Coleção pessoal de demetriosena

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⁠UM ENSAIO DA FÉ

Demétrio Sena - Magé

Quando me disseram pela primeira vez, que a fé move montanhas, imediatamente a associei ao movimento. Ainda não sabia sobre figuras de linguagem, mas entendi que a fé nos faz mover montanhas, porque nos move, agita e desacomoda. Faz a pessoa "dar seus pulos" na direção do alvo e muitas vezes provocar o "milagre" que sempre foi possível, pois não dependia do sobrenatural; só do esforço maior, com status de sobre-humano.

No decorrer dos anos, aprendi que a fé tem alvos ou ícones à nossa escolha. Pode ser em Deus, para quem crê nEle, ou em um deus, um amuleto, entidade ou ideal... em alguém ou algo, desde que mova, desperte, faça "dar seus pulos" e trazer a força interior aos braços, pernas, projetos e desejos que chamam para a vida ou para a seara.

Religiosos, agnósticos e ateus têm fé, porque não crer em Deus não é não crer em nada ou ninguém. Todo ser humano tem o dispositivo da fé, que demanda ser acionado e desenvolvido. Cada pessoa o faz com diferentes níveis de providência, consciência e alcance. De qualquer modo, chega o tempo em que a fé não basta, nem com todas as cargas de força e positividade, porque a partir daí, a natureza ou a ordem natural da vida e do destino inapelavelmente assume o comando.

Os religiosos sabem ou deveriam saber do que falei acima, especialmente quando constatam que fizeram preces ou rituais e mesmo assim a doença progrediu; seguiu seu curso. Especialmente quando eles não se moveram para que a medicina e os medicamentos corretos fizessem o restante. Fizeram preces pelo sucesso nas provas escolares e algum evento fortuito impediu o sucesso ou a fé não lhes moveu a estudar incansavelmente. Jejuaram e oraram por empregos e a fé não lhes fez bater de porta em porta com currículos, apelos e, por não conseguirem mesmo assim, não lhes moveu a tentar algo diferente... sim, porque às vezes a fé exige mudarmos o movimento e a direção, sem pararmos de nos mover.

O abuso da fé, nestes tempos de pandemia, tem levado muito religioso, por questões não só religiosas, mas também políticas, a fazer preces febris pelo fim da doença e ao mesmo tempo não se cuidar... desafiar as orientações da ciência e da medicina e não só rejeitar, como também difundir desinformações para levar o próximo a igualmente rejeitar a vacina que a ciência, com fé e boa fé desenvolve para salvar milhões de vidas. A fé desses religiosos movidos a politicagem é irresponsável, fanática e sem amor.

Fé exige além dos movimentos, muita responsabilidade, pensamento aberto às impossibilidades naturais ou fortuitas da vida e principalmente boa fé. O indivíduo que tem fé com má fé se acha todo poderoso e crê que a sua seja coletiva, não íntima e pessoal, chegando a usá-la para comércio, poder sobre o próximo e moeda para barganhas políticas; tráfico de influência; domínio das mentes fracas e dos espíritos fragilizados.

Nenhuma fé nos põe numa zona de conforto. E vale a pena dizer aos fanáticos, que o rico não o é por ter fé maior que a do pobre... doença e morte são condições naturais do plano de vida, e Deus, um deus ou o amuleto não privilegiam a fé dos espertos... e mesmo sendo vocábulo feminino, fé não tem gênero. Às vezes é "fé, menina"... outras, "fé, menino".
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⁠O LIXO DO NATAL

Demétrio Sena - Magé

Está nas ruas chuvosas e precárias de minha cidade, Magé, o lixo de Natal. Houve comemoração no mundo inteiro, mesmo com essa festa macabra e longa do Coronavírus. Umas mais modestas e respeitosas, outras bem mais extravagantes e "nem aí" para o sofrimento alheio.

Nos guetos, becos e vielas, houve os olhos de quem assistiu às festas na expectativa de revirar o lixo do Natal, no dia seguinte, para roer os ossos da ostentação, do barulho e do "nem aí". Pessoas sombrias e silenciosas, entre os restos de luzes multicoloridas fabricadas para estampar, com requintes especiais de crueldade, as diferenças sociais.

E para contribuir com o cenário, a vingança pós-ano eleitoral, dos prefeitos não reeleitos ou mal sucedidos em suas apostas: A não coleta do lixo de Natal, porque as prefeituras não honraram seus compromissos com as empresas contratadas e, os coletores, que ficaram sem seus proventos finais ou o décimo terceiro, não saíram para realizar a coleta.

Eis a performance do Natal: contrastes de ostentação e miséria, expectativas trabalhistas frustradas e vinganças políticas que penalizam, proporcionalmente, as classes cotidianamente mais sacrificadas. O lixo do Natal vai muito além do que os olhos veem.

⁠EMPATIA NATALINA

Demétrio Sena - Magé

Festejar tem sentido se a vida reluz,
por ter mais alegrias do que pranto e dor;
sem a flor não existe sinal de jardim;
só há paz quando a calma nos recheia e veste...
Cantorias e fogos não desviam lutos,
nosso amor se desmente sem reflexão,
não há frutos maduros ou idoneidade
nos arroubos que afrontam silêncios feridos...
Celebremos a vida respeitando a morte;
há um corte que sangra no pulso do mundo,
pois o mundo pranteia saudades e perdas...
Brindaremos ao sopro que ainda nos resta,
mas a festa não pode zombar da tristeza
dos acenos que os olhos perderam de vista...

⁠SETE CHAVES

Demétrio Sena - Magé

Um amor cofre forte com boca-de-lobo,
cuja chave ou segredo fica na matriz,
me faria feliz, mas a preço de mágoas
que não quero causar se não for só a mim...
E por isso me fecho num silêncio insano,
nesse banco do tempo que me rende angústias,
em um plano mais fundo que todos os limbos
ou que todo mistério das máfias antigas...
Meu amor por você rende juras vedadas,
cobra juros doridos por qualquer menção,
quando meu coração toma o rumo dos olhos...
Carro-forte não pode levar o que sinto
pra guardar numa ilha de algum ombro amigo;
fecho tudo comigo e sufoco meu ser...

⁠CRONIQUINHA CONTRASSOCRÁTICA

Demétrio Sena - Magé

Ninguém precisa me situar... nunca. Sei muito bem quando sobro, falto e sou bem-vindo... e onde protagonizo, coadjuvo e sou reserva. Não me magoa, se não for explicado... explicações subestimam minha inteligência e meus estudos de mundo, vida e ser humano.

Exclusão e preconceito, abertos ou velados, são as minhas especialidades, como alvo. Desde menino. E onde me amam, mas ainda assim excluem, têm pé atrás, me deixam na reserva para convocações em jogos nos quais todos os titulares estão "quebrados" ou de férias, nem costumo cobrar... afinal me amam... creio nesse amor... preciso crer.

Só não expliquem, repito, como se a minha observação inequívoca e de múltiplos ângulos fosse algo equivocado. Neste assunto, quando me reconheço como cerne, vou na contramão do mestre Sócrates... porque tudo que sei... é que tudo sei... pelo menos de mim.

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Respeite autorias. Isso é lei

⁠VENDILHÕES DO PRÓXIMO

Demétrio Sena - Magé

Com uma trajetória marcada pelo amor, a humildade, o perdão e todo bem que fazia sem exigir nada em troca, Jesus Cristo ficou furioso apenas uma vez. Esse não era o seu normal... foi um destempero do Jesus humano, que nunca se repetiu. Ele mesmo deve ter se repreendido por perder a cabeça e agredir pessoas, ainda que por motivo compreensível.

Os cristãos raivosos e truculentos em razão de um projeto politicopartidário de poder, de uma série de preconceitos injustificáveis e do fanatismo que há muito deixou de ser apenas por questões religiosas (o que já era ruim) adoram citar o Cristo destemperado e agressivo, quando impõem seus pontos de vista extremos e radicais... quando querem ser obedecidos e ostentar comando... e isso não tem nada a ver com vendilhões do templo, pois eles próprios são vendilhões, entreguistas e negociadores inveterados da própria fé.

Esses mesmos cristãos dizem, constrangidos, que Deus É Amor, mas rasgam a boca para gritar que Ele também É Fogo Consumidor... fogo! Ira! Raiva! Destruição, castigo, pragas do Egito! Josué e seus homens invadindo cidades e dizimando seres humanos! Davi decapitando Golias após matá-lo! Sodoma e Gomorra em chamas, a humanidade afogada no dilúvio... guerras... monstros do apocalipse, o caos. Deus não Serve, depois de mandar o filho à terra em missão de paz, com palavras e práticas de amor... sem espadas e varapaus... e sem as Marias Madalenas apedrejadas.

O evangelho dos Cristãos de hoje não é o de Cristo. Cristo é cheio de mimimi, para os que abarrotam templos com suas manias de grandeza... seus espíritos extremistas de políticos e lacaios da repressão e da ditadura. Usam a figura de Cristo, por ele já não estar aqui para repreender sua truculência e má fé. Para tais cristãos, Cristo bom é Cristo morto.

⁠DOS PERFEITOS E SANTARRÕES

Demétrio Sena - Magé

Jamais cometi um crime. Mas não posso tentar negar que já cometi muitos erros. Alguns, com uma grande carga de gravidade. Sim, eu deploro muitos passos que hoje não daria... tenho grandes arrependimentos... nem ouso dizer que agora já não erro, mas não queria ter cometido sequer um décimo dos muitos e muitos erros graves que me carimbam.

Ser pessoa reconhecidamente marcada por tantos atos repreensíveis pode não ter sido exatamente um doutorado para mim. Nem todo mundo aprende o bastante com os próprios erros... alguns não aprendem nada... mas uma lição importantíssima não escorreu entre os meus dedos: ter errado como errei, saber exatamente os caminhos que o ser humano toma (muitas vezes crendo que acerta ou que o erro se justifica), fez de mim pelo uma pessoa mais tolerante, compreensiva e menos hipócrita em relação ao próximo.

Aprendi a não julgar tanto. Se às vezes caio na tentação, não o faço publicamente nem condeno como se eu fosse o único membro de um júri ou simplesmente o juiz. Quando sei que alguém errou, lembro do quanto sou errado e, se não posso ajudar, deixo que o julgamento e o veredito fiquem a cargo dos perfeitos e santarrões que incham a sociedade.

⁠SOBRE A BÍBLIA E O SER HUMANO

Demétrio Sena - Magé

Jesus Cristo veio ao mundo, porque o Destempero do Pai, ao expulsar do reino superior o seu anjo mais querido e talentoso, só piorou as coisas. E por toda a eternidade... porque o perdão e a segunda chance teriam sido a salvação de tudo, além do exemplo divino para todos os sermões que tratam de virtudes.
Ele veio, porque Deus não aprendeu Consigo mesmo e voltou a ser Destemperado e Truculento em muitas outras ocasiões. Quis ensinar a humanidade com violência... enviando pragas... ordenando guerras... destruindo povos... enviando assassinos ungidos que mostravam no fio da espada, como Ele era Terrivel... Fogo Consumidor... Implacável com filhos ou criaturas desobedientes e como suas desgraças alcançavam gerações e gerações dos que O desobedeciam.
O filho veio, porque O Pai só metia Os Pés pelas Mãos... exigia sacrifícios e sacrifícios, dos lideres de sua criação mais primorosa... provas e mais provas de amor que destruíam por dentro, os escolhidos mais sensíveis... tecia plano sobre plano, de uma salvação muito cara... pesada... impossivel mesmo, para os limites de uma humanidade já inteiramente contaminada pela fúria do anjo expulso e vingativo, que se sentiu injustiçado... sem direito à defesa... e sem O Perdão Divino, sobre o qual sempre ouviu, tanto no reino superior quanto do reino que lhe foi imposto depois.
Sim, Cristo veio, porque Deus não parava de fazer burradas e chegou a destruir quase toda a humanidade com um dilúvio que foi também um fiasco. Sempre Raivoso e Vingativo, talvez estivesse prestes a pôr em prática um plano que acabaria, de uma vez por todas, com o menor indício do ser humano. Mas o Pai repensou... evoluiu... finalmente cedeu À Própria Consciência e recorreu ao filho, como prova do Seu Grande Amor pela humanidade, que vinha sendo exposto ou declarado de formas extremamente brutas, equivocadas e sem nenhum resultado.
Não há críticas ao Pai, e sim, o reconhecimento de que Deus teve que ser Muito Deus, para recorrer ao filho e pedir ajuda... para não ter que destruir a criação "menina dos Seus Olhos" nem perpetuar uma condução sangrenta, mutiladora e bélica, da humanidade. O Pai decidiu ser Pai Amado e não Temido... para tanto, abriu Mão do amor humano obrigatório e deu liberdade aos filhos/criaturas para decidirem seus caminhos, conscientes dos preços naturais da escolha entre o bem e o mal, convertida em atos.
O filho sabia que O Pai sabia que a humanidade já estava (está ) contaminada pela expulsão "do anjo", e que a solução era parcial. Sabia (e sabe) que uma parcela imensa da humanidade já se tornou muito raivosa e intolerante... nem um pouco disposta a ser humilde o suficiente para perdoar Deus e aceitar o Seu Plano de rendição à paz e ao amor como os únicos dispositivos capazes da salvação global.
Agora, O Pai sabe que não há melhor plano e se compraz com as mulheres e os homens que aderem com sinceridade. É Cônscio das muitas distorções gananciosas e ávidas de poder das lideranças religiosas que usam seu Nome com má fé e manipulação... dos messias e deusezinhos que O substituem nos corações dos falsos fiéis tomados pelo sentimento de ódio, vingança, julgamento e condenação gratuitos do próximo em nome do fanatismo, a prepotência e a luta insana pelo comando e o protagonismo ilusórios.
Quem me conhece e sabe que a Biblia não é meu livro de regra e fé, por outro lado sabe da imensa admiração que tenho pela figura de Jesus Cristo como grande personagem da história universal. Um grande homem, cujos ensinamentos poderiam, sim, salvar a humanidade pela simples prática diária, se não estivessem mesclados à pratica, interesses escusos, vaidades, busca de poder pessoal... mentiras... hipocrisia.
Nestes escritos, meus olhos adentram olhos que leem a Biblia como reforço e manutenção da religiosidade, para propor um olhar crítico sobre o entendimento comum. Segundo ela, Deus repensou seus atos por amor à humanidade, que não se dispõe a fazer o mesmo, por amor a si própria.
É o que penso, e no que posso estar errado... e como posso! Minha opinião é somente minha opinião... não sou nem pretendo ser o dono da verdade... apenas alguém que se propõe e propor.

⁠COBRA FERIDA

Demétrio Sena - Magé

Minhas veias têm versos que jamais compus,
porque mágoas tão fundas não podem fluir;
a minh'alma tem pus, acumula segredos
que não sei dividir sem pesar n'outras almas...
Eu me fumo e não solto, sou fumaça presa,
já tomei cada gole do fel desta vida,
sou a cobra ferida que adentrou a lenda
e prefere ficar, pra não ferir o mundo...
Meu estado é de sítio convertido em coma;
tenho a soma das dores que o tempo produz,
mas não ponho na conta; na cruz de ninguém...
Tanto quanto preciso me abrir ou expor,
por favor eu preciso contar só comigo,
nos limites dos versos que sufoco em mim...

⁠CORRENTES

Demétrio Sena - Magé

Quero fartas correntes de remansos;
cachoeiras e rios caudalosos,
ventos mansos, o ar em movimento,
minhas asas de sonho, inspiração...
Não me mandem correntes de "Pai Nosso",
de agonias, clamores insistentes
aos buracos vazios do infinito
que nos põe mais doentes e pedintes...
Busco laços de afetos e mãos dadas,
os abraços por ora recolhidos
das estradas do mundo em desalinho...
As correntes de choro e depressão
numa fé cabisbaixa e desvalida,
são alheias à vida na qual creio...

⁠ÀS MULHERES DESTE SÉCULO

Demétrio Sena - Magé

Minha esposa não é minha mulher. É minha esposa. Seria minha sócia, se tivéssemos um negócio em comum. Colega de trabalho, se trabalhássemos juntos... inimiga, se nos detestássemos. Para ser mulher, ela nasceu mulher. É sua natureza biológica ou anatômica (isso não é aula). Já era quem é, quando a conheci, como ainda será, se algum dia nos separarmos.
A mulher que foi minha mãe precisou me dar à luz, para tanto. Minhas irmãs nascerem da mesma mãe... ou não seriam minhas irmãs, o que não as tornaria não mulheres. A Bete, minha cunhada, não a seria se a sua irmã não fosse minha esposa... e as amantes que não tenho, não são minhas amantes e nada existe que as "desmulherize" por isso.
Namoro, casamento, qualquer outra relação amorosa não nos torna propriedades um doutro. Pelo menos não deveria... não deveria roubar o nosso pertencimento intimo e pessoal... nossas vontades individuais e o que fazemos delas. Ambos ou ambas devem continuar senhores de suas consciências, donos de seus corpos, pensamentos. escolhas, sins e nãos.
Mulheres... não sejais submissas a vossos esposos. Eles não são seus donos, homens ou senhores, e sim, esposos. Não haja hierarquia entre o casal! Cumplicidade, acordo, compromisso, entendimento e parceria sim... hierarquia, relatório, constrangimento e liberdade vigiada, não. Sejais esposas de vossos maridos, mas vossas próprias mulheres.

⁠MULHER

Demétrio Sena - Magé

A mulher se pertença e rompa os muros;
quebre algemas, ferrolhos de opressão,
tenha o seu coração forjado em fibra
contra os duros contextos deste mundo...
Ache as forças reservas onde as forças
queiram dar seus empenhos por vencidos,
os milênios perdidos em silêncios
empilhados de gritos e de ações...
Que a mulher nunca pense que já basta
nem que os homens quitaram seus fiados
entre agrados, lisonjas e bravatas...
Tome as rédeas e dome as sociedades
que a massacram no tempo e nos espaços
ou nos passos que a vida lhe dispõe...

⁠SOBRE EU TE AMO

Demétrio Sena - Magé

Vou dizer que te amo ao me achar nesse texto
que minh'alma redige na sombra do tempo,
no contexto sereno das minhas palavras
ancoradas no cais de um querer consumado...
Eu só digo eu te amo depois de curtir
o que sinto em azeite, cebola e vinagre,
pois preciso sentir que o que sinto é maduro
pra saltar num abismo e nem olhar pra frente...
Meu afeto é profundo e se deixa fluir
e florir na miragem dos frutos vindouros,
nos quais tenho esperança e dispenso a certeza...
Quando menos achares que chegou a hora
ou a minha demora fizer duvidar,
vou te amar como agora e dizer eu te amo...

⁠TERMINAL DA SAUDADE

Demétrio Sena - Magé

Comecei a deixar que a saudade resvale
pelas fendas dos dedos que a mão relaxou,
pelo vale das sombras de minhas lembranças
que jamais conseguiram provocar um eco...
E minh'alma se cala, quase se amordaça,
não emite palavras, pensamentos vãos,
afinal tudo passa, como sempre aprendo
entre nãos escondidos nos velhos talvezes...
A saudade já sabe que passou do tempo,
que meu corpo deixou de ser templo adequado,
se me torno passado pra margem oposta...
Sinto muito e não peço que sinta por mim,
pois o fim é prenúncio de qualquer começo,
é um preço bem justo pelo que sonhei...

O NÓ CEGO DE ALGUNS NÓS

Demétrio Sena - Magé

⁠O segredo é saudável, se não for indigno... se não for infidelidade... ou se puder poupar o outro de mágoas desnecessárias e a nós mesmos de mal entendidos. Além do mais, nem tudo é conjugado, conjugável nem a dois... ou nunca teremos um momento para sermos nós; indivíduo; pessoa; unidade.

Embora gêmeas, as almas devem continuar divisíveis, para cada uma não perder a própria essência... e se duas carnes realmente são uma só, que ambas as metades desfrutem, vez e outra, de auto permissões e até permissividades pessoais que lhes façam felizes... entretanto, sem que signifique a infelicidade ao lado.

Queiramos isso tanto para nós mesmos quanto para quem amamos. Permutadamente, a ausência total da individualidade de um e de alguma inocência do outro pode ser bem nociva para o próprio par. É como se vivêssemos sob constante suspeita e aquela necessidade contínua de provar nossa índole.

A relação a dois em que os pares perdem completamente seus eus para o nó cego de um nós indivisível, concreto e radical não é uma relação de amor... é, na verdade, uma - talvez velada - relação de custódia.

⁠CRISTIANISMO ELEITORAL

Demétrio Sena - Magé

A frase mais infeliz - e sacana - que ouvi a todo momento nas últimas eleições presidenciais foi a tal de "cristão vota em cristão". Foram essas eleições do tal voto cristão corporativo das igrejas e seus interesses nada cristãos que ascenderam, por exemplo, aos cargos máximos do país, do Estado e da capital do Rio de Janeiro, três monstros nojentos e cruéis... capazes das piores tramas para se darem bem, sem a mínima importância ou atenção aos mais necessitados... aos que hoje sofrem como nunca, os efeitos da obediência cega e intransigente aos líderes que negociaram seus votos e se deram bem às suas custas.

Não é de hoje que a filosofia do "cristão vota em cristão" é imposta como imposto - ou dízimo ideológico perverso - aos membros das igrejas cristãs deste país... notadamente as igrejas evangélicas que, salvo exceções, não poupam esforços para seus municípios, estados e o país terem no poder público representantes apenas seus. Executivos e parlamentares que obedeçam às lideranças pastorais, com a criação e aprovação de leis que as empoderem... perdoem suas dividas e as tornem cada vez mais ricas, dando aos membros mais simples a ilusão do mesmo poder na terra, mas a riqueza, só no além; no sonhado céu.

Ao empoderarem as lideranças, os poderes eleitos pelos votos cristãos de cabresto não precisam temer nada... podem ser corruptos, racistas, raivosos, ditadores e destruidores da natureza, pois tudo é perdoado pelo toma-lá-dá-cá... pelas vantagens, nomeações em secretarias, ministérios e outros setores em todas as esferas. O bordão correto para o contexto seria "Cristão vota em cristão, de fato ou não". Ficaria evidente que basta o candidato se auto declarar e oferecer aos caciques todos os poderes, vantagens, facilidades, trânsitos, influências... e aos meros fiéis, ilusões e o poderzinho básico sobre não cristãos.

⁠O MESMO AMOR

Demétrio Sena - Magé

Eu queria um querer de sua parte,
que não fosse por tanto me dispor;
um amor que viesse por vontade;
sem a tal condução coercitiva...
E queria sentir que também sente
a saudade sem freio nem medida,
minha vida jamais foi sua em vão,
nestes anos de muitas nostalgias...
Sempre tento me abrir pra realidade,
após tantas leituras de nós dois;
tanta idade perdida no meu tempo...
Apesar dos sinais e dos avisos,
dos juízos finais que já vivi,
eis aqui meu clamor de cada dia...

⁠DE CONFIANÇA E RISCO MORAL

Demétrio Sena - Magé

Muitas vezes veladamente, mas a sociedade considera os ofícios de ator, tatuador, fotógrafo, até bailarino e tantos outros/outras ligados às artes interativas ou de contato, como de risco moral. Esse pensamento engessado leva em consideração as supostas chances de abusos cometidos por profissionais ou de seguidos relacionamentos eróticos consensuais e relâmpagos.Tal preconceito quase não considera esses trabalhos como trabalhos. É como se as pessoas tivessem desde bem novas, determinadas taras que um dia precisarão disfarçar de profissões.

Em todos os setores da sociedade existem os profissionais e clientes abusivos. Quase todos os contratados por pessoas ou empresas lidam, em algum momento, mais reservadamente com determinados contratantes ou colegas de trabalho. É neste momento que a confiança mútua tem que se fazer valer, observadas as atitudes, os olhares, ambientes e possibilidades de concretização de uma possivel intenção distorcida ou perigosa. Seres humanos devem ser pensantes, observadores, criteriosos e procurar saber profundamente com quem lidam tanto no dia a dia quanto em determinadas ocasiões. Contratar um profissional, não importa para qual trabalho, exige cuidados e critérios, de ambas as partes, que podem reduzir drasticamente as muitas possibilidades de abusos.

Qualquer profissional que não tenha boa indole poderá tentar se aproveitar de alguma situação. O entregador, da confiança da dona de casa... o professor e a professora, do fetiche de alguns alunos e alunas... o médico, da inocência da paciente que não se importa com a falta da enfermeira em determinados procedimentos... o pastor, padre, guru (...) da fiel que lhe faz confidências, confissões ou pede conselhos e nem percebe seus olhares compridos que levam a gestos inadequados visando mais e mais... o pediatra, da negligência de pai ou mãe que não atenta para o quanto é importante a sua presença, mesmo que a criança ou adolescente seja pura esperteza. Motorista particular, atleta, cantor(a), enfermeiro (a), militar, normalista, encanador... todos podem ser vítimas, algozes ou simplesmente se valer do fetiche alheio.

Na hora certa, o que vai determinar atitudes é o conjunto caráter/cuidados/observação/critério/bom senso. Esse conjunto pode afastar abusos ou atos consensuais que ferem o profissionalismo. O que jamais pode haver é a generalização de um preconceito enraizado que sempre se impôs a determinados profissionais, quase todos das artes. Não é a profissão que é de risco moral... é o ser humano como profissional, colega e cliente. "Se um não quer, dois não brigam" e se ambos fazem valer seus critérios, exigências e cuidados, a confiança não será traída.

⁠ALFORRIADO

Demétrio Sena - Magé

Para mim não há vida, se o laço dá nó,
se o afeto não pode respirar sozinho;
quando já me sufoca, prefiro ser só;
a gaiola de luxo não supera o ninho...

Quero cama que nunca me roube o caminho;
tomar banho e de novo me cobrir de pó;
vestirei os meus trapos, caso a seda, o linho
manipulem no contra; dominem no pró...

Que ninguém se nomeie senhor ou senhora
do meu tempo, meu vir e do meu ir embora,
pois me prendo e me solto pela minha chave...

E ninguém se pretenda ser meu adivinho,
decidir quando passo da pinga pro vinho,
se viajo de sonho, de charrete ou nave...

⁠PRIMAVERA

Demétrio Sena - Magé

O meu desejo,
se o verde aflora;
se a cor impera...
É dar um beijo
na tia flora;
na prima vera...