Coleção pessoal de eggon

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⁠que me encontro,
que me faço, refaço
e nunca satisfaço
e procuro em tato,
diz-me tu, que lamento
incompleto em meu passo
em meu ato descompensado
Mudo tudo! despedaço
ressurjo e ao reencontro tácito
escrevo este poema falho
da minha mudança ata
do meu pensar não mais nostálgico
que não cumpre mais regras estéticas,
que não mais contempla a natureza em detrimento de uma ação efetiva que mude os rumos do mundo
sem a rima dessa métrica,
e nem poema, poema do ato,
humano falho ato.

Eggon

⁠É lisa, ele suaviza, ele concretiza,
A morte que lenta via
pisou no meu lado direito,
assentou-se no conceito do leito

O verde ar da manhã virada,
A mente desvairada
Dizia meu pranto em pronto dia,
A vontade, a tarde, mania.

Dor que é tu, não nada,
que é o inexistente, que é tua pele que falta
Não há dor neste barco
Diz Camões! tuas palavras belas
Sangue mar de Portugal...

Sente-tu o que há em mim!
Que vim dos séculos ao mar trotando
Sente que não há dor então cria em mim
Amargo sal na minha boca alada
Mal tom, insiste em mim

Andei, Trotei, Amei
Camões, pois, fez-me sofrer por que?
que não salvaste o amor em lei,
Amou o belo do lusitado ritmo
fechou o mar pro amor mais vivo!

Há dor, porque não há o ti,
Não há o ti pois assim o fiz
que fiz por ti jamais, por mim

Por mim? Pois, Pessoa, diz,
o que palavra que no mar se foi?
Troquei o ti o si, o me. Jamais pensei,
o todo quis pelo menor que fiz,
a bela aurora já me contradiz

Eggon

⁠Condenado, no meio livre
solto, nas garras do homem
passeias, pela água abaixo
respira, o peixe o ar

Fascina, o templo perdido
contempla, o caos retorcido
a mente, lavares os pratos
mas corvo comias condido


Livros à mão toda escrita
Vem, abomina me ser
do coiote me manda criada
dos céus e da terra lavada
que um dia pra mim cultivara


São reis teus netos queridos
pois, frutos que a mim destinaram
cuspir toda fruta à cega
em mato qualquer devastado


Nascera semente profunda
porem enterrada na raiva
do rei dos meus desamados

Mas calmas comeste o caroço
de fruta agora enjaulada
dentro de tua pessoa
hoje lhe assombra a alma

Tal fruta te lembro é verde
de vermelho ela não tem nada
venho dos céus do inferno
com ela que tu sonhavas
sutilezas te faltam aos dedos
justiça a teus sorteados

Eggon

⁠As Terras foram em bora
nas caçambas de outrora
terras que o frio deixavam
em tardes tão majestosas

Essa terra leva o frio,
leva o ar de tom sombrio
A flor que agora murcha
um dia foi meu abrigo

Nessa noite foi pesadelo
um sonha já velho veio;
depois em devaneios
a pensar no caos do meio

O homem que acordou
repente viu Terra mundo
Muito tudo em tanto nada
Amanhã, andar, terror

Eggon

⁠Cachorros ladram lá fora,múltiplos sons urrantes no meio da noite
O ronco exaltado dum sono agressivo
Os gatos exaltados gritam. Medo ou bravata
Nem parece noite, as luzes do poste sorriem pra lua
O colega de quarto desvenda Sartre, tão altivo quanto o sol
Quarto poema da noite. Quinto fracasso do dia. Sexto motivo pra vida.
A Noite, poeta assustada que não nasceu pronta,
mas nasceu, opondo-se ao Sol, por causa do sol e da ausência intermitente dele
O ronco não para, o colega exalta ainda o existencialismo,
os cães já roucos não dão sinal de trégua.
Não chove faz um mês, é seco e frio,
é noite ou dia, é pouca energia,
ardido vivo, fluir cansativo,
é baixo
um silêncio que se faz ouvir de pouco em pouco
um existir que vai se consolidando ao esquecer que existe e ao existir de fato,
o escuto do quarto, o ar que entra e sai, e deixa
o som e somente som
a memória do cão no quintal,
o branco ar do teu funeral,
o sol que brilha o meu olho
fechado.

Eggon

meu vazio
minha carne persistente
minha mente fugaz
minha existência ausente.

Um dia depois do outro, aquele interrompido pelo desespero da mente sã
Desespero do entendimento completo do mundo
Completamente desesperado pelo entendimento da incompletude do homem
Entediado pela existência única dum ser tão perpétuo
Unificado pelo pensamento frequente de uma existência no incerto
Decepcionado! Pela poesia inútil pras curas do mundo.

Chove uma água tão leve
leve, o meu ser em seu pranto
Ando, encontro becos e cantos
Te amo, da água que bebe

Me veja, nos apuros de um céu bêbado,
Beija, um rosto marcado,
de lógica, axiomas trancados
nos mistérios dessa água que cedo

existo, como e bebo
ando num passo atônito
respiro um ar carioca
transito na ponte heroica

Vi-me, vendo o mundo atento,
Elucubrando uma arte vidal
A beleza: agride olhos ingênuos
Liquidez duma alma mortal

Constante pulso dum caminho incerto
pedaço ermo do meu jardim antigo
Absorto sento no chão verde e limpo

eggon

Grilo...
grilo...
grilo...
Um leve tom que flui a cabeça deitada
Uma maresia que bate o carvalho
Uma brisa que quebra o asfalto
uma longa história se passa no corpo espalhado
Grilo..
grilo..
grilo...
grilo.....
Por que Maria quis assim?
Pedro era mais próximo de Marcelo
Amanda nem me olha mais
feito essa porta fechada,
do lado da cama
desarrumada.
O que fiz demais?
Grilo...
grilo...
grilo...
A vida se condensa nesse escuro, meus olhos claros
Abstracto, azul, caos, calma, simples, cinza
O giz do quadro corrói a p...alma
A essência da vida se esconde,
No elevador sinto sua falta, parado.
Grilo...
O grilo toca a marcha do poeta
escreve...
pensa...
reflecte...
sente...
levanta da cama
a luz!
o grilo para
o poeta cala
grilo íntimo grillo
grito...
grilo....
grilo..
poeta
desconhecido

eggon

Tem uma esperança, eu nao sei de onde ela vem
Tem uma tristeza, eu nao sei de onde vem
Uma saudade, sua luz vem dum mistério
Uma luz num quarto escuro, com a janela de tras aberta
O incenso ligado memória da alma
Tem uma dor intensa que nunca para
Um mar que nunca transborda,
suas margens sensatas e claras
Tem um desespero que toca na porta fechada,
que controla o vento pelo qual os papeis voam
À tarde o café acorda,
À noite o café desorda
A noiva o café desova
noiva das sete manhãs que viram o sol nascer

Ainda tem uma felicidade, eu sei de onde ela vem
Dum desespero nato,
dentro de um pote inchado do cansaço,
do outro dia desperdiçado,
pelo nada do insensato,
que controla a cor do sapato,
nato,
humano falho ato
O mar que transborda
As folhas que voam ao vento rebelde
da porta escancarada
Minha cara cuspida em farpas
Um incenso que apaga
Uma dor, que para

Eggon

há uma vaga mágoa
no meu coração...
como que um som de água
numa solidão...
um som tênue de água...

Memoro o que, morto,
ainda vive em mim...
memoro-o, ansorto
num sonho sem fim,
estéril e absorto.

Será que me basta
esta vida em vão?
que nada se afasta
de sua solidão...
nem de mim me afasta

não sei. Sofro o acaso
da mágoa em meu ser...
cismo, há em mim o acaso
do que quis viver -
sempre só o acaso

pessoa

Faz tempo,
não durmo comigo mesmo
satisfaço meu próprio alento
vejo o sol cru do meu pensamento
bebo a água maldita daqui de dentro

Faz tempo,
não estou só...brio,
sem sombra de qualquer monstro terreno,
e à sombra de algum deus ateu
dormindo em meu divino leito atento

Vejo a luz de um sol só meu
Hoje é triste a minha carne ávida
que se banha na luz branca e pálida
dum astro maior que o próprio eu

Porém,
se não brilha hoje, não amanhã
se não gritar agora fim do romance,
findam e pra trás acaba-se minha chance
E a repente morte brilha forte e sã

Eggon

Um vazio,
uma culpa,
uma inteira realização do nada,
um canto numa vida desvairada

Uma vida
o que é a vida neste limbo?
na incompletude do ato humano nato
na compreensão desprovida dum caminho?

É pois um rio amoral de rumo ausente
Segue o ser desesperado ao signo do findo
Flui a plenitude duma flor no sol poente

Eggon

Eu sou mal
Como o inferno em teu coração
Como a mágoa durante o verão
Trouxe a selva tamanho animal

Eu sou bom
Feito o leito dos peitos suaves
Seus carinhos de mãos tão afáveis
vem do mar o amor desse som

Tua sentença cai-me em viva
carde podre, mas o sol d'outro dia
envelhece o ar da palavra maldita
Sois filho de meu Deus que dizia
Algo sobre essa velha tal de Ira
Amarás o inferno dessa ilha?

Eggon

Desespero

A madrugada cai
o desespero ressalta meu peito inchado
os lábios inacabados
da branca morena dos olhos

Dois gatos miam lá fora
brigam pelo integralmente nada
Já não é dia, não é noite
sonho ou lucidez
É o desespero atento de um ato falho
humano inacabado

Sonhará mais mil noites perdidas
viverás mais a eternidade escondia
E no limbo encontrará o meio termo
dum ato falho maldito

Eggon

Longe de Casa

Já consigo ver a rosa criada à luz do sol
Já consigo chorar um passado cruelmente lindo
Já sinto um vazio concreto denso que me forma aquela casa
Já senti saudade duma mesa torta
Jamais porém dum leito umbílico que em minha alma toca

Sonhei dos momentos que pareciam vício
dum hábito que quase postulado sacro
podia dizer que a vida é isso
Mas acordei e virgem entendi a pista
dum sonoro choro nesse sangue amado

Olhei pra frente vi uma rocha grande
quem é esse homem que amanhã acorda?
que escolheu alar um grande mastro
Será que esqueceu de não trancar a porta
que ainda lembra de sempre dar a volta
Será que ainda sabe do postulado sacro

Eggon

Primeira poesia


Sonho espancado
Sonha destituído, desidratado,
Nenhuma ideia na mente
Nenhum gesto de honra
Enterro o emprego dum homem
Fugido dum mar de amandas

Vazio, meu se ser desespera
Inteiro, meu ser se todo despreza
Vadio, o ar corre aroma
Da fruta que morre em chama

Chama à vida o poeta
Senhor dos amores perdidos
Infiel ao homem integro
Inteiro na alma que bate
Nem sabe daquela mania
Dum padre que abandona seu frade
Ovelhas rebeldes e negras
Perguntam da vida inteira

Sou deus, sou eu, sou nada,
Já disse que não quero nada
Já me fiz coberto de palha
Me já fizeram inteiro de nada!

Ele não sabe o que é ir embora,
Me vê ao gosto d'aurora
Ao som da luz do meu crânio
Aos olhos do meu sangue jorrando
Que não se ponho em dor do meu pranto

Ve luz no desumano canto

Eggon

LISBON REVISITED
(1923)

Não: não quero nada.

Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!

Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Alvaro de Campos
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Minha dor,
Meu parto inconsciente
E um leve mal deitado no meu leito umbílico.
A decadência estéril dum contato vivo
A ilusão marcante numa luz sem fonte

Afronta a deusa da estrela D'alva
Que brilha e linda chora pelo sangue amargo
Se o mais belo ser que sob a Terra andara
Do amor bebeu e jamais chorava
Gosto tão cruel em minha boca amarga

Eggon

Não sei se sei viver
se sei acolher o parto da vida,
ver a dor do nascimento
e distingui-la do milagre
da existência,
posta, ensanguentada,
evidentemente escondida

Mas sei ver o homem
sua angustia, seu desespero,
sua euforia, seu desapego
Vejo um mar de águas profundamente desconhecidas
E no meio exacto do oceano imenso, reina o medo
No meio do medo, não reina a vida,
flor mais bela dum cego artista

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A vida encontra-se no desencontro

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Não acreditaria,
no grande erro cometido.
Antes das mil noites de agonia,
foram mil dias de euforia.
O som cintilante da luz viajante
a liberdade do infinito andante
o nada do ser numa pedra quebrada
davam luz à alma mais amada
a eternidade desumanizada.
Perambulou fixamente
procurou perdidamente
sonho meu estar tão sozinho
ninho da paz dum passarinho
Praia vazia, na pedra batia
a água dum tempo de mitos trazidos
Tão simples tão calmo, enlouquecido
o homem cedido ao fim do destino
O mar de carnes e sangue exaurido
ao ser trouxe a mágoa do infinito perdido

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