Coleção pessoal de leonardomarthiniano
“Talvez exista uma razão para eu tentar controlar tanto as coisas ao meu redor.
Porque, no fundo, eu sei:
se eu não criar alguma ordem,
o caos acaba me consumindo.”
Venho de uma época diferente.
Demasiadamente distante daquilo que o mundo se tornou.
Onde as coisas eram um tanto menos fragmentadas.
Não no sentido literal.
Mas há algo em minha essência
que nunca pertenceu completamente a este tempo.
E talvez seja por isso
que eu tenha buscado refúgio
nas ruínas silenciosas do passado.
Onde ainda havia silêncio na contemplação.
Nas marcas deixadas pelo tempo sobre as páginas.
E em diálogos que existiam apenas para serem sentidos.
Às vezes sinto
como se estivéssemos nos afastando
daquilo que nos torna humanos.
Não pela tecnologia.
Nem pela globalização.
Mas pela incapacidade
de manter vínculos reais.
E enquanto o mundo corre desesperadamente
em direção ao excesso e à distração,
minha alma ainda anseia
por profundidade.
De forma silenciosa.
Quase hermética.
Talvez seja por isso
que eu admire tanto aquilo que resiste ao tempo.
As palavras escritas à mão.
Os sentimentos que permanecem em silêncio.
E as raras pessoas
que ainda sabem sentir
em um mundo anestesiado por estímulos.
Porque no fim,
como escreveu Shakespeare,
“somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.
E talvez o maior erro deste tempo
tenha sido transformar sonhos em consumo,
e almas em vitrines.
Dizem que houve um tempo
em que se encontraram
e, em silêncio, se amaram.
Não como quem começa,
mas como quem retorna
a algo que nunca terminou
algo que pereceu,
mas jamais cessou.
Havia entre eles
um reconhecimento sem nome,
não do rosto
mas da ausência que consome.
Um sentimento áspero,
capaz de estilhaçar a alma,
silencioso…
como dor que aprende a manter calma.
Como se carregassem,
em silêncio,
a memória de algo
que não chegou a ser vivido
mas ainda assim,
jamais esquecido.
E era real.
Porque nem todo amor
precisa existir no mundo
para existir de verdade.
Alguns permanecem
onde o tempo não alcança
na lembrança
do que nunca aconteceu,
ou na falta
de quem nunca se teve… mas se perdeu.
Separaram-se, como em todas as histórias.
Não por escolha,
nem por falha.
Mas porque há sentimentos
que não foram feitos para permanecer
apenas para atravessar…
e nunca pertencer.
Dizem que em outras eras
voltaram a se encontrar.
Com a mesma intensidade no olhar,
o mesmo silêncio a ecoar
mas com outros nomes,
outras vidas,
outros destinos.
E sempre havia algo:
um gesto contido,
um silêncio familiar,
um instante suspenso
no tempo esquecido
que os fazia quase lembrar.
Mas nunca por completo.
Talvez porque certos amores
não pertençam ao fim
nem ao começo.
Pertencem ao intervalo,
ao quase,
ao avesso.
E assim seguem:
não juntos,
não esquecidos,
mas eternamente próximos
do que nunca puderam ser
condenados não ao esquecimento…
mas ao eterno lembrar
sem jamais viver.
Amar não deveria ser complexo, como um quebra-cabeça
Talvez seja só…
ficar?
Sem esforço demasiado
sem medo
sem precisar traduzir o que se sente
Amar pode ser leve
como entregar um bilhete de amor
sem esperar resposta
Como quem segura a mão
sem precisar de motivo
E quando tudo parecer demais
basta estar…
Presença
cuidado
e um silêncio tranquilo
que não pede explicação
Talvez o amor
quando é de verdade
seja assim: simples
O homem inseguro raramente se reconhece como tal.
Ele descobre mecanismos.
Um dos mais comuns é simples:
rebaixar o outro para sentir-se elevado.
Funciona, como toda ilusão bem construída.
Mas há um custo silencioso:
quem torna o outro invisível perde, aos poucos, a própria capacidade de ver.
E existe uma pobreza que não é material, sim de espírito.
Nenhum sucesso a disfarça por muito tempo.
Grandeza não está no que se conquista,
mas no rastro que se deixa.
E há quem acumule vitórias…
e ainda assim caminhe cercado de cicatrizes que causou.
Às vezes a gente sabe nadar, sabe onde está, sabe o que fazer… e ainda assim falta ar. Não por fraqueza, mas por excesso de carga.
Mudança não habita a promessa.
Ela vive no dia comum,
quando ninguém vê,
exatamente ali onde repetir o padrão seria o caminho mais fácil.
Às vezes, quem nos salva não vem para nos aliviar.
Vem para nos confrontar.
Vem para expor aquilo que a gente passou a vida inteira tentando esconder de si mesmo.
Nunca é tarde para nada.
Nem para uma graduação, um doutorado, aprender uma língua nova, abrir um novo negócio, uma mudança de rota, uma nova família ou filhos.
Começar/Recomeçar aos 20, aos 40 ou aos 60 diz menos sobre o tempo e mais sobre a coragem de finalmente escolher a si mesmo.
A vida não acontece de forma linear.
Ela acontece quando você para de pedir permissão para existir.
Sufocar a própria existência não deve ser uma opção. Jamais.
Dentro dessas linhas
Você chegou como um cometa,
iluminando um céu que eu já achava apagado.
Rasgou a rotina,
fez meu coração repensar seus próprios passos.
Dentro dessas linhas,
eu caminho sem pressa, sem medo,
absorvendo cada instante que você me oferece.
E pela primeira vez,
sem a necessidade de estar armado,
sinto que posso, enfim,
ser amado.
Mostrei meu mundo em tão pouco tempo,
cada esquina, cada pedaço de mim.
E você, sem reservas,
abriu o íntimo que antes era ferida —
e transformou silêncio em confiança.
Até quando nos desencontramos,
o destino fez questão de nos juntar depressa,
como se dissesse que não há fuga
quando duas linhas foram feitas
para correr lado a lado.
Vejo você no amanhã que sempre temi,
como calor nos meus dias nublados,
como ar leve nos dias ensolarados —
onde antes havia peso,
agora existe respiro.
Do Acaso
E mesmo sem querer te encontrar,
eu te procurava.
E mesmo sem saber o que buscar,
você me buscava.
Foi nesse acaso, disfarçado de sorte,
que o tempo rendeu-se ao nosso encontro.
Sem promessas, sem planos, sem norte,
mas com um sentir que venceu qualquer confronto.
Não era destino, era mera distração do universo:
um sopro breve que rasgou o céu cinza, perverso.
E entre meus vícios de solidão e razão,
teu olhar devolveu batidas do meu coração.
Eu, que me resguardava em meus invernos,
vi, em tua presença, uma fissura na minha muralha.
Um perigo silencioso e necessário:
o risco de sentir ainda me encontrar.
E se um dia duvidar de tudo outra vez,
recordarei o silêncio entre nossas palavras —
porque quaisquer que sejam feitas nossas almas,
a minha e a tua parecem ter sido feitas do mesmo.
Libertar-se da tirania da felicidade é compreender que a serenidade nasce quando expectativas deixam de desafiar os limites do possível.
O Sol da Manhã
Ah, o sol da manhã...
Contemplo-o dos cantos mais remotos da cidade.
Durante seu brilho, esvai-se toda vaidade —
Toco a grama molhada pelo orvalho,
Ou ao menos, creio tocar...
Pois sei, pela física, que nunca tocamos de fato:
Somos campos que se repelem,
Somos danças de elétrons em silêncio.
Mas ainda assim, o instante me atravessa,
E isso, para mim, é o bastante.
O balançar calmo das folhas
Apaga os ruídos da mente,
Silencia pensamentos longos demais,
Esses que, teimosamente,
Nos ferem sem jamais cessar.
O canto dos pássaros neste horário
É bálsamo sobre feridas invisíveis.
E o tilintar leve das águas
Faz de um espaço árido,
Um abrigo possível.
“Que o tempo me entenda”
Chegar aos trinta não é descobrir respostas.
É aceitar que algumas perguntas só existem para nos acompanhar até o fim.
Já não busco mais o sentido exato das coisas —
me contento com o eco que elas deixam.
Gandhi dizia que, mesmo insignificante, é importante que façamos o que viemos fazer.
Nietzsche me ensinou que o abismo também olha de volta.
Schopenhauer sussurra que a vontade nos consome.
E Shakespeare... bem, ele mostrou que somos feitos da mesma matéria dos sonhos —
mas que esses sonhos também morrem.
Hoje, olho para o mundo e vejo pressa, ruído, vaidade.
As redes gritam, os egos se inflamam, as verdades se fragmentam.
Viver se tornou barulhento demais.
Mas ainda acredito no silêncio das intenções.
Na ternura de uma escolha honesta.
Na coragem de quem permanece sensível.
Talvez a vida não precise fazer sentido.
Talvez ela só precise ser vivida com consciência.
E, se possível, com alguma beleza.
A beleza de um gesto real.
De um olhar que diz: “estou aqui”.
Se algo vai restar de mim,
que seja isso:
alguém que tentou, mesmo no caos,
não esquecer do essencial.
Ter personalidade é entender o significado de singularidade,
É valorizar a própria capacidade.
É decidir com convicção,
Respeitando a própria opinião.
Diante de qualquer ocasião,
Firmar os pés no chão.
Ter personalidade é não ceder à projeção,
É amar-se com dedicação,
Tornando isso uma lição diária,
Especialmente numa situação precária.
Ter personalidade é ser genuíno,
É alimentar o próprio sonho,
Para se tornar emblemático,
Superando tudo que seja medonho.
Ter personalidade é resistir ao desejo do outro,
É reconhecer a autonomia sem pedir permissão,
A autopreservação como condição,
Contra qualquer autodestruição.
Portanto, é apreciar a liberdade,
Pois, sendo inteiro,
Consegue-se doar verdadeiramente,
Sem qualquer obrigatoriedade.
Sento-me em meio a desordem
Fito as origens de minhas feridas
Exijo de mim, alguma ordem
Ouvindo minhas faixas preferidas
Sinto de longe a toxicidade
Prevejo possibilidades de vício
Como partes iguais de prazer e dor
Ambiciono que tudo seja fictício
Cego pela afeição
Ignoro atos de desvalorização
Acreditando ser uma exceção
Devendo já ter aprendido a lição
Reflito sobre minha ingenuidade
Analiso os fatos com prudência
Desejo não elevar minha vaidade
Evito assim a incidência
Correndo risco de cair em displicência
Deliro sobre como os seres devem ser
Inseguro sobre quem devo ser
Almejando a cólera se dissipar
Contemplo o amanhecer
