Coleção pessoal de JoniBaltar

661 - 680 do total de 2225 pensamentos na coleção de JoniBaltar

A Matéria das Palavras

Na rua do teu peito
caminha a minha
enfurecida paixão
permitida e condenada
por uma mácula de sal
no exílio de uma lágrima
caída e despida por ti.
Nessa deriva em riste
como uma ilha crua
vertida no hino de pedra
que carrega no rosto
a velhice corrosiva
nos endereços da memória.
No caderno aberto do passado
à distância de um destino
no lado desfiado da carne
na rescisão do pacto com o tempo
desce a matéria das palavras
e na rua do meu peito
movem-se por sílabas
as artérias do teu nome.

A Envergadura das Sílabas


Essa oscilação lúcida
entre o avesso insano
de um sonho cobalto
e um mar abandonado
pelo oceano, naufragado
no pousio de uma enseada.

Quão denso é o tempo
que estremece a existência
numa mutável cronologia
de sedução a porvir a cor
pendente na frágil Vida.

A envergadura das sílabas
mede-se pela infância
dos imodestos horizontes
que se contraem nos poentes.
A noite em carne viva
queima o vértice dos amantes.

Depois Esperar

Quero aparecer no teu coração
sem que me vejas chegar.
Depois esperar que tu,
intensamente, sintas
que os dias e as noites
não são lugares tristes.

Anda Comigo

Anda comigo
ouvir o luar a despertar
sentir a brisa nocturna das flores.
Anda comigo
escrever na terra quente
a linguagem das árvores.
Anda comigo
dormir na minha pele
sonhar no meu corpo.
Anda comigo: quero viver em ti.

Desnatado Natal

Vagarosamente os flocos brancos
vestem as árvores e as ruas.
Pulam sorrisos nas mãos das crianças.
Casas adornadas de esperança
com pisca-piscas de mil cores
estampadas em portas coroadas de azevinho.

Fazem-se partir milhões de pedidos
aos confins da Lapónia,
sonhos embrulhados de inocência,
alarvemente aproveitados
pelo incessante consumismo.


À medida que o vento faz o playback da harmonia,
o Mundo fantasia-se de bondade.
A solidariedade incentiva a humanidade
a um consoado cessar-gelo,
comovem-se corações e Invernos
num calor humano que não aquece a verdade.


E a vocês, que fazem da rua a vossa cama,
das estrelas o vosso tecto, não têm sonhos,
[mas sabiamente observam
esses sociais mendigos corações
nos seus costumes no desnatado Natal],
abro as portas da minha casa,
ofereço-vos a minha mesa,
o calor do meu abraço,
e o sentimento deste poema:
o Natal é uma camuflagem
passageira no coração das civilizações.

O paladar da tua existência tem diversos sabores: dilatam os poros da minha existência.

É assim que
eu quero estar contigo
a contemplar o nada
e atordoados pelo amor,
do nada, construímos
o nosso interno mundo.

Sinto este apocalíptico amor
cerzido em carne viva
no tecido transparente do osso
submetido a formas anatómicas
irremediavelmente inviolável.

Três coisas que
quero fazer contigo:
escrever no teu nu corpo,
ouvir os gritos dos teus poros,
e silenciá-los com a minha boca.

Há noites que, antes de adormecemos, dentro de nós chove imenso.

Por vezes, é importante escrever o que se sente, não adianta descrever, não se consegue. As palavras estão inertes.

A conversa mais intensa do mundo é: o abraço.

Há poemas, infinitamente, vivos, enquanto outros poemas são mortalmente publicados.

De caos em caos
vou até onde
a loucura me alcançar.
E aí construo um amor
à prova de lucidez.

Ouve o meu silêncio: é o barulho intenso do Amor.

Em mim mando eu, na minha alma manda o destino.

Porosidade

Fervilham as artérias da nossa cama
desvendam, morosamente, os nossos beijos,
inesperadamente, surge o hálito da manhã
e ouve-se o dia a salivar.

Ser simplesmente feliz é: aumentar o volume ao Amor e embrenhar-se na Natureza.

A maior parte da humanidade vive, constantemente, com o coração fora de serviço.

Quando mergulhar no Universo espero conseguir vir frequentemente à superfície.