Coleção pessoal de testeteste123
Antes de pedir cura, o espírito precisa consentir em ser visto por inteiro, pois nenhum ritual funciona enquanto partes da alma continuam escondidas pelo medo.
O espírito cresce nos intervalos entre uma queda e outra, onde a humildade substitui a ilusão de controle.
Honrar os ancestrais não é repetir seus passos, mas caminhar com consciência sobre o chão que eles sustentaram.
Não existe sabedoria sem atravessar confusão, nem consciência sem aceitar o desconforto do autoconhecimento.
Aquilo que chamamos de escuridão muitas vezes é apenas um útero simbólico, preparando o nascimento de uma consciência mais madura.
O silêncio não é vazio; é um espaço sagrado onde o espírito finalmente pode ser ouvido sem interferências.
O xamanismo não é fuga da realidade, é um mergulho tão profundo nela que o espírito reaprende a caminhar em harmonia com o invisível.
A cura não surge do desejo de eliminar o sofrimento, mas da coragem de sentar ao lado dele, reconhecer sua mensagem e permitir que ele transforme o que já não pode continuar igual.
A Terra não fala em palavras, fala em ciclos; quem não respeita o tempo das coisas acaba se perdendo dentro de si mesmo.
O verdadeiro chamado espiritual não acontece quando tudo está bem, mas quando a alma, cansada de fugir, decide finalmente escutar o que a dor vem tentando ensinar em silêncio.
Aprendendo a ler o clima
Eu nasci com o coração voltado para fora.
Desde cedo, o mundo me atravessava
antes de pedir permissão.
Havia uma casa cheia de ruídos
onde o afeto chegava por intervalos,
como sol entre nuvens densas.
Aprendi cedo a ler o clima,
a prever tempestades pelo tom da voz,
a crescer sem fazer barulho
e, ainda assim, crescer demais.
Havia uma presença vestida de silêncio,
sempre correta, sempre distante,
mesmo quando estava por perto.
E havia outra feita de excessos,
mudança de humor, controle e ausência de cuidado,
um campo minado de palavras
onde o amor surgia quando era conveniente.
E tive que aprender a prever todas as possibilidades
Quando a cidade ficou pequena demais,
o mar se aproximou.
Foi ali que algo em mim
finalmente respirou inteiro.
O oceano não exigia nada:
não pedia explicações,
não barganhava carinho.
Ele apenas vinha.
E voltava.
E vinha de novo.
Aprendi a deslizar
sobre aquilo que a maioria teme.
A cair sem perder a ternura,
a esperar a onda certa
sem endurecer o corpo nem a alma.
Sempre fui boa em aprender.
Corpo atento, mente curiosa,
mãos cheias de perguntas.
Movimento, dança, criação, pensamento.
Mas havia um espaço em mim
que nenhuma conquista preenchia.
Então achei que talvez
o sentido estivesse em doar.
E doei.
Ideias, tempo, cuidado, esperança.
Dei tanto que alguns confundiram
generosidade com disponibilidade infinita.
E eu, que só queria construir,
aprendi também a me decepcionar.
Veio o mundo em pausa.
O ar rarefeito.
As perdas sem ritual.
Os dias iguais demais.
E dentro de mim,
uma tristeza que não gritava,
mas permanecia.
Agora o planeta range.
Homens brincam de poder
como crianças com fósforos molhados de petróleo.
Falam de controle, de fronteiras, de números,
como se a vida coubesse em planilhas.
Decidem sobre corpos alheios
com a frieza de quem nunca escutou o próprio.
E eu só queria surfar.
Sentir o sol queimando os ombros,
o sal abrindo feridas boas,
o corpo cansado por motivos simples.
Trilhar mato, cozinhar para desconhecidos,
defender a terra com alegria
não por heroísmo,
mas por amor.
Às vezes me perco.
Busco estradas nas estrelas,
consolo na espiritualidade,
sinais onde talvez só haja vento.
Não sei ainda o caminho exato.
Mas sei isto:
Ainda agradeço.
Ainda sinto.
Ainda acredito que viver
não precisa ser uma guerra constante.
Carrego um coração mole
num tempo que celebra o endurecido.
E isso, hoje, é coragem.
Se o mundo insiste em ruir,
que eu permaneça sensível.
Se o futuro ameaça,
que eu responda com presença.
Porque enquanto houver mar,
corpos que dançam na chuva,
mãos que cuidam da terra
sem pedir aplauso,
há esperança suficiente
para atravessar a noite.
E se amar este mundo
é o que me cansa,
então aceito o cansaço.
Há exaustões
que são sinais claros
de que ainda estamos vivos.
Por isso, o tempo é um mestre fiel. Ele não corre atrás de ninguém, mas ninguém corre dele. E no final, só permanece de pé quem andou em temor, justiça e amor. miriamleal
