Coleção pessoal de Claudineidias
Se meditarmos sobre o estado no qual nos encontramos, ficaremos diante de dois abismos: podíamos estar em condições melhores, como também podíamos estar em condições infinitamente piores. Numa escala de comparações veremos que poderíamos ser bem mais felizes do que somos ou ainda mais desgraçados do que julgamos ser.
A verdade é que se uma pessoa não se bastar, não viver por si própria e para si mesma, sempre terá motivos para se sentir vazia, pois esperar amor, bondade ou compreensão dos outros é perda de tempo. Embora a vida de uma pessoa esteja interligada a dos demais, no fim das contas é cada um por si e Deus por todos, isto é, tem problemas que nem a nossa família pode resolver por nós...Se não encontrarmos uma resposta à nossas inquietações em nós mesmos, não a encontraremos em lugar nenhum.
Eu costumo pensar o seguinte: toda vez que nos sentirmos mal pensando que estamos ficando velhos e não conquistamos nada, devemos nos lembrar das pessoas que morreram mais novas do que nós e que independente de terem ou não um futuro promissor, tudo acabou ali. Nós por estarmos vivos estamos em infinita vantagem sobre elas, pois ainda temos aberta a porta para todas as possibilidades, cuja condição mínima é viver.
É curioso como são as coisas: precisamos nascer para descobrir que a vida é ruim. Mas se os nossos pais tivessem percebido isto e não tivessem nos colocado no mundo, teriam nos poupado de todo o trabalho de constatação...
Quando se acabam os nossos estoques de escapismos, já não temos para onde fugir nem como escapar da realidade, só nos resta encará-la.
Se as portas do mercado de trabalho estão fechadas para os jovens, as do mundo do crime estão abertas.
Eu imagino um mundo onde todos os pobres voluntariamente parassem de ter filhos, pensando no bem dos mesmos, e só restassem os ricos: seria questão de tempo para que os "mauricinhos" e as "patricinhas" tivessem que fazer o serviço tido por desprezível, indigno e humilhante que os filhos dos pobres faziam. Num mundo sem pobres, quem teria que limpar o chão, varrer as ruas, coletar o lixo? Todos os filhos dos que hoje estão confortáveis em suas poltronas, debaixo da sombra e ar-condicionado.
Não podendo quebrar os recordes positivos, só nos restam os negativos: Nos tornarmos recordistas do fracasso, campeões do insucesso.
O que sinto não pode ser expressado em palavras. Teria que criar um novo vocabulário para exprimir toda a dor, raiva, tédio e cansaço que carrego.
Toda a dor é tolerável desde que não exceda, não ultrapasse, não esteja para além dos limites do suportável.
