Coleção pessoal de pensador
Ele não é meu namorado. Ele é mais para mim do que pode imaginar. É a lua quando estou na escuridão e o calor quando tremo de frio. O beijo dele ainda me arrepia depois de milênios. O coração dele é de uma bondade da qual este mundo não é digno. Eu amo esse homem sem medidas e razão. Ele não é meu namorado. Ele é tudo e é mais.
Já estive aqui antes. De novo e de novo, e é sempre a mesma pergunta: “Acabou? Agora é pra valer?” E a resposta é sempre a mesma. Estou tão cansada disso.
O quarto está terrivelmente escuro, pois a persiana não deixa passar o menor rastro de luz, não há um só ponto luminoso vermelho de uma televisão esperando ser ligada, nenhum equipamento eletrônico em modo de espera, mas Alina sentiu que éhora de acordar, seu sono já não é imagens e sons, mas apenasuma bruma densa onde o corpo parece afundar, e então o alarme do despertador disparou, é um toque que ela tinha escolhidopensando num despertar leve e calmo, mas o som era histéricocomo qualquer outro que escapa do celular, e a luz do aparelho
começou a piscar de forma epilética, e com o braço Alina conseguiu alcançar o monstro e apertar o botão de soneca, permitindo mais dez minutos de sono que sabia que não teria, pois nuncaconsegue voltar a dormir depois do escândalo do despertador.
É possível alguém ter tanta fé assim na ciência?, ela se perguntou um dia. Na época, aos treze anos, ela ainda tinha algum resquício de fé em Deus, fazia o sinal da cruz ao passar em frentea uma igreja, imitando a avó, mas sentia que sua religiosidadeera apenas residual, algo de hábito, que nunca fora forte, nuncafora relevante, e logo desapareceria por completo. A questão era:quando finalmente abandonasse esses atos mínimos que a ligavam a uma religião, finalmente adotaria a frieza científica do pai?
E Alina respondia, com os dentes entrecerrados, é pedir demais ter uma vida um pouco melhor?, não bater ponto num trabalho que detesto?, não passar metade do meu tempo desperta num ambiente que abomino?, sentir meu cérebro definhando num trabalho que podia ser realizado por animais domesticados? é tão absurdo assim esperar algo mais da vida?, por acaso o seu Deus, com letra maiúscula, o seu único Deus, o verdadeiro Deus vai receber você no Paraíso e calcular, ah, você passou setenta mil horas trabalhando em algo que detesta, por causa disso poderá passar setenta mil horas se divertindo no Paraíso, fazendo o que você quiser, pode virar artista, estudar coisas estranhas, as setenta mil horas são suas, é isso que o seu Deus vai fazer?, e se você morrer e ele não estiver lá e a eternidade for apenas uma repetição da vida, viver tudo de novo, ou seja, a extensão ad infinitum desse meu inferno num cubículo? vou perguntar só mais uma vez: é pedir demais que a vida seja só um pouco melhor do que ela é?
Há algo a dizer sobe o céu noturno de São Paulo: é dos mais escuros possíveis. O brilho artificial da cidade oculta todas as estrelas do céu, enquanto a iluminação precária dos postes, suas luzes amareladas e caídas, dão a impressão de que, ao andar pelas ruas, você está procurando seu caminho por um mundo de sombras.
Uma pessoa não vira adulta ao conseguir emprego, ao aceitar que a vida pode ser entediante, e que fazer o que detestamos durante oito horas por dia é parte integrante da experiência humana, não, não tem nada a ver com trabalho, viramos adultos quando pessoas da nossa idade morrem de forma absolutamente estúpida e podemos contemplar, com a lucidez necessária, a fragilidade e o absurdo da vida.
Quanto mais velho fico, mais sólida a parede se torna, como se tudo o que deveria ser explorado já tivesse sido. As coisas verdadeiras se tornam mais verdadeiras, e as coisas não comprovadas desaparecem. Porque não precisamos delas.
Você está revertendo a causalidade. Sonhos não desencadeiam eventos, eventos desencadeiam sonhos. As nossas experiências alimentam nossas mentes.
Nenhum livro é perigoso por si só, você sabe. Mas, historicamente, ler um livro de maneira errada já levou a consequências terríveis.
Foram as nossas invisibilidades que nos levaram a esse lugar, as pequenas mortes, a sucessão de pequenas mortes, as coisas que não dissemos, as coisas que não sabíamos dizer, os sentimentos que estavam lá, mas não sabíamos como conjurar.
O mais assustador não são as picadas de cobras, cujo veneno pode matar uma vida em 0,5 minutos, terremotos, ataques alienígenas ou o fim do mundo. O que é realmente assustador é como o medo nos paralisa, nos aniquila, nos deixa desprovidos de razão. O mais assustador são as coisas que paramos de fazer, os silêncios que cultivamos como plantas de jardins interiores, os atalhos que começamos a percorrer para não enfrentar nada, ninguém ou nós mesmos. O mais assustador é quando o medo se torna um obstáculo, uma armadilha, uma desculpa. Quando nos tornamos hipocondríacos emocionais, sempre prontos para buscar um diagnóstico que confirme nossas suspeitas e valide nossas inseguranças e paranóia.
