Coleção pessoal de lisa_alves
O tempo nos lê todos os dias
a lei enérgica do eterno retorno
e nem a didática foge à regra:
repetições,ponteiro do relógio
e onomatopeias do tempo:
guerra, paz, guerra, paz,
guerra, paz, guerra, paz,
guerra, paz, guerra, paz
Lisa Alves — Arame Farpado (2015
[lei de talião]
Arranquei o olho esquerdo
e o fiz de amuleto antes que
a cegueira me impeça de ver
que não há nenhum herói nos
arredores da Terra do Sol.
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
[censura]
Não possuía escapes – lacraram todos os orifícios de evasão.
As flores de dentro tornaram-se rudes e secas.
Até o ar ficara denso.
Nem regalia de afundar-se ao chão,
nem michas por debaixo das portas (portas?),
nem correio, nem leiteiro, nem vozes (veludas vozes),
nem sirenes e nem a cantiga do bem-te-vi.
Ela era toda silêncio.
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
[o brado]
Sanguessuga é a velha
união européia
ou o louco Tio
do “Times is money”?
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
[deuses ruminantes na terra do sol]
Mastigar o Sol e digerir energias sem filtro
ser dragão tupi or not tupi
ser Dragão tão-só,
tão-somente cuspir fogo
como uma entidade intraterrena,
de dentro, do submundo: um vulcão, um deus de dentro
Hades desse lado de cá é Moloch Infernus Br.
Brasil tão-só, tão Sol,
que carecemos ruminar.
Lisa Alves — Arame Farpdo (2015)
(...) Já cedo, antes de maçãs caírem
eu sentia o poder da gravidade
(meu pai sempre caía e eu o seguia)
Primeiro porre aos doze.
[entre quedas e newtons, mordo a maçã]
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
[impressoras orgânicas]
(...)
Meu espírito anárquico não compreende
a frieza em pleno verão.
Nasci na tropicália mineirês,
no barroco europeu
com santos que nunca acreditei.
Aprendi a ler para rezar novena e fui parar em
“Ave Bakunin!” e “Salve Lispector!”.
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
[ecos]
O Eu original foi desconectado
e tudo o que restou fomos Nós
(esses Eus sem paradigmas),
no escuro de uma tabela periódica,
crédulos da ciência e dos teísmos,
cultivadores de rótulos, diplomas e de imóveis habitações.
Lisa Alves — Arame Farpado (2015)
(...)
eu não sei se passei no teste
de ser gente ou alguma coisa
queria mesmo é ser a Mosca
dos filmes do Cronenberg
ou o inseto monstruoso do Kafka
que um dia não saiu mais
um dia me tranquei no quarto
um dia me tranquei na vida
e não fui mais
simplesmente não fui
e nem tentei encontrar
respostas ou motivo
Não há nada depois dessas coisas.
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(Fragmento do poema “Um inseto monstruoso”)
Lisa Alves — Jardim de Pragas (2025)
