Coleção pessoal de _robsings
De que outra forma nasce um Eu que preste, senão assim: retalhado, com retalhos oriundos de prazer e de dor?
Foda-se é saudável enquanto estiver servindo para o desapego de preocupações e lutas que não são suas.
É preocupante quando você quer, com ele, negar a vida e o valor de determinadas coisas.
Quando você pensa na concepção da vida, percebe que são muitos acasos encadeados para tudo isso ser simplesmente acaso. Devido à nossa incapacidade de entender, creditamos esse milagre ou a Deus ou ao acaso. Mas a única verdade e certeza nisso tudo é a nossa incapacidade de abarcar essa verdade por enquanto.
A generalização é uma ferramenta retórica útil. O problema é a totalização. Um bom aforismo, por vezes, usa a generalização, mesmo correndo o risco de soar como uma sentença totalizante. Para dar à luz boas frases, é preciso coragem.
Não tem jeito. A sina de qualquer sujeito lúcido é viver perturbado. Pode ser que você nunca fique triste, ou deprimido, mas perturbado, certamente ficará.
A frase "Sobra nada para o beta" nasce de uma falta de visão. Sobra muito, na verdade. Há lucidez do lado de fora da festa.
Uma pessoa sem expectativas, ou que busca reduzi-las constantemente, pode inclusive estar, dia após dia, desaprendendo a viver por medo delas.
Saber como ser dissimulado e saber como e quando desconversar são as maiores soft skills que você pode ter na era do politicamente correto.
Só o amor mesmo para fazer alguém dizer, com orgulho, que está comprometido: avariado, danificado, sem salvação.
Demorar ao avaliar qualquer coisa é, nesse mundo reativo e tão apressado em tirar conclusões, uma das atitudes mais disruptivas que você pode ter.
Suspeito que quem separou solidão em solidão e solitude só queria mesmo se sentir mais confortável com o fato de estar sozinho.
Amor não é fácil. Acho, aliás, que não há nada mais antiamor do que, por exemplo, viver de conveniências.
Fogo: Da fagulha e cultivo
Há algo no fogo
que agita seus dentros.
Algo fundamental,
elemental.
Ecos primitivos.
Anamneses fossilizados.
Inscritos em
rupestre
e/ou
cuneiforme,
no mais profundo
do nosso âmago.
…
Ainda que soterrado, seu cérebro reptiliano
ainda tem aquele rolo de fita magnética
em preto e branco
dos causos de seu
tatatatatatatatata…
tataravô.
Aqueles que, quando jovem,
lhe capturavam a atenção ante a fogueira.
A brava luta contra um tigre na savana;
a emboscada contra um mamute duro na queda;
ou como a tribo sobreviveu ao ataque surpresa de uma tribo inimiga,
em uma fatídica noite.
…
Há sempre algo de familiar no fogo.
Talvez isso se deva ao seu caráter duplo.
E o duplo, se sabe, reverbera conosco sempre a níveis profundos,
irremediáveis.
Isqueiros, caixas de fósforo e fogareiros elétricos nos tiraram a trabalhosa e prazerosa arte de se iniciar o fogo.
Não se busca mais faíscas, pois podemos simplesmente acioná-las através de algum dispositivo.
Quedas de energia e até mesmo blackouts viraram nossos grandes momentos.
Eis, então, o momento para o restabelecimento de laços,
o momento para as conversas necessárias,
para ver o que se sobra quando smartphones e televisores param de ocupar nossos vazios.
Eis a hora de se virar.
Gastar duas caixas de fósforos
e meio litro de álcool,
a fim de trazer uma sobrevida
à fagulha restante.
A razão dos ecos
O eco enfraquecia,
Não que antes tivesse alcançado algo.
A pressão da água nos tímpanos
Sentencia: é o fim.
“Eco! Se afogue junto comigo!”
Narciso poderia dizer;
Se não fosse Narciso.
Ainda assim, Eco se afogou.
Já não sabia mais o que ecoar,
Já vinha esmaecendo pouco a pouco
Nessa sua doação inglória
Para o outro, sempre o outro.
Agora,
Ficou sem o outro para se basear,
Morreu desvalida.
...
Em matas densas,
Ainda é possível ouvi-la.
A mais célebre alma penada,
Reverberando a voz dos aventureiros,
Sempre indigente.
Até mesmo após a morte.
A ambição de um homem existe, antes de tudo, para tornar suportável o ato de se olhar no espelho após uma derrota.
