Coleção pessoal de demetriosena

1061 - 1080 do total de 2422 pensamentos na coleção de demetriosena

VIAGEM PERDIDA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Copiar os poderes apodrece a alma,
porque há nessas fontes uma lama imunda,
quem afunda seus passos nos mesmos caminhos
não encontra verdade pra se nortear...
O que há nos poderes é toda mentira
sobre cada esperança que se tem no ser,
onde chega o poder toda honra se avilta
ou escapa e se abriga em outros habitats...
Exercite o poder de zombar dos poderes
com seu dom de ser livre para ser alguém
que não vê no que tem o seu próprio valor...
Imitar os poderes é falir essência,
diluir a decência num poço sem fundo
e perder todo ensejo de se tornar gente...

CRÔNICA SONSA E RANCOROSA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Depois de tantos acessos inúteis de fúria descobri, finalmente, que não preciso enforcar os meus desafetos... fazer nada contra os meus algozes, opróbrios e detratores. Agora sei que as minhas dores têm asas. Elas ainda são bem curtas, mas confio no milagre do tempo que as fará migrar lentamente para outros campos, quando eu menos der por mim.
Bastará que eu tenha calma o suficiente para dar aos meus desafetos todas as cordas do mundo. Com as cordas os troncos, as praças e até as plateias. Trata-los-ei como estrelas ou celebridades, para que a trapaça do meu bom senso tenha como atrair seus brios, as suas vaidades e a grande paixão que nutrem por si mesmos.
Eles próprios farão as suas forcas. Serão vítimas da própria pretensão. Não terei de fazer esforço para vencê-los, e para dizer a verdade, preferia não precisar vencê-los... muito menos desejar que algum desejo cruel se volte contra seja lá quem for... mas cá para nós: também tenho as maldades e mandingas de qualquer ser humano supersticioso e sonso.

LIVRE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A liberdade me prende;
me tranca fora de mim...
não consigo me livrar de ser livre.

SAUDADE VAI E VEM

Demétrio Sena, Magé - RJ.

A saudade que tenho de você
não é bomba de gás lacrimogêneo;
não é gênio do choro obrigatório;
o velório de quem nunca morreu...
É um trauma que torno brando e bom
pra seguir e saber que o mundo pulsa;
vem no tom da vontade de viver
o presente, apesar do meu passado...
O presente, apesar do meu passado
vem no tom da vontade de viver
pra seguir e saber que o mundo pulsa;
é um trauma que torno brando e bom...
O velório por quem nunca morreu
não é gênio do choro obrigatório;
não é bomba de gás lacrimogêneo
a saudade que tenho de você.

PRESENTE DO FUTURO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Minha idade não mente pro meu corpo;
ela toma o seu tempo, seu espaço,
tem o passo maior que minhas pernas
e me deixa perdido na jornada...
O meu corpo aprendeu a não tentar
ser mais forte que os dias do presente;
sente o peso da pressa e se acomoda
para dar de beber ao meu deserto...
É assim que me acho e ganho tempo,
perco medo e me aceito como estou,
com as perdas e os danos que sofri...
Mas vivi meus estágios de viver;
fecho a conta, me sinto ganhador;
ter futuro é presente do meu fim...

TODOS NÓS

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho tudo com isso, pois isso me cerca,
se me cerca me atinge no tempo imprevisto,
não ter nada com tudo que acontece ao outro
é um quisto escondido; pronto pra estourar...
Este aqui é meu mundo, meu povo está nele,
minha bolha não serve pra me proteger,
sem viver não se vive, como não se pode
com a força dos fatos que pesam na alma...
todos nós temos tudo com todos os nadas
dos que vão entre nós em estado de coma
pela soma dos nós que os apertam de morte...
nada vai nos fazer não ter nada com isso,
e ninguém é ninguém pra ter como ninguém
quem está no seu campo de alcance ou visão...

VENCER

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Pode ser que não vençamos alguns, ou até muitos obstáculos. Mas é uma grande vitória termos equilíbrio para vencer os efeitos das eventuais derrotas, a tal ponto que elas percam todo e qualquer sentido.

TUDO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho tudo.
Pelo menos tudo que tenho.
O que não tenho não conta.

PLENA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Você é bem atrevida.
Bem resolvida...
bem promovida...
Ninguém duvida
do quanto é.
Você é cheia de fé...
cheia de bem...
cheia de vida.

PÃO DE QUEIJO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando a lua pousar no seu telhado
pra banhar a janela, o seu olhar,
fazer tudo fluir igual canção
que não é pra se ouvir; é pra se ver...
Deixe o sonho cair no seu agrado;
toda lua precisa ser luar,
ou não pode fluir no coração
nem na doce cantiga de viver...
Ao cair do crepúsculo de outono,
a friagem morninha será beijo
de saudade; profunda nostalgia...
Dê à sua emoção coroa e trono,
beba o céu, saboreie o pão de queijo
que o espaço tempera de magia...

TUDO NADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Se procurarmos
o tal de tudo,
talvez achemos
e não mais:

Sobretudo. Contudo. Sortudo. Estudo. Pontudo. Patudo. Tetudo. Gargantudo. Testudo. Cistudo. Peitudo. Dentudo. Batatudo. Topetudo. O próprio tudo...

Salvo engano,
rocambolismos,
invencionices,
isso é tudo...

Quanto ao mais,
por toda a estrada,
encontraremos
a cada passo:

Marmelada. Granada. Estabanada. Limonada. Jornada. Abandonada. Bananada. Inclinada. Clonada. Dominada. Determinada. Ensinada. Internada. Externada. Inseminada. Disseminada. Iluminada. Empanzinada. Esplanada. Entronada. Afanada. Sanada. Fornada. Assassinada. Pressionada. Friccionada. Aficionada. Terminada. Exterminada. Fracionada. Treinada. Fascinada. Vacinada. Racionada. Danada. Antenada. Eliminada. Engalanada. Enganada. Desenganada. Encanada. Desencanada. Concatenada. Aprisionada. Bolinada. Ruminada. Depenada. Apenada. Condenada. Reclinada. Meninada. Minada. Ninada. Encenada. Entonada. Atazanada. Sanfonada...

e fico aqui,
porque mais nada...
digo;
cada vez
mais nadas.

E sei que isso
não explica,
só complica
e não agrada...

No fim de tudo,
tudo é menos,
bem menos
do que nada.

SAGRADO RECESSO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quem vier me buscar pra me pôr no batente,
só terá de retorno meu sonoro não;
a não ser que me leve, uma estrela cadente
que me pegue no pé ao invés de na mão...

Hoje quero só rede; nem piso no chão,
pois me dei este dia de agrado ou presente;
quero sombra com água, café, queijo e pão
e poemas com sonhos do forno e da mente...

Pra dizer a verdade, ficarei assim
até quando a canseira não der mais por mim;
a minh´alma também estiver descansada...

Amanhã na ressaca da paz deste agora
serei dono do tempo, já mandei a hora
me despertar meio dia da madrugada...

PLENO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Não teve medo nem grades;
jamais poupou predicados
ao rasgar todos os véus...
Viveu as suas verdades,
ou cometeu seus pecados
e foi pro quinto dos céus...

A JOVEM DO LOTAÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Quando a mocinha ruiva e muito bem vestida entrou no lotação, só havia uma vaga para sentar. Um jovem negro que ocupava o assento ao lado se ajeitou para que ela ocupasse confortavelmente a vaga. A moça não quis. Agradeceu educadamente, meio de viés, e permaneceu como estava. O assento logo foi ocupado por outra pessoa.
Era uma viagem demorada e cansativa, e o lotação lotou. As pessoas ficaram espremidas e a moça continuava em pé. Bem depois, um rapaz que desembarcaria no próximo ponto a cutucou pelas costas e convidou a ocupar antecipadamente a vaga. No assento à direita, uma senhora bem idosa, em trajes encardidos e muito pobres, abriu um sorriso muito simpático, de alguns dentes cariados, como se desse boas vindas à moça. Mas a moça continuava bem. Não estava cansada. Outra vez agradeceu educadamente... e de viés.
Mas ninguém é de ferro. Quando o lotação começou a esvaziar, e ainda restava um bom pedaço de asfalto para chegar ao ponto final, onde a mocinha ruiva desembarcaria, mais um passageiro desembarca e deixa um novo lugar, ao lado de um moço forte, alto, branco e metido em trajes sociais. Aí a moça se rende: lentamente se dirige à poltrona, dá um sorriso simpático, seguido de um 'com licença', senta, se recosta e dorme.
Não tarda muito, e o moço bem apessoado sai, de forma bem delicada para não acordar a moça. No mesmo ponto, embarca no lotação um idoso esquelético, visivelmente esgotado e carregando pesados sacos de sucata, que ele catara provavelmente o dia inteiro. Deixa os sacos perto da porta, se dirige à vaga na mesma poltrona da mocinha ruiva, e com expressão de alívio se acomoda, sem demorar também a dormir.
Regidas pelo cansaço, o conforto da poltrona quase macia, o vento da janela e o ruído suave do veículo em movimento, ambas as cabeças pendem, cada uma para o ombro ao lado. É nessa entrega inocente, simbólica e desarmada que ambos seguem viagem para o mesmo bairro, onde moram cercados pelas mesmas realidades diárias.

ESSÊNCIA, GARRAFA E ROLHA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Tenho aqueles extremos, indesejáveis pra muitos, da confiança incondicional, desarmada, irrestrita, ou a desconfiança cega e sistemática. Da entrega ou do rapto de mim mesmo; a doação infinita ou a mais cerrada sonegação do meu todo, porque doar ou sonegar pela metade não completa os meus princípios.
Quem quiser minha essência, terá de sugá-la inteira e também acolher o frasco, pois são inerentes os meus lados. Minha cara não presta sem a coroa, e vice-versa. Sempre vou com fundo e superfície aonde quer que eu vá... e para quem quer que eu vá. Meu carinho não é diminutivo. Se não adoro, detesto, e se não atesto, jogo imediatamente fora. Nunca deixo para fazê-lo depois.
Foi assim que fui com você, que poderia ter sido assim, ou simplesmente o avesso, comigo: confiei sem escudo nem armadilha... entreguei sem freio... doei sem fim... fui essência, garrafa e rolha... tudo em um. Você não tinha o direito de se forjar e corresponder pela metade, à minha plenitude que morreu nos braços da ilusão de sua coplenitude.

REVIVENTE

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Aprendi a crescer quando renasci. Quando voltei do meu fundo e vi que não tinha mais amarras, graças ao projeto pessoal de me tornar exatamente mais pessoal. Ou mais quem sou. Obriguei-me a saber viver, para não ser morto... nem elétrico... falante... notório, até vivo, e mesmo assim morto.
Afiei minhas garras, e como não conseguia sair do coma profundo, fiz o coma profundo sair de mim. Mostrei a cara pro espelho, desafiei meus olhos e disse ao silêncio: estou aqui... não puxei a cigarra... não pare o mundo, porque meu ponto é além... não sei onde, mas é além... ainda não quero descer.

GENTE ARCADA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Nunca tive talento com gente de bolha,
que se quebra no ar à menor vibração,
ou é folha varrida por todos os ventos
e não sabe o que sente; nem sabe o que sabe...
Faço curva pra gente quebrável demais,
que desanda, esfarela, perece ou resvala,
se mascara e se cala sobre seus conflitos
pra depois cometer injustiças vencidas...
Quem jamais se resolve ou resolve o que for,
feito flor de soprar que se deixa na mão
e seu talo, no chão, vai pra baixo dos pés...
Sempre tive cuidados com gente marcada
para ser vitimada por tudo ao redor,
uma dó de si mesma e mil mágoas do mundo...

ENTREGA

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Foi assédio afetivo; confesso que foi;
um afeto sem asas pra voos escusos,
para os fusos empenhos ou atos avessos
ao exato sentido que tinha que ter...
Foram idas desnudas de planos a mais,
depois vindas serenas, de plena leveza,
com a branda certeza do mesmo desvelo
sem apelos, cobranças, anúncios de assaltos...
O carinho assedia e se deixa tomar
de cuidados, descuidos, entregas fluentes;
é a forma de amar que se rende sem peso...
Querer bem nos desarma, nos livra por dentro
e nos torna indefesos com quem se defende
como centro de todos os mísseis do mundo...

DEIXAR DE SENTIR

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Sempre houve um pra sempre; já perdi a conta;
todo amor é assim em seu passo primário;
tudo quanto começa já traz uma ponta
pra buscar outra ponta de mais um sudário...

Imortal repetente ou eterno diário;
cada laço é uma vida que o tempo remonta,
como nosso infinito cabe num aquário
onde o pronto parece que nunca se apronta...

Quanto amor para sempre; quanta eternidade;
a verdade que agora desmenta a verdade,
quando nossa doçura virou absinto...

Aflorou no pra sempre o velho nunca mais;
outro sonho cansado retorna pro cais;
meu amor, sinto muito pelo que não sinto...

AMBIÇÃO

Demétrio Sena, Magé - RJ.

Descobri exatamente no que chamam de acomodação, a mais ambiciosa forma de viver bem.