Coleção pessoal de pensador
Hoje não é o primeiro dia do ano para os maias, os judeus, os árabes, os chineses e outros muitos habitantes deste mundo.
A data foi inventada por Roma, a Roma imperial, e abençoada pela Roma vaticana, e acaba sendo um exagero dizer que a humanidade inteira celebra esse cruzar da fronteira dos anos.
Mas uma coisa, sim, é preciso reconhecer: o tempo é bastante amável com a gente, seus passageiros fugazes, e nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para querer que seja alegre como as cores de uma quitanda.
Não há nada mais temível do que o tempo que pára, ficamos iguais para sempre e essa é a maior desgraça.
Para chegar a Deus, que é absolutamente Tudo, temos de nos esvaziar e passar a ser absolutamente nada. Só assim o absolutamente Tudo poderá ter lugar para ser absolutamente Tudo dentro de nós.
O nosso coração não bate cá dentro, bate na terra de que gostamos, nos objectos que nos são especiais, nos peitos dos nossos familiares, em músicas que nos fazem chorar.
O coração de um homem não está apenas dentro do seu peito, está também dentro das pessoas que ama, dentro da família, dentro dos amigos.
A visão tem esse estranho poder de olhar para um lugar e ver outro, ver algo completamente diferente, os olhos não olham sempre para o presente.
Gostaria que houvesse um cerebeleiro, um homem que penteasse pensamentos, cortasse memórias, alisasse as ideias.
As palavras também crescem, como as árvores, e vão mudando de significado ao longo da vida, começam por querer dizer uma coisas e acabam por dizer outra.
