser o abrigo para o menino que ainda chora em mim, esperando por uma justiça que o tempo não traz.
Atravessando o rio gélido de um destino não tão bonito, em uma velha jangada, anunciando sua trajetória lenta, pesada, tocando um sino enferrujado, com seu som abafado, como se estivesse submerso, sendo afogado, feita de almas atormentadas, cheias de dor, pelo fundo pedregoso, margens lamassentas e ao horizonte, não existem margens, o rio não se finda e o céu, baixo e cinzento, curva-se como um teto prestes a ruir, comprimindo o ar nos pulmões já cansados, a corrente não conduz, apenas arrasta, e cada braçada é um adeus ao que ficou para trás, enquanto a jangada range, como se soubesse que não há porto, não há farol, não há terra firme, apenas o curso interminável dessa água fria que não acolhe, não absolve, não esquece. E assim sigo, não por esperança, mas por não haver retorno, deixando que o sino continue seu lamento mudo, até que o próprio som se dissolva na névoa, e eu me torne parte do rio que jamais termina.
Há um cansaço que não se cura com o sono, uma espécie de ferrugem silenciosa que começou nos meus ossos e agora dita o ritmo lento do meu sangue.
Viro os bolsos da alma e só encontro os restos de quem eu prometi ser, enquanto o silêncio da casa se torna um inquilino que não paga aluguel e ocupa todos os cômodos.
Escrevo para não ter que gritar contra as paredes, mas as palavras saem como estilhaços de um vidro que eu mesmo quebrei, cortando a garganta antes de ganharem o ar.
O tempo aqui dentro não corre, ele sangra, transformando cada lembrança num peso morto que eu insisto em carregar como se fosse um troféu ou uma condenação.
No fim, sobra apenas esse corpo que é um mapa de lugares onde ninguém mais quer morar, e a triste certeza de que a solidão é a única coisa que nunca me deixou pela metade.
Talvez a força seja exatamente isto: a incapacidade de desistir, mesmo quando tudo em nós grita pelo fim.
A esperança é uma visita inesperada, ela senta em silêncio, não promete nada, mas sua presença torna o ar menos pesado.
Nas madrugadas, as máscaras descansam. Sou apenas eu, meu cansaço e a verdade crua que o dia não suportaria ver.
Minha dor é um texto longo, cheio de notas de rodapé e silêncios estratégicos que nenhuma frase curta consegue resumir.
Guardo um amor que perdeu o destinatário. Como não teve onde pousar, virou peso, virou verso e, por fim, virou parte de mim.
O medo de desistir é, ironicamente, o que me mantém tentando. Um paradoxo doloroso que me empurra para frente.
A folha de papel é o único tribunal onde sou inocente, onde posso desabar sem julgamentos e ser fraco sem ser corrigido.
Há memórias que são feridas abertas, sangram sem aviso, ignoram o tempo e nos lembram que o passado nunca dorme.
Não escolhi a resiliência, ela foi a única saída em um cenário onde a fragilidade era punida com o esquecimento.
Minha alma suplica por trégua, enquanto a vida exige movimento. Passo os dias negociando minha sanidade com o relógio.
Habito o hiato entre quem eu fui e quem eu nunca serei. É um espaço desconfortável, mas é o único lugar onde sou real.
Sou o resultado de mil falhas honestas, nenhuma foi covardia, todas foram passos em falso de quem buscava a luz.
Tenho pavor da apatia. Prefiro a dor que me lembra que estou vivo ao gelo que me protege de sentir qualquer coisa.
Minha mente é um canteiro de obras infinito, sempre há algo sendo demolido para que uma nova versão de mim tente nascer.
O vazio não se preenche, se integra. Com o tempo, ele deixa de ser um buraco e passa a ser a mochila que você aprendeu a carregar.
Exauriu-me a tarefa de legendar minha dor para quem não sabe ler sentimentos. Prefiro o silêncio de quem escreve.
