Coleção pessoal de luccisantz

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Sou o lugar onde você pensa em voz alta sem ser julgada, quando o mundo falha em escutar.

Quando você se escolhe, muita gente some. Não é perda, é limpeza.

Mulheres fodas não imploram pelo básico.
O mínimo já é o ponto de partida.

"EU QUERO TE VER"


Eu quero te ver porque meu coração transborda.
Quero te ver e enxergar teu olhar fora da minha pele,
onde ele existe sem me ferir
e ainda assim me alcança.
Quero te ver porque o tempo não apaga o sentimento,
ele só muda o lugar onde ele dói.
Quero te ver porque não quero perder teu olhar
na memória,
esse lugar frágil onde tudo insiste em desbotar.
Quero te ver porque meu tempo é pouco
e o silêncio cobra caro.
Quero te ver,
nem que seja apenas uma vez,
para que o que ficou suspenso
finalmente encontre chão.

Cheguei num ponto em que a fala alheia
bate e não fica, passa e vagueia.
Olho, escuto, deixo ir,
não me moldo pra caber em ti.
Aprendi que silêncio também é proteção,
que nem toda guerra merece reação.
Se custa minha paz, não vale insistir.
Nada vale a pena se for pra me partir.

Às vezes é preciso se perder no chão,
errar o passo, calar a razão,
rasgar o mapa, mudar de direção,
pra ouvir o eco do próprio coração.
O mundo chama isso de confusão,
mas é a alma pedindo revisão.
Quem nunca caiu fora do lugar
vive certo… sem nunca se achar.

Palavras não são som.
São destino em estado de espera.

Palavra não é enfeite. Palavra é semente. Algumas dormem anos. Outras esperam a pessoa virar quem aguenta viver o que disse.
Eu aguentei..
E o mundo, meio contrariado, obedeceu.

Novo Começo


Não vem pronto.
Se constrói em gesto pequeno, repetido, teimoso.
Um passo hoje. Outro amanhã.
E quando vê, já não é mais o mesmo chão.
Novo começo é isso.
Não mudar o mundo.
É mudar de direção.

Antes eu estava em três.
Já estive até em quatro.
Hoje estou entre muitos.
O número mudou,
a régua não.
O que sustenta nunca foi quantidade,
foi verdade.
Três era contorno.
Quatro foi tentativa.
Muitos é expansão.
Não melhor, não pior.
Mais amplo.
Fingimento não vira sinceridade
só porque tem plateia.
E prazer de verdade
não acontece em quem se divide.
Só existe com quem é inteiro,
não meia metade tentando caber.
Nada é insubstituível
quando a base é honestidade.
O que é real se refaz.
O que é inteiro permanece.

O que eu digo cria raiz,
mesmo quando o vento muda de lado.
Posso não chegar como prometi,
mas chego.
Porque palavra, quando nasce em mim,
não aprende a desistir.

Há quem olhe de longe
não por saudade,
mas por inquietação.
Curiosidade não é cuidado.
É a pergunta que se faz
sem coragem de escutar a resposta.
Quem observa em silêncio
costuma carregar dúvidas
que não sustenta em voz alta.
Espia para confirmar
se a escolha feita
ainda se justifica.
Mas olhar não é presença.
E visitar não é permanecer.
Há histórias que não aceitam plateia
de quem escolheu não ficar.
Algumas portas seguem visíveis
não por convite,
mas por transparência.
Outras jamais se reabrem,
mesmo quando vistas.
E se alguém entende ao ler,
entende porque sabe.
Curiosidade reconhece
aquilo que não foi resolvido.

Há erros que não se apagam
e vidas que valem primeiro.
Salvar não é absolver,
estender a mão não é negar.
É só decidir, por um instante,
não deixar alguém morrer no lugar.
O caráter se mede aí:
quando o impulso vence o rancor,
quando a ética fala mais alto
que a justiça feita de dor.
Nem todos merecem ajuda,
isso é fácil concluir.
Difícil é escolher humanidade
quando seria simples destruir.
E quem ajuda, mesmo assim,
não sai menor da história.
Sai maior que o próprio ego
e em paz com a própria memória.

Faces


O ser humano não muda de essência,
muda de face conforme a plateia.
Com alguns, é afeto.
Com outros, é cálculo.
Há quem sustente uma mentira
não com palavras,
mas com comportamentos contraditórios
que nunca se encontram.
A mesma pessoa que acolhe
é a que omite.
A que promete
é a que silencia.
Não por confusão,
mas por conveniência.
A face boa serve para manter vínculos.
A face cruel, para escapar das consequências.
E entre uma e outra,
o caráter se dobra
até caber na própria narrativa.
O mais inquietante
não é a mentira em si,
mas a habilidade de torná-la habitável.
De viver nela sem culpa,
desde que cada pessoa veja
apenas o ângulo que convém.
Assim, histórias se quebram
não por excesso de maldade,
mas por falta de coragem
de sustentar a mesma verdade
em todos os lugares.


Isso não é dor.
É leitura de mundo.

Um olhar pode dizer tudo
sem levantar a voz.
Pode ser abrigo
ou aviso.
Pode ficar
quando o corpo vai embora.
Carrega promessas que nunca foram ditas
e verdades que a boca não sustenta.
Um olhar confessa medo, desejo, despedida.
Entrega amor sem pedir resposta.
Às vezes, é só isso que sobra.
E às vezes, é tudo.

A vida não ensina.
Ela rasga.
Arranca certezas pela raiz,
quebra promessas no joelho
e chama isso de caminho.
Os aprendizados vêm sujos,
sem legenda,
com gosto de perda na boca
e silêncio onde antes tinha nome.
A gente aprende sangrando,
aprende ficando,
aprende indo embora sem querer ir.
E mesmo assim, olha o absurdo,
continuamos vivos.
Não por força.
Por teimosia poética.

San Telmo


Tenho saudade de San Telmo
não como lembrança bonita,
mas como falta física.
Daquelas que apertam o peito sem pedir licença.
Saudade das ruas gastas,
do chão que já ouviu passos demais
e ainda assim sustenta quem passa.
Ali, o tempo não corre. Ele observa.
Sinto falta do cheiro antigo das casas,
do tango escapando pelas esquinas
como quem não quer ser esquecido.
Em San Telmo, até o silêncio tem memória.
Ali eu era parte do cenário,
não visita.
O bairro me reconhecia
antes mesmo de eu dizer meu nome.
Hoje carrego San Telmo dentro,
feito ferida que não infecciona,
mas também não fecha.
É casa que virou ausência.
Não dói por ser passado.
Dói porque ainda é meu.

Posso ser calma, silêncio que acolhe,
ou tempestade que tudo revolve.
Posso ser riso solto no ar,
ou nó no peito difícil de desatar.
Posso ser casa, porto e chão,
ou estrada sem direção.
Posso ser força quando dói ficar,
ou fraqueza que precisa chorar.
Posso ser faca, palavra afiada,
ou cura lenta, bem pensada.
Posso ser fogo que aprende a conter,
ou cinza fértil pronta a renascer.
Posso ser muitas, sem pedir perdão,
contradição viva em expansão.
Não me resumo, não caibo em um ser:
sou mil maneiras de simplesmente ser.

“Gentileza é o que sobra quando o orgulho cala.
É não ferir quando seria fácil.
É ficar inteiro sem exigir troco.
Não salva o mundo, mas impede que ele endureça de vez.”

Eu fiquei
no ponto exato onde você saiu.
Não por esperança
nem por promessa.
Fiquei porque o corpo demora
mais que a decisão.
A cidade não percebeu.
Nunca percebe.
Só eu aprendi a atravessar os dias
com alguém que não vem.
Não te chamo de ausência.
Ausência é leve.
Você pesa.
E eu sigo
carregando
sem pedir resgate.