Coleção pessoal de pensador

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Tracionada a ferrugem dos ferrolhos
reage ao sol
e rescende o cheiro dos carvalhos
no escorrer das ocras:
o ferro a menstruar no tempo.

Transversa
a luz revela o desenho das teias:
colcha prateada de neurônios
– esses nervos da vida.

Firmes ali sem mais estar
mãos invisíveis no ensaio do tear.

Netuno

Crê em trilhas,
insólitos anéis,
luas diversas.

Adagas sustentam
frágeis
estalactites.

Entre o gélido
e os ventos
o corpo filtra:
o meio.

Nem grande,
nem pequeno,

Nem perto,
nem longe,

o mais pesado:
o centro.

Todo corpo é uma casa
cada corpo é um frasco onde se lê: frágil
onde se lê: força
onde se lê: entre sem bater

Há entre nós silêncios confortáveis
e conversas transparentes
palavras feitas de dedo e vapor
palavras que só acordam com o calor

Somos a terra e a semente
carne de aluguel em alma de rainha
as submissas as bacantes
as que procriam e as que não

Somos as que evitam o desastre
as que inventam a vida
as que adiam o fim
mulher
multidão

Somos porta de entrada
e de saída
somos deusas e escravas
há mil gerações

EU NÃO TENHO A ALMA DE UM CORRIMÃO

Eu sou mais elo, de liga e do laço.
Respeito para mim é coisa fina,
assim como o abraço.
Mais do que as transas e os beijos,
as mãos dadas me parecem mais sinceras.
Tão ruins quanto as promessas
são as esperas.

Trágica

meu galego
não conhecia minha ira

era dono do meu corpo
meu espírito de porco

sabia minha ginga
minha pletora, minha míngua

conhecia cada fresta
cada trinca, cada aresta

cada vinco, furo, fissura,
mau humor, amargura

mas da minha ira
condenada ira
ira da maldita

ira de mulher
fêmea exata
ana saliente
uterina, enfezada
ele não sabia nada

(meu galego dorme esta noite num cemitério improvisado)

Peças de madeira em pau-marfim

A linha dos olhos
faz flechas da cor de futuros
As mãos formam conchas
de pegar contentamentos
Os pés são grandes como
as telas holandesas realistas
O corpo inteiro é um tabuleiro
de jogar jogos de azar
As costas quadriculadas
As coxas quadriculadas
A boca quadriculada
Onde eu me finjo
de dama

O perdão está dado;
O traidor está curado;
O amor sentou-se
de pernas abertas
diante de mim.

Vem cá, morena.
Ele é brega.
Vá, são todos iguais,
mas uns são mais.

Lamento,
mas, se virar poema,
já é vantagem.
Melhor que virar
pura bobagem.

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

Quando me levantei já as minhas sandálias andavam a passear lá fora na relva



Esta noite até os atacadores dos sapatos floriram

Ninguém me ama como você
E eu não posso amar ninguém de volta
Você me lembra da lua
Porque toda noite você volta

Você é a razão pela qual eu acredito que o amor é real
Ninguém fez eu me sentir do jeito que você me faz sentir
Amor, me diga, isso é real?
Ou eu estava mentindo para mim mesmo só para fazer isso parecer real?

Sei que não sou o melhor em escolher amores
Nós dois sabemos que meu passado fala por si
Se você não acha que fomos feitos um para o outro
Por favor, não deixe a história se repetir

Eu já me machuquei, sim, eu conheço a sensação
De se abrir e depois descobrir que o amor não era real
Ainda estou sofrendo, sim, estou sofrendo por dentro
Estou com tanto medo de me apaixonar, mas se for por você, então eu vou tentar

Conheci muitas pessoas, mas ninguém é como você
Então, por favor, não quebre meu coração
Não me faça despedaçar

Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do que a de já não ser
capaz de chorar?)

Se você precisar de um ombro para chorar
Se precisar de alguém, eu estou do seu lado
E eu sei que não é o mesmo que era antes
Se eu pudesse voltar no tempo, amor, eu voltaria

e distraído, às vezes, confessava
amar a tua pele como quem
quer dizer-te: não morras nunca mais.

Eu nunca vou dar meu máximo de novo
Porque estou cansado de cair
Quando eu me abro e dou minha confiança
As pessoas acham um jeito de quebrá-la
Me dizem que está tudo bem, e me derrubam