Coleção pessoal de Jorgeanesquivel
Há uma pressa que não leva a lugar nenhum.
Na corrida pela vida, esquecemos de viver.
O esforço constante para sobreviver ocupa tanto espaço que a própria vida passa despercebida — silenciosa, enquanto estamos ocupados demais tentando dar conta de tudo.
E quando percebemos, não foi o tempo que faltou.
Faltou presença.
Devocional
Hoje, uma palavra na minha devocional me atravessou. Não como conforto imediato, mas como espelho. Ela trouxe à memória cenas de injustiças — aquelas que vemos acontecer entre pessoas, aquelas que nos atingem diretamente e até aquelas que apenas assistimos à distância. Cobranças excessivas, falácias disfarçadas de verdades, julgamentos lançados com facilidade. E quase sempre reagimos com indignação. Achamos absurdo. Injusto. Condenamos quem condena.
Mas, nesse movimento, algo me foi revelado: eu esqueço de olhar para a pessoa que mais me julga.
Sou eu.
Sou eu quem mais me cobra. Quem mais aponta meus erros. Quem revisita falhas antigas como se fossem sentenças eternas. Sou eu quem, em vez de reconhecer qualidades, insiste em enumerar defeitos. Quantas vezes fui carrasca de mim mesma? Quantas vezes fui juíza severa, algoz silenciosa, aplicando penas sem direito a defesa?
Eu não me deixo descansar. Não me concedo pausa. Não me permito respirar antes mesmo que qualquer ataque externo exista. Muitas vezes, o tribunal já está armado dentro de mim, e a sentença já foi proclamada antes que alguém diga qualquer coisa.
Carrego um dilema interno diário: julgo como erro aquilo que talvez seja apenas humanidade. Trato processos como fracassos. Transformo aprendizado em culpa. E vivo me antecipando à dor, como se isso me protegesse — quando, na verdade, só me cansa.
Essa reflexão não nasce para me absolver sem consciência, mas para me lembrar que justiça também começa no modo como me trato. Que misericórdia não é permissividade, é entendimento. E que talvez o maior ato de fé seja aprender a silenciar essa voz acusadora e permitir que a graça — inclusive sobre mim — tenha espaço para existir.
Hoje, mais do que apontar injustiças no mundo, eu escolho observar como tenho sido comigo. Porque, muitas vezes, a batalha mais dura não é contra os outros — é contra a forma como aprendi a olhar para mim mesma.
13 de Janeiro 2026
Entre Sonho e Maré — Peixes
És rio que corre para todos os mares,
Alma aberta a cada horizonte.
Teu coração é bússola de sentimentos,
E tua empatia, remédio que cura feridas invisíveis.
Sabes ver beleza no que outros ignoram,
Transformar dor em poesia,
E abraçar até o que não é teu,
Porque teu amor não conhece fronteiras.
Mas… oh, Peixes, no mesmo oceano que te eleva,
Também te perdes nas profundezas.
Tua sensibilidade, que ilumina,
Pode virar neblina que te cega.
A fuga te chama com doces cantos,
E às vezes, tu corres antes da onda bater.
Teu idealismo é farol e ilusão,
E tua entrega, salvação ou naufrágio.
És água que molda e se molda,
Sonho que dança na superfície e no fundo.
Virtude e defeito, tão líquidos e inseparáveis,
No eterno fluxo de ser Peixes.
Em forma de concha, deixo um pedaço de mim,
pérola guardada por mãos que sustentam.
Vocês são descanso quando eu preciso parar,
são anjos enquanto caminho.
Que aqui repouse o que é precioso,
como eu repouso em vocês.🦪
Hoje fui tomada por uma dor — mas não, não, não.
Não é qualquer dor explicável.
É daquelas que não encontram nome no corpo,
mas pesam como se tivessem ossos.
Reviro-me pelo avesso tentando decifrá-la,
na esperança de arrancar ao menos um fragmento
e deixá-lo pelo caminho.
Mas sigo paralisada.
Exposta.
Vulnerável.
Não forte — apenas tentando me reconhecer
no meio do caos que se instalou.
Não consigo medir o que vem adiante.
O futuro agora é uma névoa densa,
e cada passo parece exigir uma coragem
que eu ainda não sei de onde tirar.
Mesmo assim, estarei ao teu lado.
Mesmo incompleta.
Mesmo trêmula.
Mesmo sem respostas.
Se fosse possível, eu trocaria tudo que sou
para te dar a chance de viver a vida
sem medo, sem dor, sem interrupções.
Porque amar, às vezes, é isso:
seguir de pé quando por dentro tudo desaba.
O diagnóstico não paralisou apenas os dias —
paralisou o meu ser.
Deixou-me impotente diante do inevitável,
pequena diante do que não posso controlar.
Mas, ainda assim, fico.
Porque quando não posso curar,
posso permanecer.
Quando não posso salvar,
posso amar.
E se hoje só consigo isso —
que seja o suficiente para atravessar a noite.
23 de Dezembro 2025
Traz a mim tudo aquilo que renova minha esperança.
Traz de volta o brilho e a vida no olhar.
Em ti, somente em ti, posso renascer.
Alegra meu sorriso e faz de mim brisa leve.
Que eu seja abrigo e não tempestade.
Que eu floresça onde antes era silêncio.
Que, ao me encontrar em ti, eu nunca mais me perca de mim.
É preciso ler os sinais, perceber as entrelinhas, ouvir o pedido de ajuda que quase nunca vem em forma de palavra. É um silêncio carregado, um cansaço que transborda no olhar, uma ausência disfarçada de presença. Em cada palavra dita, até nas conversas aparentemente chatas, há um pedido velado de escuta, um desejo de ser notado sem precisar implorar. Porque quem sofre nem sempre sabe explicar a dor — apenas tenta existir, esperando que alguém perceba.
Agora todo mundo me ama.
Todos choram e dizem o quanto eu fui incrivelmente incrível…
Engraçado, né?
Porque enquanto eu estava aqui, inteira nos meus pedaços, ninguém percebeu o quanto eu estava desmoronando.
No meu dia normal, ninguém viu o silêncio que gritava, o sorriso que tremia, a exaustão que escorria pelos cantos dos meus olhos.
Agora — agora, quando imaginam minha falta — dizem que eu era luz.
Que eu era forte.
Que eu era especial.
Que fiz falta.
Mas quando eu estava aqui, precisando de um abraço,
de um ouvido,
de um “eu tô aqui”,
as pessoas se confundiram, se calaram, se distanciaram…
ou simplesmente não souberam olhar pra mim.
E é isso que dói:
só valorizam quando acham que perderam.
Só enxergam quando acreditam que acabou.
Só sentem quando a gente já não tem força pra sentir nada.
Eu sigo viva, mesmo sem saber como.
Sigo tentando existir num corpo cansado, numa mente pesada, numa alma que luta todos os dias contra o invisível.
Sigo aqui, mesmo sem saber se alguém realmente vê.
Porque a verdade é essa:
não é que eu queira morrer.
É que, às vezes, dói demais viver invisível.
Atraindo olhares
Atraindo olhares não é sobre ser vista, é sobre revelar o que muitos passam sem notar. É fazer o mundo pausar diante da sua arte — a sua terra, o seu povo, a sua história, a sua verdade. Cada imagem é um convite silencioso: chegar mais perto, sentir mais fundo, reconhecer-se nos detalhes que você eterniza. Porque fotografar, para você, é mais do que capturar a cena — é despertar memória, movimento e pertencimento em quem olha.
A anedonia é como um apagão silencioso dentro de mim.
Não leva embora apenas a alegria — ela leva o brilho, o impulso, o gosto das coisas que antes me moviam.
É estranho existir assim: lembrar do que um dia me fez sorrir e, ao mesmo tempo, não sentir mais nada.
É como tocar uma memória com as mãos, mas não conseguir alcançar o sentimento que deveria acompanhá-la.
Por fora, tudo parece igual.
Por dentro, é como se alguém tivesse apertado um botão e desligado a parte da alma que reage, vibra, celebra.
Não é falta de vontade.
Não é frescura.
É não conseguir sentir.
É olhar para momentos que deveriam me encantar… e não sentir absolutamente nada.
É querer participar da vida e, ao mesmo tempo, se perceber distante, apagada, desligada do próprio corpo.
A anedonia não rouba só o sorriso.
Ela rouba o caminho que leva até ele.
E é dessa prisão silenciosa que, todos os dias, eu tento me libertar.
Ressurreição Silenciosa
Eu tenho vivido como quem caminha entre escombros — tentando juntar os pedaços do que sobrou de mim, tentando entender onde foi que o brilho se perdeu. Às vezes, sinto o cheiro do fim antes mesmo de acordar, como se o dia viesse com um aviso: hoje vai ser pesado de novo. E é.
É como viver dentro de um corpo que não responde, uma alma que não sente, um coração que cansou de pedir socorro.
Já tentei gritar.
Aos céus, ao travesseiro, ao silêncio.
Já segurei a própria garganta, tentando expulsar a dor por onde pudesse sair.
Mas meu grito nunca teve som — só ecoava dentro de mim, como um trem desgovernado, como a música que eu sempre escolho porque fala a língua da exaustão que carrego.
E mesmo assim… Deus ouviu.
Eu pedi anjos, Ele me enviou pessoas.
Gente que consegue me alcançar quando ninguém mais vê, que percebe minha ausência mesmo quando estou presente, que insiste em me segurar quando tudo em mim está escorregando.
Eu não sei agradecer, não sei sorrir do jeito que gostaria.
Quimicamente, emocionalmente, fisicamente, estou esgotada.
Mas por dentro, há gratidão — quieta, mas viva.
No meio desse caos organizado que sou — dessas ideias que nascem de sentimentos embolados, dessas certezas plantadas num chão de dúvidas — eu tento existir.
Mas confesso: às vezes, viver dói.
Respirar dói.
Levantar dói.
Ser forte por quem precisa de mim dói ainda mais.
É um dilema cruel: enquanto luto para não desistir de mim, preciso ser força para quem enfrenta batalhas visíveis, enquanto as minhas são todas internas.
E, mesmo assim, algo em mim insiste.
Uma faísca minúscula, quase apagada, mas ainda ali.
Talvez seja fé.
Talvez seja o amor pelo meu filho, meu potinho de mel, que um dia segurou meu dedo como quem segurava meu futuro inteiro.
Talvez seja o desejo de deixar algo meu — um conselho, um afeto, uma verdade — que permaneça quando eu não conseguir mais permanecer.
Eu não quero romantizar nada.
O que eu vivo é bruto, cru, real.
É depressão, ansiedade, burnout, dor física, dor emocional, dor espiritual.
É anedonia.
É o vazio que engole até o que era mais bonito em mim.
Mas ainda assim… há algo aqui dentro que se recusa a morrer.
Talvez eu seja mesmo uma fênix cansada.
As asas queimadas, o peito em cinzas, a voz quase sem som.
Mas ainda assim… cinzas não são fim.
São começo.
Então, Deus, se por acaso ainda houver em mim qualquer sopro de recomeço, qualquer possibilidade de renascer, eu te peço:
seja bálsamo para as minhas dores, sustento para a minha alma.
Me ajude a ressurgir.
A encontrar no silêncio um pouco de paz.
A reconstruir o sorriso que perdi pelo caminho.
A reencontrar a luz que um dia brilhou nos meus olhos.
Porque, mesmo que eu não me sinta viva todos os dias,
mesmo que eu caminhe tropeçando entre sombras,
eu ainda acredito — lá no fundo —
que a fênix que existe em mim ainda pode se levantar.
Nem que seja devagar.
Nem que seja quase sem forças.
Nem que ninguém veja.
Mas eu…
eu ainda quero renascer.
10 de Dezembro 2024
A lua me lembra que até o silêncio tem brilho.
Que posso minguar sem perder a essência
e renascer inteira quando a alma pede luz.
A lua sempre me encontrou nos meus silêncios.
Ela aparece inteira ou partida, mas nunca deixa de vir — como se entendesse que há noites em que o coração precisa de companhia, mesmo que seja só de luz.
Eu olho pra ela e sinto que existe um espaço dentro de mim que também é feito de fases: dias em que brilho, dias em que me escondo, dias em que preciso recolher tudo para renascer depois.
E está tudo bem.
A lua me ensina que nada que seja verdadeiro deixa de voltar.
Que mesmo no escuro há um brilho insistente.
E que existir é isso: iluminar quando dá, recuar quando preciso, mas continuar orbitando tudo o que faz sentido.
Talvez seja por isso que gosto tanto dela.
Porque, de alguma forma, a lua me lembra de mim.
E de ti também — que carregas luz até quando não percebe.
Olhar que recua no tempo — Saudando a Festa dos Pescadores de Indiaroba
A cada dezembro, as águas calmas do porto de Indiaroba se enchem de vida, vozes e risos, o rio torna-se palco de uma celebração que ultrapassa gerações e devolve à comunidade seu próprio reflexo. A Festa dos Pescadores de Indiaroba não é apenas um evento: é um abraço coletivo, um reconhecimento daquelas mãos que lançam redes, enfrentam maré, colhem o sustento do rio, e seguem firmes na arte de viver com simplicidade e identidade.
Fundada em 1979 por pescadores da terra, a festa nasceu da vontade de celebrar o ofício, a união e a fé, e desde então, cresceu. Hoje, ao completar quase meio século de tradição, ela se tornou sinônimo de pertencimento e orgulho.
Nos dias 24 e 25 de dezembro, o porto vira palco de corridas de barcos a remo, regatas à vela, a corrida do bolachão e cavalhadas de riso e suor. A festa também celebra o alimento da mesa e da alma, o festival da moqueca, variada e generosa, convida a saborear o fruto do mar e compartilhar histórias.
E a música — ah, a música — embala vozes conhecidas, vozes da terra, que cantam, dançam, celebram: as vozes de quem ama seu chão, sua gente, sua história.
Mas, sobretudo, a Festa dos Pescadores é sobre reencontros: entre gerações, entre histórias, entre o rio e o homem, entre passado e presente. É um tempo, fragmentado talvez, sim — mas que pulsa, ecoa e resiste como memória viva.
Que cada remada ecoe gratidão, que cada canção carregue saudade boa, que cada prato reúna família e amizade. Que a festa reafirme que viver de pesca é mais do que profissão: é cultura, é identidade, é pertença.
E que, ao olhar para o horizonte sobre as águas do Rio Real, se lembre: cada rede lançada guarda a esperança, cada peixinho traz o sustento, cada abraço ao final do dia traz a certeza de que estamos juntos.
Porque celebrar a Festa dos Pescadores de Indiaroba é celebrar alma, raiz e pertença, e fazer da memória um porto seguro.
Orações escritas
Deus, seja bálsamo para as minhas dores,
alívio para a minha angústia,
sustento para a minha alma.
Socorra-me de mim mesma quando eu não perceber mais os sinais,
quando tudo dentro de mim parecer ruído,
quando minhas escolhas começarem a me afastar do que o Senhor sonhou para mim.
Me ajude a fortalecer o meu espírito,
a reencontrar a coragem que um dia habitei
e que hoje parece adormecida dentro de mim.
Me faça voltar a sonhar.
Me ajude a realizar.
Porque eu sei — o Senhor não planta sonhos para que sequem,
não entrega sementes para que apodreçam,
não desperta desejos para que eu os assista morrer.
Se o Senhor colocou algo em mim,
é porque também colocou tudo o que preciso para fazê-lo florescer.
Eu não sei como, eu não sei quando,
mas eu sei que o Senhor me capacita,
mesmo quando minhas forças não dão conta,
mesmo quando meus olhos não conseguem ver saída alguma.
E enquanto eu lavo essa louça,
tentando organizar o que está fora
e o que está dentro,
eu deixo escapar essa oração entre meus dedos trêmulos.
Porque às vezes, Deus,
a gente ora assim mesmo:
de pé, cansada, exausta, com a mente pesada e o corpo pedindo descanso,
mas com o coração ainda segurando um fio —
um fio de fé que insiste em não romper.
Então, cuide de mim.
Recolha o que está sobrando,
suture o que está ferido,
acenda o que está apagando.
Me devolva a mim mesma.
Me devolva à vida.
E que, quando esse ciclo passar — porque sei que vai passar —
eu olhe para trás e veja que não sobrevivi sozinha…
que foi o Senhor me carregando, passo a passo,
gota a gota,
oração por oração.
Amém.
Para minha rede de apoio,
Eu queria dizer tudo de forma simples, mas aprendi que o que não é dito não pode ser compreendido. Então deixo que essas palavras saiam do lugar mais profundo de mim — daquele canto silencioso onde a dor se recolhe, mas também onde nasce a gratidão.
Hoje, eu reconheço que transbordei. Transbordei porque consegui captar, acolher e cultivar a amizade de vocês. E isso, para mim, é raro. É precioso.
Eu espero um dia conseguir retribuir minimamente — mesmo que seja com pequenas demonstrações, pequenos gestos, algum resultado que mostre que o cuidado de vocês encontrou abrigo em mim.
Eu agradeço a cada um de forma individual, porque cada pessoa aqui teve um papel único na minha trajetória.
E por mais que eu busque, não existem palavras capazes de traduzir o tamanho da minha gratidão.
Eu também peço desculpas por ainda não conseguir expressar alegria do jeito que gostaria.
Ela existe — ela vive aqui dentro —
mas está contida, presa em uma parte de mim que ainda está tentando despertar.
Um dia, eu já transbordei sorrisos pelos olhos, pelos abraços, pelo jeito de falar.
Hoje, meu corpo está anestesiado, cansado, tentando se recompor.
Mas quero que saibam: mesmo no silêncio, mesmo na ausência do brilho que eu já tive,
aqui dentro ainda existe um coração profundamente agradecido.
Obrigada por não desistirem de mim. Obrigada por ficarem.
Pensam que sou louca, mas loucura mesmo é acreditar que o certo é viver calada, engolindo o que dói, fingindo o que não sou. Minha lucidez está em me permitir sentir — e isso, poucos entendem.
Da minha alma para a tua
Da minha alma para a tua, eu deixo esse pequeno pedaço de luz que ainda resiste dentro de mim.
Não porque eu esteja sempre forte, inteira ou certeira, mas porque aprendi que mesmo os cacos guardam brilho.
Se eu pudesse te olhar agora, olho no olho, diria que a vida nem sempre é leve — e está tudo bem não ser. Diria que a gente se perde, cansa, duvida, desmorona. Que às vezes o mundo pesa, o peito aperta, e a esperança parece fina demais para nos sustentar.
Mas também te diria que existe algo invisível que insiste.
Uma força que não se vê, mas se sente.
Um recomeço que nasce silencioso, como quem pede licença.
Da minha alma para a tua, eu deixo esse abraço que não precisa de braços:
o abraço do reconhecimento.
Daquilo que dói, daquilo que pulsa, daquilo que ainda sonha.
Eu te desejo profundidade — daquelas que não te afogam, mas te devolvem ao teu próprio eixo.
Desejo descanso na tua mente, respiro no teu peito, leveza no teu passo.
E desejo que, mesmo quando tudo parecer escuro demais, você consiga perceber que existe um fio de luz costurando cada parte do seu caminho.
Se em algum momento você sentir que está só, lembre-se:
minha alma conversa com a tua no silêncio.
Não para salvar, não para ensinar,
mas para caminhar junto.
Porque no fim, somos isso:
um encontro de sobrevivências,
um eco de sensibilidade,
um gesto de presença.
Da minha alma para a tua —
que você continue existindo com verdade,
sentindo com inteireza,
e deixando no mundo a marca bonita
de quem sobreviveu à própria tempestade
e ainda escolhe tocar outras almas com cuidado.
Eu não sou como a maioria.
Eu penso demais.
E, às vezes, isso é bênção — me faz enxergar detalhes que quase ninguém vê, sentir o que os outros passam batido, perceber nuances que o mundo ignora.
Mas, em outros momentos, pensar assim parece uma maldição.
Porque minha mente não desliga.
Ela revisita tudo o que vivi, tudo o que falei, tudo o que ouvi.
Cria cenários que nunca aconteceram, ressuscita dores antigas e inventa novos motivos para eu me preocupar.
Eu analiso, questiono, reconstruo, desmonto…
e acabo me perdendo no labirinto dos meus próprios pensamentos.
É cansativo carregar uma cabeça que nunca descansa.
É exaustivo sentir tudo com essa intensidade que ultrapassa o limite do corpo.
É difícil ser alguém que sente antes de entender e que entende antes de conseguir explicar.
E sabe o que dói?
O mundo espera praticidade, pressa, respostas rápidas e emoções fáceis.
Mas eu sou feita de profundezas.
De camadas.
De silêncios que falam mais do que eu consigo colocar em palavras.
Eu não sou como a maioria.
E, em dias bons, isso me faz única.
Mas, nos dias ruins…
isso pesa, dói, sufoca — como se eu carregasse um universo inteiro dentro de mim, implodindo em silêncio.
E ainda assim, sigo aqui, tentando transformar essa intensidade em algo que não me destrua,
mas que me torne alguém capaz de sentir o mundo de um jeito que poucos conseguem.
3 de dezembro de 2025
Há quem ache exagero, drama, fraqueza.
Mas ninguém imagina o inferno que é existir entre dois extremos que se devoram:
a apatia da depressão e o caos da ansiedade.
De um lado, um vazio que te puxa para baixo, que apaga cores, vontades, sentidos.
A vida perde o gosto, o brilho, o nome.
Nada interessa, nada empolga, nada move.
Você sabe que está ali, respirando — mas é como se não estivesse em lugar nenhum.
Do outro lado, uma mente que não para.
Pensamentos atropelados, exigências que se acumulam, cobranças que nunca cessam.
Um corpo implorando por descanso, pedindo dias inteiros de sono, semanas de silêncio,
mas forçado a continuar funcionando como se nada estivesse acontecendo.
Entre esses dois mundos, existe o burnout.
A exaustão que não vem só do trabalho, mas do peso de existir quando tudo dói.
É quando o corpo quebra, quando a alma grita, quando não há mais força para fingir.
É quando você percebe que passou tempo demais segurando o mundo com as próprias mãos
e agora mal consegue segurar a si mesma.
E ninguém vê.
Porque por fora você continua andando, respondendo, vivendo.
Mas por dentro… por dentro é um campo de batalha.
Um fogo lento que consome sem fazer barulho.
O que assusta não é só a depressão que apaga,
nem a ansiedade que acelera.
É viver presa entre as duas, sem parar, sem descanso, sem lugar seguro.
É pedir ajuda para dentro e ouvir só o eco.
É pedir sono ao corpo e receber insônia.
É pedir paz e receber pensamentos que machucam.
Esse é o inferno que ninguém entende — o inferno de continuar de pé quando tudo em você já caiu.
