Coleção pessoal de TathnerMorsa

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Não temo o que ruge. Sou filho do silêncio que antecede o trovão. Eu tento apenas enxergar, no escuro, aquilo que me constitui, porque a noite já não me apaga nesse frio imensurável. Não peço abrigo ao mundo, pois sou feito da mesma matéria que o inaugura — sou, portanto, este mundo. Por isso, para mim, eliminar-se em nome da memória é apenas uma forma elegante de dizer que se suicidou.

Não amar tornou-se impossível. Vivo por uma única razão: esse amor indigente. Preciso amar — e isso é verdade. Já não sei viver sem isso. Nada mais me oferece sentido ou direção se não houver um sorriso largo. Sou uma das pessoas mais tristes que conheço e, ao mesmo tempo, profundamente feliz. Porque é difícil amar a si mesmo; até o gesto de gostar de si ainda é amor dentro do amor, e quando não gosta também.

Não esqueça: a noite também vagueia quando um coração está ferido. Num coração ferido, um simples boato é capaz de derrubar um império.

Viver dói quando se vive em ordem e se sustenta a ilusão do auto-ódio. Não existe odiar-se: existe insatisfação com a própria linha do tempo. É preciso separar o todo do tudo para conseguir não se amar. Já que explicar dói, então é micro.