Coleção pessoal de pensador
Eu vou te ligar se a saudade apertar
Mas, por enquanto, eu sei que cê tá bem
Mas se eu te contar que tá foda aguentar
Essa distância que é viver sem
Final do mês é sempre desespero
Se pá eu colo aí em fevereiro
De longe vai reconhecer meu cheiro
Daqueles que arrepia o corpo inteiro
Temente somente a Deus
Não se trata de coragem
Mas na nossa vida louca
Nela estamos de passagem
Ninguém fica pra semente
O salário do pecado é a morte
Morrer como homem é o prêmio da guerra
Dono do ouro e da prata é Jesus
E ninguém leva nada da Terra
Uns me chamam de Zé Bobo
Outros me chamam de marrento
Mas ninguém fechou comigo
No tempo do sofrimento
E nosso amor começou direito
Lá no beco do sossego
Brincou no meu terreiro
Luz no meu sendeiro
Soneto brasileiro
Dia da caça
Ou do caçador
Caçando sarna
Pra se coçar
Olho no olho
É você meu par
Andei pensando
Por que queria te encontrar
Andei pensando
Como seria te encontrar
Apavorante
Sintoma de amor
Que chega pra ficar
Um instante
Nesse lugar
Que o vazio quer ocupar
De longe
Parece bom
Mas por onde andará?
Num fragmento de instante, nossos olhares se tocaram no reflexo do vidro recém-comprado.
– Você está maior, filho. Quase do meu tamanho – ele interrompeu a caminhada.
Eu não achava. Minha altura parecia a mesma. Pude sentir, porém, que algo de fato mudara em mim, embora não soubesse definir exatamente o quê. Algo que mais tarde, já sob a sombra de um corpo de homem, ganhou absoluta limpidez: na imagem baça daquele vidro, o pai começara irremediavelmente a desaparecer.
Eu nasci e cresci no subúrbio, sou da Madureira. Quando eu fui fazer faculdade, comecei a escrever e eu sentia falta na literatura contemporânea brasileira desses personagens suburbanos. Eles pouco aparecem como protagonistas e, entretanto, representam a maior parte da economia do País.
Circulo muito por diversos bairros. Esse caminhar pelas ruas te dá a oportunidade de experimentar a alteridade, fazer uma outra leitura dos lugares.
PRESENÇA
É Zum
É Zum
É Zum
É Zumbi
Zumbi de Ogum
Guerreiro de Ogum
Aqui
Na praça na raça
Na reza fumaça
De incenso no ar
No canto de encanto
Na fala na sala
Na rua na lua
Na vida de cada dia
Em todo lugar
É Zum
É Zum
É Zum
É Zumbi
Zumbi de Ogum
Guerreiro de Ogum
Aqui
rabo-de-arraia
No aço do braço
No samba de samba
No bumba-meu-boi
No bombo do jongo
Congada batuque
Maracatu
Zumbi Zumbi Zumbi
Guerreiro da Serra
Sob as estrelas acesas
Na madrugada
Nó do ebó na encruzilhada
É Zum
É Zum
É Zum
É Zumbi
Zumbi de Ogum
Guerreiro de Ogum
Aqui
Leva teu cajado desajustado
Que a vida é nó
Cada passo dado, não há legado
Teu rastro é pó
O teu toque é simples
É leve, devagar
Tua mão diz sim
Mas tua história ninguém quer contar
Queima
Vai no canto, vai na contramão
Roda
Tua luz é a escuridão
Chama
Vai de canto, vai na multidão
Leva
Tua luz é a escuridão
Atiro sem alento
Esqueço de inspirar
Semeio meu intento
E me tento a não mais temer
Deixar voar
Pra não ter ruim de flutuar
Não mais temer
Deixar rolar
Que a vida é sopro breve
Que o breve é sopro é ar
Que a vida é sopro breve
Deixa desaguar
Deixa desandar
Voa num mergulho fundo
E nada demais
Segue livre pelo mundo
Que o mundo vai atrás
Samba no caminho torto
E não cai jamais
Se te fisguei, te devolvi pro mar
Tu nada demais
