Coleção pessoal de Sentimentos-Poeticos
Há dias que somos a presa
outras somos apenas o caçador implacável
A carne quem deu, foi Deus
O cozinheiro o diabo
ENCONTRA-ME
Encontra-me no silêncio
Na lareira que perfumam
Os telhados em fumo
Encontra-me no vento
Que bailam os pinheiros
No eco que sou
Dos pássaros fugazes da noite
Encontra-me nos olhos do outono
Entre as folhas da espera
Que perfumam os meus segredos
Nos braços de cores zumbindo de morte
Que enfeitam nos seios da lua
Floresta que encontra o corpo húmido
De fetos, musgo verde em sombra
Encontra-me pela geada que afaga os anjos
Sim, encontra-me em casa no teu sorriso.
Quando eu morrer
Sepulta-me no mar
Por entre as algas
E cobre o meu rosto
De palavras escritas
Num rasto de corais
Na minha nudez
Que eu seja um verso
Que o rio rasga
As fragas beijam
E o mar abraça
Num poema
Em poesia
Na chegada do Outono
ESCREVO QUE
Um dia vou enlouquecer o poema
Pelas espigas que o vento balança
Na dourada alegria do tempo
Em que se ceifava o trigo
Onde o corpo materno nos alimenta
Unindo-nos à terra fértil
De um qualquer inverno ou verão
Escrevo para que a lua cresça no meu peito
Escrevo para que a chuva nasça dentro de mim
Escrevo para que o amor floresça na minha alma
Escrevo que as palavras são virgens vindas de ti
Escrevo para ouvir as palavras que nunca ouvi
Escrevo que as letras formam a palavra amo-te
Escrevo com dor, com alegria em doce poesia
Pois de dia colho lirios, á tarde colho rosas
À noite colho o mel que a tua boca me dá
Num louco poema fértil escrito de mim em ti
HÁ EM MIM
Há em mim uma quietude de morte
Que procura o norte
Um ser errante de lavrada poesia
Pois os sonhos são bússolas
Que me guiam por terras distantes
Em fantasia onde a minha alma mora
Raízes em solidão na terra de fontes pagãs
De desencantados contos encantados
Paisagens mágicas de verdes flores
Há em mim sonhos de embalar de terra lavrada
Que procuram o sol nas noites de lua cheia
Pois escrever é ter na mão o negro luto da caneta
Numa quietude de morte no peito coroada de rosas
Ama-te já que sentes
Que ninguém te ama
Nunca penses
Que não és ninguém
Porque tu tens força
E dignidade
Pensa nisso
Não deixes que te pisem
Que te espezinhem
Não deixes que te humilhem
Que te diminuam
Tu és um ser humano
Eu sei que todos precisamos de ganhar
O pão nosso de cada dia
Mas há um limite para tudo
COROAI-ME DE ROSAS
Coroai-me de rosas
Sejam vermelhas
Amarelas ou brancas
Coroai-me num jardim
No edam num céu de rosas
Coroai-me sem espinhos
Das mais belas rosas
Coroai-me de amor
Perfumado no coração
De perfumadas rosas na alma
QUE A NOITE
Que a noite me cubra de negro
Que a sombra me tire do castigo
Que os apaixonados se amem à noite
Que os corpos suados repousem
E que a noite venha e nos cubra
Num simples jardim encantado
De ti em mim, nesta escuridão nocturna
Perfumada entre gemidos tão nossos
Para que o céu nos cubra de tantas estrelas
Desprezo todos aqueles
Que se julgam melhor que eu
Afinal só me dão forças
Para seguir em frente
E mais longe
Que alguma vez eles irão
O envelhecimento
Não é apenas o Outono
Ou o Inverno da vida
É a época da colheita
De voltar a ser criança
