Coleção pessoal de demetriosena

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Milagre é uma coisa que todo político fará quando está em campanha, mas, depois de eleito, político deixa de ser santo.

Pior do que péssimo, só mais ou menos.

VIDA PLENA

Demétrio Sena

Cheguei ao ponto em que o ponto
já não exclama, interroga
nem salienta.
Estou em câmera lenta
e meu sorriso, meu pranto
vão ficando à meia-luz.

Cheguei ao ponto em que o ponto
faz ponto cruz.

Porque no fundo me sinto
alguém ou algo já pronto
pra dar partida.
Pois tive tudo que a vida
pudesse dar de mais vário,
agora o tempo me gasta.

Cheguei ao ponto em que o ponto
é ponto e basta.

PROFISSIONAL E MERCADO DE TRABALHO

Há na sociedade moderna uma demanda inestimável de talentos que se acotovelam em busca de uma chance. Quem quer de fato essa chance, tem que se renovar como profissional, sob pena de virar estátua. E não adianta ninguém – executivo nem artista; escritor nem atleta; médico, professor nem pedreiro – achar que sabe o suficiente para se dar ao luxo de viver dos resultados de sua estagnação, a menos que os resultados advenham de aposentadoria.
Todo profissional que se leve a sério precisa progredir como tal. Isto não sendo mais possível, quiçá viável, será bem-vinda uma troca de função (dentro da mesma área, para não machucar o orgulho vocacional nem gerar insatisfação, com vistas à infelicidade). Só poderemos nos manter no meio, se tivermos consciência de que o mercado até reconhece o que fomos, às vezes homenageia, mas invariavelmente nos contrata pelo que somos.

GROSSERIA NÃO É FRANQUEZA

À franqueza destrambelhada, que julga e condena sem o menor jeito - e por isso fere a tudo e todos -, prefiro aquela falsidade criteriosa, desgrudada e sutil.
É que o franco destrambelhado não tem ética; noção de hora, contexto e lugar. Além do mais, é franco apenas com os outros. Consigo próprio é falso, ao fazer apologia de sua maior virtude, a franqueza - que no fundo é seu maior defeito - e se orgulhar dos constrangimentos que gera em derredor.
Quanto ao falso criterioso, este pelo menos age de modo a não melindrar o próximo. Só o distante, que não tem como ser melindrado, justo por estar distante. Ter critério não lhe permite ser inconveniente, além de forçá-lo a ser bem educado; cuidadoso com gestos e palavras; discreto com tudo e todos sobre o que sente por esta ou aquela pessoa, pois sabe das saias justas que poderia sofrer por causa das línguas-de-trapo que o rodeiam, inclusive as dos francos destrambelhados, invariavelmente a postos e atentos.
Ao contrário do franco em questão, o falso criterioso - profundo conhecedor da própria falsidade - só é falso com os outros. Consigo mesmo é franco, pois reconhece que não saberia ser claro, direto e contundente sem se tornar um franco destrambelhado... Seu antônimo natural.
Em outras palavras, qualquer extremo é inconveniente; muitas vezes perigoso. Se acho que a falsidade sempre será uma praga, também não me deixo iludir por por aqueles que vivem armados de grosseria, intransigência e suas velhas certezas fora de validade, há muito mofadas, em nome da franqueza.
Eis a minha franqueza. Talvez, para muitos, com ares de falsidade, porque não a imponho. É que se trata de uma franqueza que tenta ser criteriosa e sutil.

Como só se educa se fazendo imitar, saibamos de uma vez por todas, que o ato simples de ser tem muito mais eficácia do que a canseira do ensinar com palavras.

Sempre fujo da ironia
que a tantos outros afeta:
Mulheres amam poesia...
mas não suportam poeta.

Não existem velhos de alma jovem... Existem velhos ridículos e conceitos pejorativos de velhice.

Não tenha medo do escuro.
Aconteça o que acontecer,
Você nem vai ver.

Numa era em que a gente
Faz do amor um artigo
Em extinção,
Qualquer bicho é uma espécie
Em distinção.

Finalmente vi tu´alma. Rasguei o véu das apologias que fazes de quem nunca foste. Cá entre nós, agora que sabes que sei quem és – e quem és é uma ofensa para ti próprio – , já não podes brigar quando te xingo de ti.

Ter um marido ocioso é como criar um filho sem educá-lo para o mundo; a sociedade. É mimá-lo ao extremo; não exigir limites; fazê-lo sentir-se o centro do mundo - sem ideia de mundo real - e superior às pessoas que precisam fazer jus à sobrevivência. Em suma, um ser incapaz de compreender os valores éticos, legais e humanos dos quais um cidadão verdadeiro deve ser composto.

Ver beleza em alguém está na disposição íntima e afetiva de achar essa beleza. É por essa disposição que os olhos desqualificam – e até anulam – meros conceitos étnicos, plásticos, publicitários e coloniais de beleza.

Chega de campeões sociais... de gente que "faz a diferença". Precisamos mais do que nunca, de mais e mais pessoas dispostas a fazer a igualdade.

A carne é franca o suficiente para não posar de espírito e renunciar aos prazeres que lhe cabem. O espírito sim, este é fraco, ao ceder às tentações externas e debitar na conta da carne.

A minh´alma está perdida e precisa de Salvador... Aliás, não só de Salvador, mas da Bahia inteira.

Em alguns momentos, um vagabundo se esforça tanto para não trabalhar, que o seu esforço acaba sendo mais trabalhoso do que o trabalho.

IMORTAL ATÉ MORRER

O tempo é uma tampa sobre o passado. Ninguém nunca retorna dessa rampa eterna. Sequer acampa sobre o presente, pois esse logo não é. Vira passado, e o presente já é outro. Somente o futuro continua lá; sempre lá, desafiando nossa caminhada.
Uma vida é simplesmente o joio por entre o trigo, no campo das vivências que a cada dia nos impõe. Cá comigo, afirmo que a mesma é joia rara. Se acaso nos causa uns arranhões, alguns graves, morrer não ganha minha questão. Não tem como ganhar.
É que o mundo é franco. Preto no branco. Mas muitas vezes dá um branco em meu preto e não resta fundo. Mesmo assim vou à frente, porque o tempo não pode me tampar. Tomei a decisão de apostar na imortalidade que o sonho empresta.
No fim das contas, nossa imortalidade é provisória. Por isso temos que aproveitá-la e não morrer enquanto a morte não chega.

Remunerados ou não, somos todos cabos eleitorais de nossos candidatos preferidos em campanhas... Mas durante os mandatos dos eleitos podemos deixar de ser apenas cabos, para nos tornarmos vassouras dispostas a varrê-los do poder, quando necessário.

PRECE DOS DESESPERADOS

Pão nosso do dia sim dia não. Não nosso de cada dia. Na busca do que é nosso, esse desespero de cada pão. Mãos nossas que apertam nossas cabeças na fome de cada passo. Dor nossa de cada soco da polícia, morte nossa de cada dia entre as grades. Quando não das cadeias, de realidades mais amargas ainda.
Emprego de cada placa de não há vaga. Vaga de cada emprego reservado a outro. Desemprego nosso de cada chance negada por faltar currículo... Currículo insuficiente nosso, por educação escassa. Escola sofrível de cada dia, pois o dia a dia do poder o assusta, mostrando como seria um país bem educado.
Pai nosso de cada prece que já perde a fé. Prece de cada laivo do instinto que busca um deus inútil. Igreja nossa de cada culto que distorce a vida e leva o quase nada que nos resta. Restos nossos de uma dignidade roubada por todos os lados, numa sociedade cercada por quadrilhas legais.
Destino! Por favor, caro destino! Tira-nos da margem desta sociedade marginal por natureza! Orienta-nos a mudar o mundo a partir dos nossos filhos! Cura em nós as mordidas desta vida cadela e nos mostra o caminho do pão, da educação, da cultura e da saúde física, emocional e psíquica! Queremos de volta nossa cidadania!