Coleção pessoal de JoniBaltar

641 - 660 do total de 2225 pensamentos na coleção de JoniBaltar

Molécula do Amor

Este sintoma que atormenta
o sono e o apetite: insónias e mariposas.
Provocam arrepios de porcelana
e sobressaltos nas artérias
preenchem todos os orgasmos
com metáforas de voluptuosidade.
Fragmenta a dor nos labirintos da carne
desperta o arrebol escancarado
iluminando a escuridão incolor do vazio
fermenta a cadência do infinito sonho
alucina a concentração das pupilas.
Rodopia a sístole e a diástole
organizam um bailado de pensamentos no estômago.
Neste estado de imperfeita salubridade
e de perfeita insanidade
movimenta-se a molécula do Amor
na anatomia do poema.

Motim Plumitivo

A imortalidade é uma infinita solidão.
É necessário morrermos muitas vezes
para inferirmos que o íntimo da Vida
é um ápice cintilante, e renasce a cada instante.
As quatro subdivisões do ano morrem profundamente
no colo do mundo. Ressuscitam os seus padrões
climáticos pelas formas do sentimento:
perfumes melódicos que revelam o mundo interior
das almas. À superfície de um lúcido minério
todas as existências são instintivamente sublimes.
As pétalas da consciência coabitam os pensamentos
torturados pelas noites geladas dum solitário poema.
E assim permanece o motim plumitivo:
que escorre da minha pena.

Mar Ferido de Amor

O refluxo de correntes e marés
em vagas esbatidas pelos ventos.
Nas amplitudes frágeis dos horizontes
cega-se o corpo em espuma de sal
na entrega absoluta do mar ao luar
onde naufragam as almas aos céus.

Remos que remam a distância
em louvor às entranhas do silêncio.
Navegam as sentinelas dos astros
no nevoeiro insípido e rouco:
chora este mar ferido de amor.
Depositando o seu pranto nos areais
e regressa ao mergulho profundo
das suas lágrimas.

Na Têmpora do Fado

Dentro da voz
desata-se o fado
desamparado,
distópico, tão-só:
enxuga as feridas
abertas dos versos.


Ao colo da guitarra
rasteja a parafina madrugada.
Nos dolentes candelabros
escorre o atávico poema
na têmpora do fado
dos facultativos paradoxos.

O inábil silêncio ocultou-se
atrás dos poros do fado,
ouve-se a cor da noite
a cantar a idónea
leveza da existência
e a caridade da morte.

Guitarra à Luz de Velas

O amor é uma nua canção
dividida em curtos fados
pela súmula pulsante do coração
que se ouve nos mares cansados.

No estreito silêncio das flores
murmura o pólen das pétalas
desfolhadas pelos acordes indolores
no rosto duma guitarra à luz de velas.

As arcadas cegam os claustros
que sustêm as paredes calcinadas
das celestes melodias dos astros
cantadas no sangue da madrugada .

Move-se pelo esquecido poema
a voz calada do poeta
propaga a luz verbal do fonema
na elíptica cauda do cometa.

A Boca

Da boca saem múltiplas palavras
discursos vãos: vão-se e já não voltam.
Na boca refreiam-se palavrões
contidos no palato
e livres, aos pulos, no pensamento.
De boca em boca tentam os beijos
empoleirarem-se,
apertados ou indecisos,
a querer nidificar o silêncio
ou o gemido que desfolha a pele.
Antes que a noite comece a salivar
vamos amarrar as nossas bocas
até que os nossos corpos se calem.

Fomos Todas as Partes do Amor.


A manhã fugiu da minha boca
para a tua boca.
A tarde pulou das minhas pupilas
para as tuas pupilas.
A noite voluptuou-se do meu corpo
para o teu corpo.
Nesta constante dupla infusão
fomos todas as partes do Amor.
E no peito das nossas almas
existe uma certeza: em todas as vidas.

Fiel Solidão

Sinto as retinas repletas
de ilustrações vivas,
que pulam na minha carne.
Deslocam-se subitamente
nas minhas veias
ao sabor das visões da memória.

Fiz-me refém
neste ponto de tempo.
Sequestrado pela sombra do silêncio
abandonado por mim,
desvalido e requisitado
pela irreversível circunstância.

Agradeço-te fiel solidão.
Quando todos partiram,
tu nunca me abandonaste.

Infinita Filosofia

Somos uma colectividade humana
que vive na descoberta da realidade
numa individualidade solidão despercebida.
Este desafio errante de realizar o sonho
sem utilizar o coração nem a alma
sustentando apenas o corpo na utópica
esperança de uma congregação de anjos
sob a deturpada harmonização de sentimentos.

A felicidade não se carrega aos ombros do coração
porque é uma pluma de intensa luz, desconhecida
aos olhos do imenso mundo que embala a humanidade.
Misturam-se as impulsivas lágrimas à senilidade
contagiando o que resta da invisibilidade dos longos anos
despertando o arrependimento que esfarrapa a consciência
como um cão abandonado que procura o jardim do paraíso.

A incrédula infinita filosofia que descarna a profunda
força: produzida pelo silêncio das palavras ocultas.
Talvez o acto de pensar seja a cura para a camuflada loucura.
Não tenho asas, mas consigo voar entre os céus estrelados.

Despi o Teu Sentimento

Na alameda da tua tela
estavam árvores a murmurar.
Entregues ao lampejo das tuas mãos,
deslizando nas tonalidades das estações
da imprescindível paixão.
Despi o teu sentimento: e desnudo fiquei.

Corroído Sonho

As colinas descansam
nos braços estéreis da madrugada.
No sono das mágoas perdidas
das memórias estranguladas
pela escuridão desgastada
rompe-se a voz do crepúsculo matinal.
Desço os degraus das rememorações
defronto-me com a miragem incandescente
e gravitada de um sonho inacabado.
Agarro-me aos densos fios da alucinação
que a demência expulsou na sentença da mente.

Nos confins do aguçado silêncio
respiro a luz viva do teu olhar.
No beco das horas esmagadas
dissolvem-se os anseios das quimeras.
Na enorme e robusta vontade de tocar-te
dispo os meus versos no teu corpo.
Num acto inconsciente de paixão e desejo
as nossas bocas envolvem-se enfeitando o nosso abraço
- sigo este sentimento-
desnudo a felicidade: escondida neste corroído sonho.

Comportamento Disruptivo

Pássaros descalços
deslizam na parede
de papel semi-viva.
Réstias e modéstias
sobre o excessivo
equilíbrio das palavras
revelam a indumentária
da sustida pontuação.
A dissimetria dos meus sentidos
a despolarizar o quotidiano
neste comportamento disruptivo.
Ouço as folhas convolutas
dos irredutíveis plátanos
e entrego a minha sépia solidão
à superfície do Outono.

Caminho do Amor

No sabor salgado da pele
molhada de coral e algas
transparece a colorida emoção
salpicada de búzios que abraçam o vento.

Nos areais e enseadas luarentas
deposito a minha alma no teu colo
refresco-me na tua boca
bebo o teu sentir de mim.

Mãos percorrem gemidos arfantes
navios naufragados adormecem
nos teus olhos em ecos de sal
o ar respira as entranhas do sossego.

Abismo opaco pula segredos
escondidos no vazio causticante do medo
onde os mais humanos não sucumbem
e fielmente seguem o caminho do Amor.

Calafetado Poema

Os cílios cerrados do agudo penhasco
derramam lágrimas de vento e granizo
no terreno arborizado dos cinco sentidos
antes do combate entre a fecunda existência
e a íntima e persistente irrealidade.

O declive inalterável das horas abana os dias
onde os vagos versos caídos no calafetado poema
não dizem uma sílaba: escorrem as dores mudas do Amor.
No leito fundo do meu coração de carne
Navega, à bolina, a intrépida canção da sereia.

Acróstico Susana

Sorvo o fundo dum enxuto poente
Uma claridade remendada por dentro
Saborosa e cosmicamente luarenta
Abastece o palato do meu poema
Nas horas inclinadas do horizonte
Arrastado pela surdez púrpura dos verbos.

Acrostico Conceição

Confluência tectónica dos verbos
Oriundos dos parágrafos da estratosfera
Nessas artérias latejante e saciadas
Cada pulsação grita o vermelho cereja
Entorna-se a polpa do poente
Intempérie de beijos feéricos
Conspiram as árvores no conjugal vento
Análogo à escravidão oceanica dos desertos
Onde o amor derrama a sua essência

Afixo as Minhas Âncoras

Atolado na indecisão
navego na deriva
de um mar indigesto.
Repleto de sais e dúvidas
esta ondulada hesitação
move o êmbolo da minha nau.
No alambique da minha pele
escorre o poema que perdi.

Grita o vento no íntimo da noite,
desflora o silêncio.
O desembarque das tempestades
arrefecem as estrelas
- saboreio os astros que iluminam
as débeis praias;
afixo as minhas âncoras
nos areais onde severamente
se acomodam as civilizações
nesta esfera pintada em tons de azul.

Abraço Desarrumado

Aperto a luz da manhã
e encurto as mangas ao silêncio.
Onde estão os meus cadernos
de puída pedra calcária?
Perdi-os num coração estrangulado.
Caminho em compassos arados
aonde vai desmesuradamente
o abraço desarrumado que ficou
nas articulações de um novo dia.

A Sobrevivente e Espessa Lágrima.

A dor é uma ilusão de carne.
É uma abstinência à insensibilidade,
como um consumo que circula na alma.

O álgido olhar que consome a vida
alimenta-se da estrábica melancolia,
descerra o escudo da existência.

Golpes suspensos nas pupilas,
marcham exaustos e condenados
num acrómico álbum de sal.

Revolta-se um pedaço de esperança,
cospe o grito pungente na valsa do chão
e ergue-se a sobrevivente e espessa lágrima.

A Expansão da Minha Alma

A Vida é uma estadia
tão breve e passageira.
É uma rajada de momentos
opostos à dormente ilusão.
Nas forjas dos elementos
inexplicavelmente: adentro
na consciência do sonho.
Carrego no meu peito
a expansão da minha alma
percorro todos os lugares
somente para te encontrar
e quando vejo o que procuro
— permaneço indecifrável —
a namorar com os teus olhos.