Coleção pessoal de pensador

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Voltamos de novo
Com sorriso no rosto
Com sangue nos olhos
Linhas no meu bolso

Anos-luz à frente
Pronta pra dar o troco
Ressurgi das cinzas
Reconheci meu corpo

Pode tacar fogo
Eu resisto
Eu insisto
Eu sou chama

A rosa é linda
Mas tem espinhos, Abel é bom
Mas tem Caim
Será que sempre vai ser assim?
Me dê sua mão, estou sozinha
Será o perfume que é de jasmim?
O cheiro é bom, vem até mim
Será que estou perto do fim?

Quem você acha que é? Quem cê acha que destrói?
Se a arma que te mata você mesmo que constrói

Quantas vezes eu chorei mesmo sem ter feito nada?
Mas de uma coisa eu sei: aqui se faz, aqui se paga
Sinto que o karma é forte mas minha fé não se apaga
É preciso a tempestade pra lavar, pra levar o que sempre agarra

Tô voando alto, por favor não me perturba
A 200 por hora de ilusão tô dando fuga

Será que eu mudo o mundo?
Será que eu só me mudo?
Será que eu grito alto ou ativo meu modo mudo?

Ausência quer me sufocar
Saudade é privilégio teu
E eu canto pra aliviar
O pranto que ameaça

Difícil é ver que tu não há
Em canto algum eu posso ver
Nem telhado, nem sala de estar
Rodei tudo, não achei você

Teu olho despencou de mim
Não reconheço a tua voz
Não sei mais te chamar de amor
Não ouvirão falar de nós

A gente se esqueceu, amor
Certeza não existe não
E a pressa que você deixou
Não vem em minha direção

Sua vaidade impera
E o meu vazio não te tolera
Espero que você aprenda

Saudade dói, mas eu cansei de me explicar
Vou usar as linhas tortas pra simplificar

Eu sou regida pelo fogo
Sou sonho que não acaba
Eu não quero te dar sufoco
Queria ser sua morada

Eu preciso fugir daqui
Pra longe de você
Eu preciso sair de mim
Pra eu me entender

O poeta e o aviador

Entre teu céu
e o meu
leve sussurro de asas.

Construção

Eles são donos do mundo
e não sabem disso.
Daqui os vejo
bem no alto contra o espaço,
eles vem e vão
pássaros sérios
deslocando nuvens
Daqui os vejo criando
essa explosão precisa
de ferro cimento e paciência
— agora um bem pensado
esqueleto de superpostas vigas.
E a gente fica cismando como é belo
o que eles criam e o simples permanecer
de um operário no alto da sua construção.
O pequeno quadrado (que será elevador)
desce e sobe por ossos de madeira
do poço por eles trabalhado.
Eles constróem o mundo
eles divididos mas tão fortes
eles são o mundo
e não se importam.

Eles levantam os castelos de agora
castelões provisórios no alto de suas torres.

Amor

O que será:
este labirinto de perguntas
e resposta alguma,
este insistente rugir
de pássaros, este abrir
as jaulas, soltar o bicho
novelo que há em nós,
delicado/feroz morder
(deixa sangrar)
o outro bicho (deixa, deixa)
e toda esta parafernália
a parecer truque enquanto
obsidiante você mente
embora acreditando nas mentiras
e eu use os piores estratagemas
para cobrir-me a retirada
desse vicioso campo de batalha.

Se fosses um buda
eu seria a pedra
de tua fronte.

Iraruca

Destino é o nome que damos
à nossa comodidade,
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes.

Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida.

Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água.

Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.

Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.