Coleção pessoal de pensador

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Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.

Regresso devagar ao teu sorriso como quem volta a casa.
Faço de conta que não é nada comigo.
Distraído percorro o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro.
Devagar te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no amor como em casa.

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

Como quem, vindo de países distantes fora de
si,chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca

Meu pensamento em febre
é uma lâmpada acesa
a incendiar a noite.

Meus desejos irrequietos,
à hora em que não há socorro,

dançam livres como libélulas
em redor do fogo.

A menina selvagem veio da aurora
acompanhada de pássaros,
estrelas-marinhas
e seixos.
Traz uma tinta de magnólia escorrida
nas faces.
Seus cabelos, molhados de orvalho e
tocados de musgo,
cascateiam brincando
com o vento.
A menina selvagem carrega punhados
de renda,
sacode soltas espumas.
Alimenta peixes ariscos e renitentes papagaios.
E há de relance, no seu riso,
gume de aço e polpa de amora.

Reis Magos, é tempo!
Oferecei bosques, várzeas e campos
à menina selvagem:
ela veio atrás das libélulas.

Sob os pés dos vândalos
as pedras arrasam-se.
Do chão limpo os pacíficos
erguem torres bíblicas.

Os rebeldes, de árbitros,
destroem os ídolos.
Os dóceis, na dúvida,
valorizam as órbitas.

A fibra dos bárbaros,
a astúcia dos tímidos.

Algumas memórias nunca curam. Em vez de desaparecerem com o passar do tempo, essas memórias se tornam as únicas coisas que sobram quando tudo o mais é desgastado. O mundo escurece, como lâmpadas elétricas apagando uma a uma. Estou ciente de que não sou uma pessoa segura.

O tempo era uma onda quase cruel por ser tão implacável.

É verdade que os seres humanos são fundamentalmente cruéis? A experiência da crueldade é a única coisa que compartilhamos como espécie? Será que a dignidade à qual nos apegamos é apenas ilusão, escondendo de nós mesmos a verdade única: que cada um de nós é capaz de ser reduzido a um inseto, uma fera devoradora, um pedaço de carne? Ser degradado, massacrado - é este o essencial da humanidade, que a história confirmou como inevitável?

A sensação de que ela nunca havia realmente vivido neste mundo a pegou de surpresa. Era um fato. Ela nunca tinha vivido. Mesmo quando criança, desde que conseguia se lembrar, ela não fez nada além de suportar. Ela acreditava em sua própria bondade inerente, em sua humanidade e viveu de acordo, nunca causando danos a ninguém. Sua devoção a fazer as coisas da maneira certa tinha sido inabalável, todos os seus sucessos dependiam disso, e ela teria continuado assim indefinidamente. Ela não entendia o porquê, mas, diante dos prédios em decomposição e da grama que se espalhava, ela não passava de uma criança que nunca havia vivido.

A vida é uma coisa tão estranha, ela pensou, depois de parar de rir. Mesmo depois de certas coisas acontecerem com elas, por mais terrível que seja a experiência, as pessoas continuam comendo e bebendo, indo ao banheiro e se lavando - vivendo, em outras palavras. E às vezes até riem alto.

Esse era o problema com as famílias. Como médicos desagradáveis, elas sabiam exatamente onde doía.

Ela usava flores nos cabelos e carregava segredos mágicos nos olhos. Ela não falava com ninguém. Ela passava horas na margem do rio.

Eu acho que fui uma criança bastante crescida e tenho sido um adulto muito infantil.

Só existe um sonho que vale a pena ter: viver enquanto você está vivo e morrer apenas quando estiver morto.

No momento em que a vi, uma parte de mim saiu do meu corpo e a envolveu. E ainda permanece lá.

Nós não pertencemos a nenhum lugar. Navegamos sem âncora em mares turbulentos. Podemos nunca ter permissão para desembarcar. Nossas tristezas nunca serão tristes o suficiente. Nossas alegrias nunca são felizes o suficiente. Nossos sonhos nunca são grandes o suficiente. Nossas vidas nunca são importantes o suficiente... para importar.

Quem sabe pela palavra "adeus" que tipo de despedida nos espera?

Veja o que criamos. Você foi a inspiração para tudo isso.