Coleção pessoal de demetriosena

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VIDA PLENA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Uma vida não pode ser metade,
não importa o seu tempo, seu tamanho,
ela tem a verdade que lhe cabe
na medida e no sonho que alimenta...
Longa, curta, uma vida seja plena;
tenha o justo limite da missão;
pés no chão, pensamentos no infinito
e a velha certeza de quem somos...
Todos nascem completos, definidos,
nossa história já chega desenhada,
não há nada que a torne meia história...
É preciso saber deixar saudades
rubricadas, completas, isso é vida
que a partida não tem como partir...

CIÊNCIA E PRAZER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nunca deixe de fazer aquilo que lhe faz bem, só porque não existe comprovação científica de que aquilo que lhe faz bem lhe faz bem.

PRECONCEITOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O pior tipo de preconceito é aquele que se vale dos tons amenos, conciliadores e até simpáticos, bem humorados, para não parecer preconceito.

PRECONCEITOS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O pior tipo de preconceito é aquele que se vale dos tons amenos, conciliadores e até simpáticos, bem humorados, para não parecer preconceito.

ESPONTÂNEO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sou entrega
enquanto sinto acolhimento...
nunca fui arrombamento.

QUERO-QUERO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nada mais quero
do Quero-Quero,
do que saber o que quer o Quero-Quero...

O ÚLTIMO EPISÓDIO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Basta. Não dialogo mais com seus monossílabos. Nossos diálogos migram a cada dia, para monólogos invariavelmente meus. Monólogos são espetáculos teatrais, e ao fazê-los para uma plateia também invariável, de apenas um expectador, sinto que perco tempo e dinheiro.
Para dizer a verdade, sei que não sou um bom ator. Isto só pode significar que você é gentil. Muito gentil. Faz das tripas coração para me dar audiência. E no fundo, eu é que teria de pagar por tamanha gentileza, pois ao ver por outro ângulo reconheço: quem atua mesmo é você.

VENDA CASADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sendo alguém bem alguém não me torno domínio;
não renego meu ego; marco território;
nunca fui provisório, porque nunca estive,
sou de ser, não estar, e jamais me dei férias...
Tenho vários conceitos; uma natureza;
duas faces, no entanto, apenas uma cara;
viro a mesa e não viro seja lá o que for,
para ter privilégios; favores; razão...
Ser alguém bem alguém, pessoa bem pessoa
soa bem frente ao aço de qualquer espelho;
é meu velho sentido pra tudo na vida...
Quem me quer só me queira; sem venda casada;
mais ninguém ou mais nada para compensar
o que nunca será como queiram por mim...

SOCIEDADES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aquela turminha que tudo pode lá na escola, segundo as próprias leis, e decretou que nenhuma emenda lhes tirará o poder, está "pê" da vida com a outra turminha. No caso, a turminha de menor peso social; que não tem condições de se misturar; não tem nada para oferecer, e assim sendo, não merece respeito.
A grande questão é que a turminha que tudo pode aprontou uma feia com a que nada pode, que não gostou nem um pouco, e a que tudo pode não gostou de a que nada pode não ter gostado. Complicadinho esse negócio, mas é por aí. Os algozes estão com trombas maiores que suas caras, em retaliação à forma exacerbada com que as vítimas reagiram. Como punição, a turminha que nada pode ficará um longo tempo sem desfrutar do privilégio, a honra ou a bênção de brincar com a que tudo pode. Isso deve ser amargo, porque brincar, ou até poder ficar perto da turminha que tudo pode não é para qualquer um. Trata-se de algo realmente precioso.
Em resumo, a reação da vítima é o trunfo definitivo do algoz. A turminha que tudo pode julga que além de poder tudo, a reação anulou a ação cometida por ela que, além de certa como sempre, desta vez pode provar por "a" mais "bê", que foi vítima da vítima. Razão perfeita para todo mundo manter a tromba e mais uma vez não baixar a crista, mesmo porque, numa turminha que tudo pode, o que não se pode mesmo é não poder.
Ainda bem que não existem aqueles ventos lendários das crendices de minha infância. Ou eles poderiam deixar a turminha que tudo pode fisicamente parecida com o que suas expressões sugerem. Imaginem vocês, um bando de animais de tromba e crista.

DONO DO MEU TODO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho fantasias inibidas de um atrevimento só meu. Uma timidez despudorada. Secretamente despudorada. Muitas vezes, meu corpo nada mais quer do que as carícias leves do vento.
Vem aquele desejo enorme de seguir uma estrada sem levar bagagem. Nem panos na pele. De não temer consequências, porque não haverá. Porque será transparente o sentido verdadeiro de um ato não tresloucado, por ser apenas libertário.
Para o que ouso idealizar, não haverá espadas nos olhos; nem cicuta nas línguas; nem pedras nas mãos de quem me vir tão eu. Tão dono do meu tudo e seu nada mais.
Nessas minhas fantasias, imagino que o corpo não agride. Que me atiro além da estampa e minh´alma veste a pele. Minha carne se torna uma vitrine sincera de quem sou por dentro.
Momentos meus. Do meu eu comigo e mais ninguém. Quando sou deus do meu mundo e toda lei é minha. Não tenho pecado, porque tudo posso no sonho que me fortalece.

AS DUAS CARAS DOS DEUSES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Arrogância nem sempre habita expressões altaneiras, imponentes e arrebitadas. Muitas vezes ela se oculta em rostos contritos, inclinados, olhos de prece, vozes gregorianas. Personificações perfeitas da divindade ou da própria perfeição, que no caso, existe... mesmo sob a máxima protocolar de que "ninguém é perfeito", mas vende a ideia de que ali está uma exceção.
Cada um tem seus modos peculiares de constranger, discriminar, impor superioridade aos que o seu conceito julga indignos de qualquer deferência. Uns vão direto ao ponto. Assumem sua natureza. Recebem friamente os louros pelos quais pagam com as vantagens possíveis, mas recebem do mesmo jeito as consequências do comportamento equivocado. Já outros, agregam cúmplices; romeiros. Pessoas que os reverenciam, sempre lhes dão razão, e com isso desfrutam de mais préstimos; obséquios; bondades. Mais compensações destinadas aos que os mantêm nos andores. Afinal, de que valem os santos que não podem abençoar os seus?
Muitos dizem que arrogância não têm cara. Tem duas caras. Ambas têm o mesmo poder de sedução sobre quem lhes presta constante assessoria no banimento dos mortais indignos de sua suposta grandeza. Os que não lhes prestam cultos e às vezes discordam abertamente de seus atos, ao ponto extremo de não comprarem suas brigas contra os que os que não têm "nada" pra oferecer.

PORTAS DO MUNDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O destino é feito de portas. Portas de oportunidades em todos os aspectos e setores do mundo e de nossas vidas, quer no campo das realizações profissionais, afetivas, ideológicas ou de outras naturezas. Algumas inimagináveis para os nossos conceitos limitados do que nos rodeia. E todos nós, ao longo da existência, entraremos por muitas dessas portas que se mantém abertas para quem consegue alcançá-las, seja por mérito, ajuda ou conspiração do universo.
O mérito por si só, em cada caso ou porta, só terá realmente valia quando já estivermos lá dentro. É aí que definitivamente saberemos ou não administrar a oportunidade, a depender de como escreveremos nossa história no cenário encontrado pelas expectativas.
Mas nada é mais importante no vai e vem dos tempos, do que sabermos que um dia sairemos de novo por algumas dessas portas, e o essencial será deixá-las abertas, para o caso de precisarmos voltar, não se sabe quando. E o que dirá se as deixamos ou não abertas é o alicerce de nossa postura no que tange as relações pessoais, o equilíbrio afetivo e a ética, sobre todas as demais questões; até as possíveis questões profissionais.

LIBERTADORA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tuas chaves destrancam segredos tão meus,
que se tornam tão teus quanto mais de ninguém,
algo em ti é meu campo de pouso e corrida,
uma vida num mundo inteiramente novo...
Vou ao fim do meu túnel, redescubro a luz,
me refaço, renasço, recomponho enredo,
não há medo em seus olhos, eles dão coragem
ao meu sonho de voos que jamais ousei...
Desabrochas em mim cada flor escondida,
suavizas espinhos que agora não ferem,
querem só descansar no caminho que doas...
És com quem sou quem sou e jamais atinara,
minha rara magia, vara de condão,
chão que os pés não sentiam sob a própria planta...

JOGO DE CULPA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem nunca se culpa pelo mal que faz, e por isso jamais quer pedir desculpas, que não o faça. Só não tente negociar, assumindo meia culpa e dando a outra metade à sua vítima. Nem vire o jogo, transformando a vítima em algoz, ou naquela pessoa que deve lhe pedir desculpas por ser a culpada de sua culpa.

RAZÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Reconhecer ou não a razão de alguém seja um ato sincero e imparcial, e não se resuma em nenhum caso, ambiente, contexto ou grupo, àquela injusta e nojenta questão de conveniência, interesse ou hierarquia.

PRESENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Preciso de um momento
para sempre ser lembrado...
me dê um presente de passado.

SAUDADES

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nunca fui de não ter um momento sequer
pra pensar em quem amo e vai longe do alcance,
garimpar entre os dias a chance mais rara
de rever; reouvir; reatar algum fio...
Não entendo o sem tempo de romper as grades
e tentar um desvão na soberba das horas,
enfrentar as verdades em redor do sonho
de sentir novamente o prazer da presença...
Um amor verdadeiro conhece os caminhos,
podem ser os remotos, até virtuais,
quando mais não se pode querer da distância...
Só não dá pra não dar importância nenhuma
pros afetos guardados em nossos arquivos;
quem é vivo precisa morrer de saudades...

LOUCURA CURA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Muito além de mim mesmo estou aqui;
numa luta do bem com ele próprio;
entendi que a montanha move a fé
neste ser ou estar que me compõe...
Os moinhos passados movem águas,
é aí que mergulho e me aprofundo,
porque tudo que sei é que sei algo
e preciso viver até que morra...
Tem um mundo pedindo pra ter vida,
fico louco e de tanto é que me curo,
jogar pedras alivia meus rins...
Já me cansa o destino bem traçado;
nada como meu outro a cada dia;
hoje sei musicar conforme a dança...

SEM ACESSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Já entendo as pessoas que se forjam
nos excessos de aparas, aparatos,
criam fatos que tentam tornar lendas
com silêncios que soam falastrões...
Elas fogem sonhando ser achadas,
mas no fundo se perdem de si mesmas,
criam resmas inúteis de aventuras
nunca escritas, porque passam em branco...
As pessoas forjadas são lacunas
ou colunas, no entanto, de fumaça,
e depois das miragens evaporam...
Barroquizam-se além do que suportam;
quando nada comporta quem não são,
fica tão difícil facilitar...

DESEMPENHOS DA CHUVA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

O show da chuva já ida
está nos mini-cristais
que rolam sobre as folhagens...
brilha nas gotas de vida
já salpicadas de sol,
nas minhas doces miragens
do mundo à flor dos meus olhos...
A chuva ida ficou
na limpidez das roseiras
e no frescor desse ar...
Ficou na teia vistosa
que ora serve de auréola,
ora se torna colar
de que o arbusto se adorna...
Ficou da chuva passada
um romantismo silente,
que se compõe feito verso...
Alguma espécie de nada
com que se veste o poente,
pra se tornar universo
e provocar minhas asas...