Coleção pessoal de JoniBaltar

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Abraço Desarrumado

Aperto a luz da manhã
e encurto as mangas ao silêncio.
Onde estão os meus cadernos
de puída pedra calcária?
Perdi-os num coração estrangulado.
Caminho em compassos arados
aonde vai desmesuradamente
o abraço desarrumado que ficou
nas articulações de um novo dia.

A Sobrevivente e Espessa Lágrima.

A dor é uma ilusão de carne.
É uma abstinência à insensibilidade,
como um consumo que circula na alma.

O álgido olhar que consome a vida
alimenta-se da estrábica melancolia,
descerra o escudo da existência.

Golpes suspensos nas pupilas,
marcham exaustos e condenados
num acrómico álbum de sal.

Revolta-se um pedaço de esperança,
cospe o grito pungente na valsa do chão
e ergue-se a sobrevivente e espessa lágrima.

A Expansão da Minha Alma

A Vida é uma estadia
tão breve e passageira.
É uma rajada de momentos
opostos à dormente ilusão.
Nas forjas dos elementos
inexplicavelmente: adentro
na consciência do sonho.
Carrego no meu peito
a expansão da minha alma
percorro todos os lugares
somente para te encontrar
e quando vejo o que procuro
— permaneço indecifrável —
a namorar com os teus olhos.

A Matéria das Palavras

Na rua do teu peito
caminha a minha
enfurecida paixão
permitida e condenada
por uma mácula de sal
no exílio de uma lágrima
caída e despida por ti.
Nessa deriva em riste
como uma ilha crua
vertida no hino de pedra
que carrega no rosto
a velhice corrosiva
nos endereços da memória.
No caderno aberto do passado
à distância de um destino
no lado desfiado da carne
na rescisão do pacto com o tempo
desce a matéria das palavras
e na rua do meu peito
movem-se por sílabas
as artérias do teu nome.

A Envergadura das Sílabas


Essa oscilação lúcida
entre o avesso insano
de um sonho cobalto
e um mar abandonado
pelo oceano, naufragado
no pousio de uma enseada.

Quão denso é o tempo
que estremece a existência
numa mutável cronologia
de sedução a porvir a cor
pendente na frágil Vida.

A envergadura das sílabas
mede-se pela infância
dos imodestos horizontes
que se contraem nos poentes.
A noite em carne viva
queima o vértice dos amantes.

Depois Esperar

Quero aparecer no teu coração
sem que me vejas chegar.
Depois esperar que tu,
intensamente, sintas
que os dias e as noites
não são lugares tristes.

Anda Comigo

Anda comigo
ouvir o luar a despertar
sentir a brisa nocturna das flores.
Anda comigo
escrever na terra quente
a linguagem das árvores.
Anda comigo
dormir na minha pele
sonhar no meu corpo.
Anda comigo: quero viver em ti.

Desnatado Natal

Vagarosamente os flocos brancos
vestem as árvores e as ruas.
Pulam sorrisos nas mãos das crianças.
Casas adornadas de esperança
com pisca-piscas de mil cores
estampadas em portas coroadas de azevinho.

Fazem-se partir milhões de pedidos
aos confins da Lapónia,
sonhos embrulhados de inocência,
alarvemente aproveitados
pelo incessante consumismo.


À medida que o vento faz o playback da harmonia,
o Mundo fantasia-se de bondade.
A solidariedade incentiva a humanidade
a um consoado cessar-gelo,
comovem-se corações e Invernos
num calor humano que não aquece a verdade.


E a vocês, que fazem da rua a vossa cama,
das estrelas o vosso tecto, não têm sonhos,
[mas sabiamente observam
esses sociais mendigos corações
nos seus costumes no desnatado Natal],
abro as portas da minha casa,
ofereço-vos a minha mesa,
o calor do meu abraço,
e o sentimento deste poema:
o Natal é uma camuflagem
passageira no coração das civilizações.

O paladar da tua existência tem diversos sabores: dilatam os poros da minha existência.

É assim que
eu quero estar contigo
a contemplar o nada
e atordoados pelo amor,
do nada, construímos
o nosso interno mundo.

Sinto este apocalíptico amor
cerzido em carne viva
no tecido transparente do osso
submetido a formas anatómicas
irremediavelmente inviolável.

Três coisas que
quero fazer contigo:
escrever no teu nu corpo,
ouvir os gritos dos teus poros,
e silenciá-los com a minha boca.

Há noites que, antes de adormecemos, dentro de nós chove imenso.

Por vezes, é importante escrever o que se sente, não adianta descrever, não se consegue. As palavras estão inertes.

A conversa mais intensa do mundo é: o abraço.

Há poemas, infinitamente, vivos, enquanto outros poemas são mortalmente publicados.

De caos em caos
vou até onde
a loucura me alcançar.
E aí construo um amor
à prova de lucidez.

Ouve o meu silêncio: é o barulho intenso do Amor.

Em mim mando eu, na minha alma manda o destino.

Porosidade

Fervilham as artérias da nossa cama
desvendam, morosamente, os nossos beijos,
inesperadamente, surge o hálito da manhã
e ouve-se o dia a salivar.