Coleção pessoal de SabrinaNiehues
Um conto suicida
Domingos à tarde são horríveis! Insuportáveis! Suicidas! E ali estava ela. Olhando a chuva cair pesadamente da janela de seu quarto, no décimo quinto andar. E sobre a cama estavam fotos espalhadas, cartas rasgadas, cinzas de cigarros, copos de bebidas... E no rádio tocava 'While My Guitar Gently Weeps', dos Beatles. E sentada na janela do décimo quinto andar, estava ela, com o cabelo desgrenhado, a roupa molhada de vodca e lágrimas, tênis sujos. E segundos depois estava ela estirada no chão da cidade, com a chuva a lavar seu sangue.
Eu me pergunto aqui se tudo isso é obra de Deus, do destino, ou de nós mesmos. Me pergunto se minhas escolhas já estavam escritas nas folhas do destino ou se eu poderia ter mudado alguma coisa. E essa dúvida é o que tortura, saber que talvez eu poderia ter mudado tudo...
Parando para pensar, percebi que os cientistas, homens tão inteligentes e admirados, foram os seres ‘inteligentes’ que criaram a bomba atômica e todas as demais drogas que destroem famílias…
Há dias venho vivendo vazia. Por dentro já não há mais nada. Não há nenhum tipo de sentimento. Nem amor, nem mesmo ódio por ninguém. Não há mais saudade de algo que nunca existiu. Não há mais lágrimas para transbordarem. Não há mais nenhum tipo de vontade, nem desejo. Não há mais alegria, nem mesmo tristeza. Não há nada. Ou talvez apenas exista o nada. Talvez o nada seja tudo e só o que me resta!
Em geral, porém, era um mundo horrível, e eu muitas vezes me sentia triste pelos outros. Bem, ao diabo com isso. Peguei a vodca e tomei um trago.
A princípio foi esse olhar um simples encontro; mas, dentro de alguns instantes, era alguma coisa mais. Era a primeira revelação, tácita mas consciente, do sentimento que os ligava. Nenhum deles procurara esse contato de suas almas, mas nenhum fugiu. O que eles disseram um ao outro, com os simples olhos, não se escreve no papel, não se pode repetir ao ouvido; confissão misteriosa e secreta, feita de um a outro coração, que só ao Céu cabia ouvir, porque não eram vozes da Terra, nem para a Terra as diziam eles. As mãos, de impulso próprio, uniram-se como os olhares; nenhuma vergonha, nenhum receio, nenhuma consideração deteve essa fusão de duas criaturas nascidas para formar uma existência única.
Você deve lutar por quem você ama. Talvez essa batalha seja sangrenta, talvez você vá se ferir muito, e pior ainda, talvez você possa perder a batalha. Mas ao menos, no fim das contas, você sairá com a certeza de que na dúvida você nunca ficou.
Mata-me, o amor!
Na semana passada me ocorreu uns acontecimentos. Estive meio mal de saúde. Começou com uma gripe desgraçada, passou para pontadas, dor de cabeça, febre, e então resolvi ir ao hospital. Chegando lá, tive de esperar na sala de espera, como todo bom 'paciente'. Enquanto eu esperava minha mãe chegar lá, eu chorava. Havia uma mãe com um bebê. Havia uns senhores e senhoras de idade. Havia um jovem acidentado. E havia também uma mulher sem cabelo e com um lenço na cabeça. Imaginei que estivesse morrendo de câncer. E então ali estava a morte, a também estava a vida e toda a sua fragilidade. E ali estava eu. Então, me perguntei qual o sentido disso tudo, e a resposta veio em segundos. Na verdade, veio em forma de imagem. A imagem dele em minha mente, um rápido flash. Eu sabia sim que o sentido da vida era o amor. E eu sabia que ele era o meu sentido, o meu amor, a minha vida. Então comecei a tremer e chorar de tamanha emoção que era a vida. Então minhas mãos e meu rosto começaram a formigar e endurecer. Estavam se atrofiando, e eu parecia uma velha torta. Fiquei assustada e fui tomar um pouco d'água. Mal consegui segurar o copo. Nisso chegou minha mãe e começou a chorar junto de mim. Passei por uns exames rápidos e então as enfermeiras me disseram que eu não tinha nada além de uma forte gripe. De repente senti-me melhor e fomos embora. Mas minha mãe sabia o verdadeiro motivo de todo esse mal estar. Ela sabia a verdadeira resposta disso tudo, e momentos depois eu também descobri. Era ele, e só ele. E eu devia contar, desabafar e então me livrar. Mas eu não queria me livrar dele. Eu não queria dizer à ele que fosse feliz, porque eu queria ser o motivo de sua felicidade. Mas eu não era. Eu não era nada para ele, enquanto ele era meu tudo. E eu podia continuar vivendo, mas tudo já está tão sem graça. E eu tinha tanta esperança de ser feliz. Agora eu não tenho nada, nenhum sentimento, nenhuma pessoa, nada além do tédio. Nada além da monotonia insuportável. No fim das contas, perdi todo o amor pela família e a família por mim. Perdi o amor pelos amigos e os amigos por mim. Não perdi o amor por ele, mas ele nunca teve nem terá amor por mim. No fim das contas todos me decepcionaram e eu decepcionei todos. E essa é minha insuportável vida. E eu ainda me pergunto que diabos estou fazendo aqui. Talvez o lugar de demônios seja nesse inferno mesmo.
Eu estava pensando em me matar, você não se importa
Eu te amo, você não se importa, você não se importa, você não se importa...
E, de repente, tudo o que preciso é segurar a mão dele mais do que já precisei de qualquer outra coisa na vida. Não apenas sentir que ele segura a minha mão, mas segurar a dele também.
Então minha vida se baseia nisso: viver como uma máquina que faz tudo por obrigação e nada por prazer!
Se meus olhos pudessem registrar
Em papel, como uma câmera fotográfica
Registraria cada respiração tua
Cada passo errado, cada riso bobo
Cada movimento dos olhos e do corpo
Mas tenho a sorte de poder deixar
Tudo registrado em minha mente
Teus olhos, lindos e inquietos
Teu cabelo e barba, tão negros
Quanto o breu da noite
Ah, tua pele, teu peito
Tua respiração, tuas corridas
Teus tropeços, tuas vindas
Tua voz, teu riso, tua boca
Tenho tudo registrado
Em minha mente e em meu coração.
