Coleção pessoal de ClayWerley
Amor de mãe - (Clay Werley)
Leve como uma brisa...
onda que quebra indomável,
lua que reluz inalcançável...
Tempestade que não me avisa.
Presença que cuida e realiza,
voz que ecoa incontestável,
constrói confiança inabalável,
sem ônus de contrapartida...
Da história és o começo...
Meu espelho de como ser,
dona de todo o meu apreço...
Consciência a resplandecer,
a me moldar desde meu berço!
Farol que guia o meu viver.
O abstrato mito do silêncio absoluto
Um dia resolvi contemplar o silêncio absoluto,
queria saber o que estaria além de tudo o que escuto,
determinado contra os barulhos do mundo me isolei,
em um ambiente de total isolamento acústico tentei.
Surpreendentemente meu objetivo não pude alcançar,
impedido por sons sincronizados de meu respirar;
tomei fôlego, prendi a respiração, tentei novamente;
e percebi o quanto a tentativa se mostrava incoerente.
Talvez tal silêncio seja incompatível com a vida;
já que esta é movimento, respiração, pulsação;
estagnação vital é algo insustentável e sem medida.
Talvez a morte seja este silêncio em real definição...
Pois em vida não passa de sentença desmentida,
refutada por compassadas batidas; do meu coração.
O invasor
Olhares de fúria e perplexidade...
Um menear de cabeças, não o queriam ali...
Que desrespeito!, ele tem que sair!
Absurdo! respeitem nossa identidade!
Faces que exalam ódio... E a verdade
que pulsa é a vontade de lhe agredir,
em ação rápida, o foragido estás a partir,
envolve a prole e parte em velocidade...
Encara a vergonha, suporta o fadário...
Mais uma daquelas dores que ninguém vê,
um rito comum, um desprezo diário...
No banheiro feminino, acabou de suceder,
um pai usando o espaço do fraldário
hostilizado ao trocar a fralda do seu bebê.
Onicofagia
Na fronteira extrema da tensão,
assume caráter destrutivo...
onde tédio é berço cativo,
de ansiedade e depressão...
Válvula de fuga em momentos de pressão,
tendo como princípio ativo,
um instinto férreo e corrosivo,
que em tais horas suplanta a razão...
A angustiante espera por definição,
inunda o ambiente opressivo,
até que surja alguma solução...
Que modifique o clima apreensivo,
e então, os dedos feridos da mão,
serão prova de que ainda estarei vivo
Soneto abusivo
Pare de frescura e leia logo esse poema!
Mas dessa vez, ao menos vê se lê direito!
Leia... Sem essa de querer procurar defeito!
E vê se dessa vez, ao menos se atente ao tema!
Sem melindre, ninguém tá nem ai pro seu problema,
te falo verdades pro seu bem... Não por desrespeito...
Eu te amo... Entenda que esse é meu jeito!
Faço tudo por você! A verdade lhe ferir é meu dilema.
Não venha com choramingos, choramingar choramigalhas!
Apesar de você ser assim: lerdinha... Cá estou eu...
Convivendo e perdoando suas inúmeras falhas!
Nunca faz nada direito, depois reclama do que colheu...
Então faça o que eu mando, sem usar desculpas canalhas!
E quem não gostou do texto... Certamente nele se reconheceu.
O candidato
Lá vai ele, parece bem disposto;
trajando um terno super alinhado
em contraste ao suvaco suado,
Sem perder o sorriso no rosto!
Afundou o pé na lama com gosto!
Talentoso, parece bem adaptado,
cada gesto um disfarce calculado,
a atenuar seu privilégio exposto...
Diz entender da vida sofrida...
Se afirma gente como a gente!
Se diz dos nossos! Pra toda vida!
Mas tudo soa tão incoerente...
Se não ostenta restos de comida
presos nos buracos do dente.
Auto-psicossociologia
Espero que não me leve a mal...
O poeta, fingidor por natureza,
tem nas palavras tal destreza
de, sem ser, tornar-se pessoal...
Suas dores: cálculo intencional,
destilam lâminas com sutileza,
e nos conduzem, sem defesa,
à própria incisão emocional...
O mero comum intelectualizado,
sangra versos que julga seus,
e unge o próprio ego exaltado...
E o poeta ri... Artífice dos véus...
vê-se no espelho do flagelado
e brinda, frio, ao caos que ergueu.
Utopia de vida
Pôr do sol.
Laranja no céu.
O mar repete.
Clichê.
É alma na poesia.
Na mesa de café, não.
Estou apaixonado.
E isso falha.
Elegância ao rejeitado.
É o que se espera.
O sol some.
Caminho sem direção.
Arcaico.
A noite cobre.
Nenhum direito ao belo.
Nem estrelas.
Incertezas não rondam.
Atacam.
Frio.
Estranho.
Um riso curto.
Deboche.
Enterro da alegria.
Passos lentos.
Sem destino.
Mais um dia igual.
Eu igual.
Arcaico.
Quis um amor.
Recebi linguagem.
e só.
Mar branco
Em tempos difíceis, cada irmão é um alento...
Naufragamos, fomos dragados ao inferno;
Nunca sozinhos! pois não há mal eterno
capaz de apagar o legado que ostento.
A paixão não nos cega ao discernimento,
nem o novo apaga o que é eterno;
a indignação do tempo moderno,
é não denegrir o clássico em movimento.
Assim que nos vemos, cada qual um irmão!
Emergindo juntos das profundezas,
buscando retomar nossa real vocação
de embalar façanhas, conquistas e proezas...
A esperança deixa de ser um surrado jargão,
e a lágrima da vitória reflete em branco sua beleza.
