Coleção pessoal de julianolrossi

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A Herança do Silêncio


Nasci entre multidões,
todavia jamais encontrei morada.
As vozes entrelaçavam-se em incessante rumor,
mas nenhuma aspirava ao peso das ideias.


Celebravam efêmeros esplendores,
como se o transitório bastasse à existência;
enquanto a contemplação, a filosofia
e a memória das civilizações
definhavam na penumbra do esquecimento.


Percorri incontáveis caminhos
em busca de um destino compartilhado,
sedento pelo mistério das origens,
pela arquitetura do pensamento,
pela grandeza que transcende o instante.


Encontrei apenas superfícies.


Sorrisos sem permanência.
Palavras sem substância.
Encontros destituídos de comunhão.


Descobri, então,
que a mais severa das solidões
não floresce na ausência de companhia.


Ela habita a convivência
quando nenhum destino
alcança a profundidade do outro.


Minha morada converteu-se em refúgio.
A cidade tornou-se território estranho.
E até o vínculo consanguíneo
passou a recordar um antigo monumento:


permanece erguido,
mas há muito deixou de ser habitado.


À mesa, os corpos persistem;
os afetos, contudo, dissipam-se
na sucessão das horas indiferentes.


Cada qual encerra-se
na fortaleza invisível de si mesmo,
onde nenhuma palavra atravessa os muros
e nenhum silêncio encontra tradução.


Compreendi, por fim,
que o verdadeiro exílio
não se mede em léguas,
nem se escreve nos mapas.


Ele principia
quando o destino já não encontra
outro destino capaz de partilhar
a mesma reverência pelo conhecimento,
pela beleza,
pela reflexão
e pelo infinito.


Desde então, caminho.


Não à procura de um lugar,
pois os lugares pertencem ao mundo.


Procuro um destino
no qual o pensamento
não seja estrangeiro.


E enquanto ele não se revela,


permaneço habitando
a mais vasta das distâncias:


aquela que separa
dois destinos incapazes
de reconhecer-se.

Estrangeiro em Minha Própria Terra

Sou brasileiro de nascimento,
mas estrangeiro por inclinação;
caminho entre vozes familiares
e nelas não encontro habitação.

Não me seduzem as celebrações ruidosas,
nem o fervor das multidões em festa;
há em meu espírito um silêncio antigo
que à algazarra sempre se manifesta.

Não busco abrigo em bares iluminados,
nem encanto nas noites de ocasião;
vejo taças erguidas ao instante efêmero,
enquanto procuro sentido e reflexão.

As tradições que muitos exaltam
não despertam em mim admiração;
parecem-me frágeis como névoa dispersa,
incapazes de prender meu coração.

Onde outros encontram alegria,
encontro apenas breve distração;
onde celebram costumes e símbolos,
percebo distância e contemplação.

Talvez o erro não esteja na terra,
nem no povo, nem na canção;
talvez eu seja apenas um viajante
em perpétua busca de outra visão.

E assim prossigo, só e pensativo,
entre a pertença e a negação;
brasileiro pelo acaso do destino,
mas cidadão da inquietação.

"A lei é expressão normativa do Estado, enquanto a moralidade reside no foro íntimo da consciência — e nem sempre caminham lado a lado."

"A arte jamais se confunde com o crime; é o próprio crime que, por vezes, assume os contornos da arte."

"As mulheres não se vestem para agradar a outro homem, mas sim para expressar um conceito."

⁠"Na infância e na pré-adolescência, o coração ainda não conhece as armaduras do juízo. Apaixonam-se com a pureza de quem vê no afeto um abrigo, e bastam migalhas de ternura para que se entrelacem em vínculos profundos, como se o mundo inteiro coubesse num gesto gentil."