Coleção pessoal de TiagoScheimann
No breve tempo que me ausentei, ao regressar, percebi que já não era o mesmo. Os sentimentos haviam se esvaído como água entre as mãos, e em meu peito apenas o silêncio se aninhava. Aquele eu que um dia partira, morreu no exílio do tempo e jamais retornaria. Em seu lugar, restou apenas uma sombra errante, um eco de mim mesmo, condenado a habitar a casa, mas nunca mais a pertencer a ela.
O silêncio cresce em minha mente como uma floresta de ossos. Cada palavra que escrevo é uma ave de vidro, tentando voar sem quebrar.
Meus pensamentos inquietantes são labirintos de fumaça, torres que se erguem em noites sem fim. Nunca dormem, nem se calam, e a tormenta que me acompanha é um vigia de cristal, refletindo em seus prismas cada medo que ouso sentir, cada memória que se recusa a morrer.
Corvos voam sobre mim, refletindo em suas penas os labirintos da minha própria mente. Observam meu cansaço, aguardando o momento em que me dissolverei em minhas próprias sombras.
Não sou triste; sou um deserto onde a felicidade se perdeu como miragem. Caminho por suas areias quentes, carregando sede de algo que jamais tocarei. Cada passo levanta nuvens de lembranças secas, e o vento que passa parece sussurrar risos que não me pertencem. Aqui não há flores, apenas o eco vazio de promessas que evaporaram antes de nascer.
Ninguém me entende, sou rascunho com letras ilegíveis, pareço instrumento desafinado, um piano com cordas quebradas, emudecido num canto.
"Dayenu"
Se Ele nos tivesse tirado do Egito, e não tivesse feito justiça contra os egípcios,
teria sido suficiente.
Se Ele tivesse feito justiça contra os egípcios,
e não tivesse destruído seus ídolos, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse destruído seus ídolos,
e não tivesse matado seus primogênitos,
teria sido suficiente.
Se Ele tivesse matado seus primogênitos,
e não tivesse dado suas riquezas ao nosso povo, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse dado suas riquezas ao nosso povo, e não tivesse aberto o Mar Vermelho diante de nós, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse aberto o Mar Vermelho diante de nós, e não tivesse nos feito atravessá-lo em terra seca, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse nos feito atravessá-lo em terra seca, e não tivesse afogado nossos opressores no mar, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse afogado nossos opressores no mar, e não tivesse nos sustentado no deserto durante quarenta anos, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse nos sustentado no deserto durante quarenta anos, e não tivesse alimentado com o maná, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse alimentado com o maná,
e não tivesse nos dado o Shabat,
teria sido suficiente.
Se Ele tivesse nos dado o Shabat,
e não tivesse nos aproximado do Monte Sinai,
teria sido suficiente.
Se Ele tivesse nos aproximado do Monte Sinai,
e não tivesse nos dado a Bíblia, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse nos dado a Bíblia, e não tivesse nos introduzido na Terra de Israel, teria sido suficiente.
Se Ele tivesse nos introduzido na Terra de Israel, e não tivesse construído para nós o Templo Sagrado, teria sido suficiente.
Nos doamos, nos sacrificamos, amores, empresas, amigos, entregamos partes inteiras de nós a quem raramente as merece. Muda o cenário, mas a indiferença tem sempre o mesmo rosto.
Nos desdobramos, renunciamos, por quem mal nota o valor do gesto. Seja amor, família, ou profissão, a recompensa costuma ser o mesmo vazio.
Caminhamos entre doações de afeto, suor e esperança, como quem deposita moedas num cofre alheio sem chave. Não cabe esperar reciprocidade, pois o coração humano é falho em devolver o que recebe. E quase sempre, como um reflexo cruel, a decepção retorna com o mesmo peso daquilo que oferecemos.
Sou ausência tão presente que domina o espaço e pesa no ar. Quanto mais me apago, mais insisto em permanecer, pois até no último suspiro o fogo se lembra de arder em si.
Fui forjado no colapso, moldado pela queda que destruiu tudo em mim. O aprendizado foi a única trilha que restou, e nada além importava. Hoje, ao olhar para trás, choro, não pela queda em si, mas por nunca ter acreditado que eu poderia me erguer.
Meses atrás voltei, depois de tantos anos, àquela cachoeira onde tudo aconteceu. As águas pareciam sussurrar minha história, e meus olhos se encheram de lágrimas ao perceber como Deus, em sua infinita bondade, me concedeu uma segunda chance, eu, que jamais me senti digno de algo tão grandioso.
Cada cicatriz é escritura da guerra, marcas talhadas na carne, poemas de sangue e vitória. Superar é escrever com lágrimas ardentes, um livro em que a dor e o riso se fundem, tinta eterna da vida.
Minha alma ergue muralhas invisíveis, mais forte que qualquer dor, abrigo que nenhuma sombra destrói.
Limites são grades ilusórias, fronteiras rasgadas pelo passo, o impossível, despedaçado pela coragem.
O passado não me arrasta, me arma, não é peso, mas fundação, é raiz indestrutível da árvore que sou.
