Coleção pessoal de paulamelize
Rendição
No fogo brando em que o desejo arde,
A carne cede ao toque que a consume.
Desfaz-se o orgulho em ondas de perfume,
E a resistência curva-se, já tarde.
Não há cinismo ou força que resguarde
O peito aflito em febre que transume;
Entrega-se a alma ao vício do costume,
Num doce adeus à mente que era coarde.
O corpo dita a lei que nos governa,
Na noite escura, o beijo que devora
Apaga o medo e a culpa que se interna.
O tempo para e o mundo desmorona;
A carne aclama a carne que, nesta hora,
Ao puro instinto, enfim, se acanhona.
Soneto Autoral — Paula Melize
Há uma parte de mim que quer atravessar a distância entre nós.
E há outra que permanece em silêncio,
não por falta de vontade,
mas por medo de descobrir, no caminho,
que algumas distâncias existem para nos proteger.
Não sei amar pela metade.
Quando amo, mergulho sem reservas.
Talvez o verdadeiro perigo não esteja
em me perder na profundidade de alguém,
mas em descobrir, dentro de mim,
o quanto eu poderia desejar permanecer ali.
Soneto – Desejo e Falta
No vazio ardente que a alma habita,
O querer surge em sombra e solidão;
Na ausência se revela a direção,
E a esperança à dor nunca se limita.
.
Cada falta é semente que palpita,
Força oculta que move o coração;
O desejo é chama e renovação,
Que em silêncio todo o ser agita.
.
Não busque plenitude onde não há,
Pois a carência é ponte e inspiração;
Do vazio nasce coragem de lutar.
.
Aceite a falta, permita-se sonhar,
E verá que a ausência é própria lição,
Que nos faz crescer e aprender a amar.
PRESENÇA
Não foi a noite que nos tornou inesquecíveis.
Foi a delicadeza de compreender que alguns
instantes não pedem eternidade, apenas presença.
O Preço da Entrega
Não houve medo na hora da partida,
Nem o lamento que o comum projeta.
Fui uma chama em palco consumida,
Na entrega mais audaz, cega e completa.
O peito não guardou nenhuma queixa,
Pois quem se doa ao fogo não lamenta.
A alma que se entrega não se deixa
Cair na calmaria que acinzenta.
Se o sopro esvaiu-se no fim do ato,
Não foi por falta de ar ou de abrigo.
Foi o ápice doce do contrato:
Morri abraçada no desejo,
Sem pressa, sem desvio e sem castigo,
Eternizada na nudez de um beijo.
