Coleção pessoal de pensador

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⁠Do cimo da árvore
vê como te perdem a pista.

Eles nunca olham para cima:
Esquecem que a quem escapa
É como se lhe nascessem asas.

⁠são precisos pelo menos dois
para que a solidão se instale.

nisso, a solidão é como um filho.

ele perguntou-me:
em que medida é que isso te
marcou?

eu perguntei-lhe:
como se mede uma raiz? ⁠

⁠não há solidão
comparável
à de vivermos longe de nós.

⁠a conveniência
de ser apenas alguém estranho
com ideias estranhas
já não é suficiente

e⁠ntão numa festa com uísque de graça
uma bonitinha de cabelo curto
chega bem perto de você
e diz que sente pena de você
diz que você está se tornando
tão patético quanto as personagens
que inventou

⁠no rosto imerso no espelho
a confirmação de que o meu superpoder
é colocar carroças na frente dos bois
tablado batendo o susto
no compro ouro corriqueiro
onde o ferro volta à carne
e no reflexo do caixa o olhar de máquina
jornada duma luz que não aceitei –
metragem cansaço inesperado
(razão preenchimento do odiar)
e uma voz na cópia me dizendo
nunca foste tu o salvador
desfazendo o refrão dos que lutam
e são imprescindíveis
as lágrimas da passeata
e invadido pela esperança que alastrei
sem encontrar a guerra santa
que havia dentro do poema e da canção
removo as verdades estampadas
nas camisetas
alinhavo o que se rasgou no heroísmo
admito que o tempo é maior (e dá repuxo)
que são intermináveis os sonhos
apesar da evasão que nasce deles
já atingido pela chance do amor
(jarro terrível)
falho escudo imprescindível

⁠Não faz nenhum sentido essa matemática
Bem mais que a teoria
Eu te quero na prática
Você é um cubo mágico que não tem fórmula
É meu romance trágico que não tem volta

⁠Números e amor têm muito em comum
Sei que ambos podem ser irracionais
Emoções irão fazer frações
Números irão fazer canções
E hoje eu vou tentar me elevar
Acima de todas as razões

⁠Teu corpo é uma equação
Que eu não tenho solução
Mas tudo o que eu quero
É me multiplicar com você

⁠Meu amor, seu amor
São complementos como yin-yang
A nossa química grudou no sangue
Eu e tu vamo formar uma gangue
Larga tudo e vem curtir um funk

⁠E ela tem segredos que eu nunca desvendo
Nem por todo o ouro do mundo eu vendo

⁠Somos um
Somos livres
E nem precisamos de asas
Pra sair voando por aí

⁠O mesmo que protege é o mesmo que dispara
O mesmo que te fere diz que o tempo sara
Mas o que difere é tua postura
Dizem que é impossível, mano, vai na marra
Não existe impossível pra quem se prepara

⁠Mas ter dinheiro não quer dizer que eu tô
Feliz com tudo que tá acontecendo
Sabendo que dinheiro é a raiz do mal
Que plantaram, adivinha quem tá colhendo?

⁠Letra nós tem de sobra
Mãos ao alto não, mãos a obra
Eu não corri tanto pra ficar com a sobra
Cê só vê minha sombra enquanto o cachê dobra

⁠Temos todas opções pra viver dias melhores
Cê sabe que me tem na mão, pena que tu não se envolve
Ela roubou meu coração, olha que nem tinha revólver
Agora eu tô na solidão, faz favor, devolve

⁠ Bloco de rima

altruísmo desastroso erva luz
par do meu florescer interminável
enxerto na bolsa do teu alicerce

segura pelo meu desastre
neste jogo de semente em algodão
demora na construção da pá

empresa escalando rendições em teu poço
em teu mito do desinteresse
auxiliado pela repetição (elo-azar)

essa mancha patinada — geração
quilha substituindo o céu
nó da surdez e os crimes da natureza

enquanto escapa de mim em fundura
rumo ao que se emenda com desistência
com o uso excessivo de lembranças

adesivo da chegada ao outro
esse arpão que BUM e descasca o excitamento
de centro do mundo e menos a enraizar

sumindo dentro dos crimes da natureza
esse tiro guardado dentro da flor
mudez que empresta aos teus olhos o voar

⁠dormir — brasa atada a brasa
despejado em caminhão de mudança
(semente que todo presente sem fogo é)

dormir — as medidas da casa que habitamos
sem plástico-bolha
sem feltros sem gota de esperança

enquanto meus ouvidos balançam as lâminas e
meus joelhos pesam o que descabe em seu contento
(e pelo resto desse orelhão aplicado a seco)

me deixando casca
de não saber se vida é caminhão parado
se é caminhão movimento

⁠A vida é construída a partir da morte de outra vida. Se está disposto a matar, então tem a obrigação de comer.