Coleção pessoal de Pedro_Amancio
Monólogo do Caráter
Agora, neste exato momento, percebo que me perdi há muito tempo. Carrego o vazio que eu mesmo construí ao desistir de sustentar o progresso. Culpo-me por abandonar o que me fazia bem em nome do que parecia correto aos olhos de outros. Como retornar ao instante em que me anestesiei com a pílula da mesmice?
Será mesmo falta de tempo? Não. Falta-me foco, falta-me organização — coisas que nunca aprendi a cultivar. Devo continuar idealizando futuros belos ou despertar para transformar a realidade? A responsabilidade por não ter e por não ser recai apenas sobre mim.
Caminho sempre contra a multidão, mas quem garante que não são eles que avançam, apressados, na direção errada? Quem, afinal, está certo?
Não me reconheço como produto do meio; sou o meio que produz. Produzo, sobretudo, perguntas. Os animais sabem que são animais? Também eles existem moldados pelo ambiente. Reproduzir não é consciência — é apenas persistir. Eu não quero ser apenas mais um. Quero ser mais dois.
A ânsia de mudar o mundo sucumbe à minha própria inconstância. Sei que posso, sei que possuo os meios para ser o que é necessário, mas o medo do fracasso me visita diariamente. Cada vez que escolho a comodidade, recuso a humanidade. Inclino-me, esqueço-me, escondo-me.
Perdoa-me, mundo —
disse o caráter.
Carta crítica filosófica
À Natureza
É um prazer lhe escrever esta carta,
ainda mais pelo privilégio de usar um papel
extraído de uma antiquíssima árvore da Alemanha.
Escrevo-lhe com meu mais novo lápis do Líbano.
Veja como você é importante para mim.
Querida,
quanto tempo faz desde que não nos falamos, não é mesmo?
Pensei em você enquanto meus funcionários
erguiam meu novo prédio — um edifício grandioso.
Lembra-se daquele jardim onde costumávamos passar?
Comprei-o em um leilão.
Agora, ali, nasce um prédio comercial.
Esperei por você no lançamento da pedra fundamental.
Olhei entre homens e mulheres,
mas não a encontrei.
Terá eu lhe magoado, querida Natureza?
Achei que tivesse liberdade para tratá-la
com mais intimidade.
Parece que você não aprovou minhas ações.
Não se preocupe.
Assim que eu terminar de limpar o terreno
dessas árvores velhas
e concluir a construção,
erguerei uma estátua de concreto
em sua homenagem.
Talvez assim eu consiga reconquistá-la.
Quando puder, responda-me.
Atenciosamente, o insensato.
Ser livre é algo errado? Por que tanta represália quando vivemos como queremos, então?
Seria mais prático apenas viver a vida, sem julgar ou palpitar nas escolhas alheias.
Usamos bases fictícias para moldar a nossa verdade; que blasfêmia isso! O prazer é real, palpável, tal qual a felicidade. Tudo existe de verdade e é para ser experimentado por nós sem nenhum tipo de rótulo.
Será que a felicidade e o prazer se tornarão mitologia? O que está matando essa verdade?
A pluralidade é a graça da coisa. Tudo anda tão igual...
Mesmos dias,
Mesmos rostos,
Mesmos gostos,
Mesmos cheiros,
Mesmas sensações.
Nada muda,
Nada novo.
Presos em infernos que não são nossos.
A vontade de cada um se tornando nula por uma verdade universal. Cadê a liberdade que tanto se prega? Estamos voltando para a era das trevas. Precisamos soltar os iluministas presos em nossas vontades reprimidas, para que possamos mudar o futuro de nossa civilização.
Os influenciadores são os novos ditadores, e os padrões são os métodos de tortura. Todo o poder está localizado na placa-mãe. Revolução já! Iluminismo já! Tudo se repetindo...
Declamo aos penetrantes, estrênuos, loquazes
Reclamo quão infames, nocivos, temperamentais
Dai-me espaço para ser quem sou
Tão sem força deixam a minha voz
Declamo aos que me escutam, mas me deprezam
Aos que sabem da minha verdade, mas que me calam por pura maldade
Dai-me tempo para que eu consiga convencê-los
Dai-me liberdade de fala para que possam me conhecer
Digo: sejam, nem que por uma vez, humanos
Repito: dai-me espaço, preciso só de um dia, nem chega a ser um ano
Querem saber quem sou sem me deixarem apresentar
E, quando me deixam mostrar quem sou, mandam-me calar
Peço: deixem-me ser assim
Esse sou eu
Deixem-me andar nesse caminho, ele é meu
Deixem-me viver com o meu eu
P. H. Amancio.
Um vento me venta e um intento eu invento.
Aqui e ali sou apenas um momento.
Se vier, vai me levar pra lá, longe me prender.
Lá onde me calam e não podem me socorrer.
Se for assim, então que minha voz logo se espalhe,
antes que venham e tinjam de preto a mortalha
que cobre minha nobre elegância, que mataram quando ainda era criança.
Antropometria, uma baixaria esculpida e despida, a pobre Luzia.
Preço bem baixo, essa mercadoria.
Quem olhou decidiu que não mais pagaria.
Sem valor, a obra sofre calada, desnuda.
Feita para alegrar os olhos, porém tudo muda
quando aquele que vê já desvaloriza a alma da arte que fora esculpida.
Um andar pela rua que não é segura faz "té" fraquejar,
coração confinado num peito sem espaço quer bombear.
Oprimido de vício, chorar é preciso para se salvar.
Mas se for bem de noite, só pede socorro se alguém quiser te ajudar.
A dor não mata, o medo sim. Temer se curar, é o principal caminho para se acabar.
Aquele que teme à mudança, vive infeliz e distante da verdade. Quem quer ser a melhor versão, deve lançar fora o temor à coisa nova.
Eu já falava deles sem mesmo os tocar
Tú já sabia que no fundo eu queria te namorar
Eu me entreguei na forma que olhava tua boca
Lábios molhados provocam sensações tão loucas
Não somos quem somos por ter concluído nosso objetivo, somos isso porque o processo, pela conclusão do tal, nos levou a ser o que somos.
O médico não é inteligente por ser o que é, ele é inteligente porque a vontade de chegar ao seu objetivo o fez ser assim.
Com palavras corriqueiras me eternizo no teu agora. Não farei sentido se não estiver escrito. Me leia, me releia. Lembre de mim quando pegares no papel. Sou tua folha e a tua tinta.
O fundo do poço não é o pior lugar para se estar, na verdade, é o local propício para renovação. Na vida, a dor que sentimos é provocada pelos arranhões que sofremos durante a queda no poço. Esbarramos nas paredes úmidas e informes, e isso nos causa arranhões e dores bem profundas, mas é só a queda. Ao chegar no fundo do poço, é possível sentir o nada, e isso é confortante. E quando isso acontece, é o momento ideal de renovação. Olhar para cima causa o desejo de subir, e sair da zona de conforto, mas há também a opção de cavar mais, e ao fazer isso, é possível extrair da terra minérios e pedras precisas, o autoconhecimento. O diamante, o ouro, e até mesmo o minério de ferro que se encontra ao cavar, nada mais é do que o amor próprio, reconhecimento, e a autoconfiança. Se estiver no topo, cuide para que não perca o equilíbrio e sofra com a queda. Se chegar ao fundo, suba ou se conheça.
Ser sábio não é escolher o certo.
Ser sábio não é acertar.
A sabedoria se encontra na ação,
A tolice habita no "parar".
Quem ditou a regra?
Quem criou o escolher?
Se a sabedoria é a ação,
De movimento precisou ter.
Pensando no pouco
Agiu como louco,
Mas logo se tornou sábio,
Pois agiu intencionado.
Se o não agir te torna nulo,
Sábio até poderia ser,
Apenas com um pequeno pulo.
