Coleção pessoal de CaryBertazzoni_
A vida é uma constante oscilação entre o prazer e o sofrimento, sendo o prazer apenas a ausência temporária do sofrimento. A tristeza, portanto, não é um estado excepcional, mas sim a condição normal da existência, segundo Schopenhauer. Desde de a infância somos orientados a “engolir” o choro, na vida adulta mascaramos ele com remédios, vícios em drogas, jogos ou alcoolismo e também com a religião. Todos os dias vestimos máscaras sociais que nos impedem de sentirmos a angústia de forma reflexiva. Somos projetados na felicidade alheia, sem ter tempo de saber qual a nossa de verdade, e nisso vamos conquistando coisas, pessoas e lugares que não se encaixam no nosso mundo. Como poder ter um momento melancólico existencial sem ser chamado depressivo, estranho ou “carente”? A solidão é a dádiva dos pensantes, um universo de possibilidades. Se você vive em um mundo de aceitação total das coisas, não consegue observar verdadeiramente a vida. Essa contemplação começa dentro de si, no momento de estar em paz consigo mesmo.
Tem felicidade
que não cabe em legenda,
nem precisa ser entendida.
Às vezes ela mora
num caminho repetido,
numa música antiga,
na xícara esquecida ao lado da cama,
ou naquele silêncio
que só você sabe traduzir.
O mundo sempre tenta dar nome
ao que sentimos
mas existem alegrias
que nasceram para não ser explicadas.
Coisas pequenas, estranhas, íntimas.
Detalhes que ninguém percebe,
mas que acendem algo aí dentro
como contemplar um fim de tarde.
E tudo bem
se não fizer sentido para mais ninguém.
Porque felicidade de verdade
não precisa convencer o mundo.
Só precisa encontrar você.
No varal da manhã
o sol pendura pressa,
o café esfria aos poucos
entre mensagens e promessas.
A cidade acorda em passos,
ônibus, buzinas, sinais,
cada rosto carregando
tempestades pessoais.
Tem quem sorria no automático,
quem esconda o cansaço no olhar,
quem encontre um minuto de paz
vendo a chuva começar.
O cotidiano faz barulho,
mas acontece devagar:
na música tocada
num abraço não dado
na saudade que aparece
sem pedir licença pra ficar.
E mesmo nos dias iguais,
onde nada parece mudar,
a vida costura pequenos milagres
nos detalhes que ninguém vê passar.
