Coleção pessoal de pensador
Temos que aceitar que não temos mais ídolos. Temos que aceitar que criticamos os tempos irônicos, mas somos irônicos de vez em quando. Um quadro com sacadinhas espertas está pendurado no nosso escritório. Tentamos entender por que os artistas contemporâneos gostam de veados, alces, ursos, se já viram diante deles um veado, um alce, um urso, gostam de corpos humanos com cabeças de animais também, e a perspectiva de que suas alegorias sejam destituídas de sentido nos assusta, mas nós compramos os quadros desses artistas contemporâneos para decorar a sala. Temos que aceitar que nós também vamos sucumbir às tendências.
Eu queria que ficasse essa coisa para a frente e para trás. Não estou inventando nada de novo. É mais ou menos como funciona a memória, apesar de não ser como um fluxo de consciência.
A regra costuma ser: as mulheres ficam, os homens partem. Além disso, essas poucas mulheres que se deslocam, bem, elas são vistas como pessoas perdidas, não como aventureiras, independentes ou heroicas, como é o caso dos homens viajantes.
Em volta era só pássaro e peixe, o cansaço de não acontecer nada. Cidade besta. Uma praça, uma igreja, nenhum semáforo, conversas repetidas. Quem consegue sair, vira herói e assunto. No domingo, as famílias vão para a rua e andam de uma ponta até outra e bem devagarzinho, que é para cidade não acabar rápido demais.
Um escritor disse certa vez: "Você pode até deixar uma crítica ruim estragar seu café da manhã, mas nunca seu almoço". Você tem que seguir em frente, senão não conseguirá fazer seu trabalho.
Tenho sangue de gente
tenho essa poeira laranja na cara
no peito
no sangue
sou metade gente
metade bicho
sou sertão da cidade
sou pedaço água
ferro
terra
sou rio
trilho
rodagem
O rio das garças
vem desde o arraial da telha
(onde colhi meu sangue caboclo)
até o atlântico
que beija portugal
e belisca o mar do norte
das terras baixas da holanda
(dois pedaços de terra onde meu sangue europeu nasceu)
O marmeleiro descasca
no seu verde antigo
o açude racha
no seu mar antigo
o mormaço
esse nem dá as caras
e a gente vive
disso tudo já vivi
sou amigo disso tudo
não precisa desse medo
tudo é caminho
não há ponto de chegada
não há ponto de partida
Varjota
cheguei
um sem fim de vezes
fui embora outro monte
na sua maioria foi
o meio do caminho
que já foi Fortaleza
Recife
Diadema
e Viena que
ainda será
minha mãe foi também
caminho
meu pai também
que já vieram de meus avós
de outros avós
e outros outros e outros
e
tudo é caminho
sem começo nem fim
sem velho nem novo
o poema é mais
um
sempre vai
e vai e vai
a vida é uma reta torta
nó-cego de motivos
que é caminho
e não volta
É uma falha da visão nacional considerar crianças como armas e talentos como materiais que você pode extrair, testar e fabricar para obter lucro e defesa.
