Coleção pessoal de pensador
Antes da tempestade
Chuva amanhã, mas hoje à noite o céu está claro, as estrelas brilham.
Ainda assim, a chuva está chegando,
talvez o bastante para submergir as sementes.
Tem um vento do mar empurrando as nuvens;
antes que você as veja, você sente o vento.
Melhor dar uma olhada nos campos,
ver como eles são antes que alaguem.
Uma lua cheia. Ontem, uma ovelha fugiu para a floresta,
e não uma ovelha qualquer – o reprodutor, todo o futuro.
Se nós voltarmos a vê-lo, veremos seus ossos.
O capim se agita de leve; talvez o vento tenha passado por ele.
E as novas folhas das oliveiras se agitam da mesma maneira.
Camundongos nos campos. Onde as raposas caçam,
amanhã haverá sangue no capim.
Mas a tempestade – a tempestade lavará tudo.
Em uma das janelas está um menino, sentado.
Mandaram-no para a cama – cedo demais,
em sua opinião. Então ele se senta na janela –
Está tudo em ordem agora.
Onde você está agora é onde você irá dormir, onde acordará de manhã.
As montanhas firmes como um farol, para lembrar a noite de que a Terra existe,
que ela não deve ser esquecida.
Sobre o mar, as nuvens se formam conforme o vento aperta,
dispersando-as, dando a elas um propósito.
Amanhã a aurora não virá.
O céu não voltará a ser o céu de hoje; ele prosseguirá como a noite,
exceto pelas estrelas que vão se dissolver e sumir quando a tempestade chegar,
durando quem sabe umas dez horas.
Mas o mundo como ele era não vai voltar.
Uma a uma, as luzes das casas da cidade se apagam
e as montanhas brilham na escuridão refletindo luz. Nenhum som. Apenas gatos se enroscando na entrada.
Nenhum som. Apenas gatos se enroscando na entrada.
Eles farejam o vento: tempo de fazer mais gatos.
Mais tarde, eles vagarão pelas ruas, mas o cheiro do vento os espreita.
É o mesmo nos campos, atrapalhados pelo cheiro de sangue,
ainda que por ora apenas o vento desperte; estrelas deixam o campo prateado.
Estamos longe do mar e mesmo assim reconhecemos os sinais.
A noite é um livro aberto.
Mas o mundo para além da noite permanece um mistério.
Matinas
Pai inalcançável, quando nós fomos originalmente
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma – beleza em cada lado, beleza
sem alternativas – Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne –
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
Desejo não significa falta de respeito. Aliás, pelo contrário. É sinal de respeito. Não há elogio maior.
Existem certos tipos de amores que não acabam, mesmo quando chegam ao fim. E o seu continua no peito: vivo e enraizado. Ardendo feito ferida.
A gente sente quando o outro se ausenta, ainda em presença. Ele se torna opaco, feito neblina – ao encostarmos a mão para sentir, não tocamos em nada além do seu vazio.
A mulher mais perigosa do mundo é aquela que já foi machucada. Ela, por mais que tenha um coração imenso, não receberá de volta nenhum homem que escolheu sumir. Por mais que ele insista e implore. Ela não perde tempo com quem não sabe o que quer.
Você pede tanto
pra Deus colocar
um homem decente
na sua vida,
mas como você quer
que Ele faça isso,
se você não libera o espaço
que está sendo ocupado por
alguém que só te faz mal?
