Clay Werley

Encontrados 12 pensamentos de Clay Werley

O Ser pobre


Ser pobre é acordar e saber
Que aquela dorzinha de dente
latejando de forma intermitente
desde ontem ao amanhecer


Aos poucos fará parte do teu ser
a todo instante estara presente
até se tornar quase inconsciente
macabeiada por assim dizer


Essa dor que a própria vida afiança
para que todo destino prevaleça
além de onde a vista alcança


A fé e a coceirinha na cabeça
seguem adquiridas como herança
alheias a tudo o que aconteça.

Inserida por ClayWerley

Unidade prisional lexical


Chico foi preso,
encaminhado ao pavilhão A.


Chegando lá,
em seu primeiro banho de sol,
encontrou no pátio
o criado-mudo, o crioulo,
o cabelo de bombril...


Havia também o mongoloide,
o retardado.


Em um outro grupo estavam:
o indio, o baiano, o paraíba, o cabeça chata...


E soube que no pavilhão B, feminino,
estavam a nega maluca, a inveja branca, a polaca... todas reclamando de superlotação...


A humanidade cada vez mais culpabilizando as palavras.


Chico se dizia inocente.
Não entendia ter sido usado
como locução adverbial...


Até outro dia
era considerado nome próprio.

Inserida por ClayWerley

Mar branco


Em tempos difíceis, cada irmão é um alento...
Naufragamos, fomos dragados ao inferno;
Nunca sozinhos! pois não há mal eterno
capaz de apagar o legado que ostento.


A paixão não nos cega ao discernimento,
nem o novo apaga o que é eterno;
a indignação do tempo moderno,
é não denegrir o clássico em movimento.


Assim que nos vemos, cada qual um irmão!
Emergindo juntos das profundezas,
buscando retomar nossa real vocação


de embalar façanhas, conquistas e proezas...
A esperança deixa de ser um surrado jargão,
e a lágrima da vitória reflete em branco sua beleza.

Utopia de vida

Pôr do sol.
Laranja no céu.
O mar repete.

Clichê.

É alma na poesia.
Na mesa de café, não.
Estou apaixonado.

E isso falha.

Elegância ao rejeitado.
É o que se espera.

O sol some.
Caminho sem direção.

Arcaico.

A noite cobre.
Nenhum direito ao belo.
Nem estrelas.

Incertezas não rondam.
Atacam.

Frio.
Estranho.
Um riso curto.
Deboche.
Enterro da alegria.

Passos lentos.
Sem destino.

Mais um dia igual.
Eu igual.
Arcaico.

Quis um amor.
Recebi linguagem.
e só.

Auto-psicossociologia

Espero que não me leve a mal...
O poeta, fingidor por natureza,
tem nas palavras tal destreza
de, sem ser, tornar-se pessoal...

Suas dores: cálculo intencional,
destilam lâminas com sutileza,
e nos conduzem, sem defesa,
à própria incisão emocional...

O mero comum intelectualizado,
sangra versos que julga seus,
e unge o próprio ego exaltado...

E o poeta ri... Artífice dos véus...
vê-se no espelho do flagelado
e brinda, frio, ao caos que ergueu.

O candidato


Lá vai ele, parece bem disposto;
trajando um terno super alinhado
em contraste ao suvaco suado,
Sem perder o sorriso no rosto!


Afundou o pé na lama com gosto!
Talentoso, parece bem adaptado,
cada gesto um disfarce calculado,
a atenuar seu privilégio exposto...


Diz entender da vida sofrida...
Se afirma gente como a gente!
Se diz dos nossos! Pra toda vida!


Mas tudo soa tão incoerente...
Se não ostenta restos de comida
presos nos buracos do dente.

Soneto abusivo


Pare de frescura e leia logo esse poema!
Mas dessa vez, ao menos vê se lê direito!
Leia... Sem essa de querer procurar defeito!
E vê se dessa vez, ao menos se atente ao tema!


Sem melindre, ninguém tá nem ai pro seu problema,
te falo verdades pro seu bem... Não por desrespeito...
Eu te amo... Entenda que esse é meu jeito!
Faço tudo por você! A verdade lhe ferir é meu dilema.


Não venha com choramingos, choramingar choramigalhas!
Apesar de você ser assim: lerdinha... Cá estou eu...
Convivendo e perdoando suas inúmeras falhas!


Nunca faz nada direito, depois reclama do que colheu...
Então faça o que eu mando, sem usar desculpas canalhas!
E quem não gostou do texto... Certamente nele se reconheceu.

Onicofagia


Na fronteira extrema da tensão,
assume caráter destrutivo...
onde tédio é berço cativo,
de ansiedade e depressão...


Válvula de fuga em momentos de pressão,
tendo como princípio ativo,
um instinto férreo e corrosivo,
que em tais horas suplanta a razão...


A angustiante espera por definição,
inunda o ambiente opressivo,
até que surja alguma solução...


Que modifique o clima apreensivo,
e então, os dedos feridos da mão,
serão prova de que ainda estarei vivo

O invasor


Olhares de fúria e perplexidade...
Um menear de cabeças, não o queriam ali...
Que desrespeito!, ele tem que sair!
Absurdo! respeitem nossa identidade!


Faces que exalam ódio... E a verdade
que pulsa é a vontade de lhe agredir,
em ação rápida, o foragido estás a partir,
envolve a prole e parte em velocidade...


Encara a vergonha, suporta o fadário...
Mais uma daquelas dores que ninguém vê,
um rito comum, um desprezo diário...


No banheiro feminino, acabou de suceder,
um pai usando o espaço do fraldário
hostilizado ao trocar a fralda do seu bebê.

O abstrato mito do silêncio absoluto


Um dia resolvi contemplar o silêncio absoluto,
queria saber o que estaria além de tudo o que escuto,
determinado contra os barulhos do mundo me isolei,
em um ambiente de total isolamento acústico tentei.


Surpreendentemente meu objetivo não pude alcançar,
impedido por sons sincronizados de meu respirar;
tomei fôlego, prendi a respiração, tentei novamente;
e percebi o quanto a tentativa se mostrava incoerente.


Talvez tal silêncio seja incompatível com a vida;
já que esta é movimento, respiração, pulsação;
estagnação vital é algo insustentável e sem medida.


Talvez a morte seja este silêncio em real definição...
Pois em vida não passa de sentença desmentida,
refutada por compassadas batidas; do meu coração.

Amor de mãe - (Clay Werley)


Leve como uma brisa...
onda que quebra indomável,
lua que reluz inalcançável...
Tempestade que não me avisa.


Presença que cuida e realiza,
voz que ecoa incontestável,
constrói confiança inabalável,
sem ônus de contrapartida...


Da história és o começo...
Meu espelho de como ser,
dona de todo o meu apreço...


Consciência a resplandecer,
a me moldar desde meu berço!
Farol que guia o meu viver.

A flor da Antártida - (Clay Werley)


Em mais um dia que se passa,
eu não consigo ler Camões...
Mais uma tentativa fracassa
no cotidiano e seus padrões...
Eu, inserido nessa desgraça...
Sigo acorrentado a grilhões
e o biltre sistema comemora
exitoso, exultante por agora...


Segue o fiar da ampulheta
nem nela tenho uma aliada,
mais uma hedionda faceta
ter a consciência aviltada,
esquecer sonhos na gaveta
ter toda esperança roubada,
um resilir que, de tanto, já nem dói;
forja rmór de todo anti-herói...


Que emerge em meio ao nada
no fugaz berço do improvável...
Fazendo do caos sua morada
na qualidade de ser adaptável,
frustrando a norma instaurada
constrangedor e Indesejável...
Um anticarismático apátrida,
a subversiva flor da Antártida!