Coleção pessoal de ca_e_dan_gameiro

Encontrados 10 pensamentos na coleção de ca_e_dan_gameiro

O Sertão Dentro de Mim


O sertão que eu trago
não tá no mapa


ele mora em mim


nas partes em que a palavra
não cabe


onde o silêncio
diz sim


Tem dia
que sou chão rachado


pedra dura
pó e calor


onde a lágrima
não escorre


mas queima
o peito
e a dor


Mas foi na seca
que eu vi brotar


meu fio d’água
escondido


milagre pequeno
e teimoso


me mantendo vivo


Já tive sede de afeto


sede de mim
de abrigo


mas aprendi
com o deserto


que a falta
também é amigo


O sertão que vive em mim
é duro


mas quer crescer


porque o amor
que nasce da dor


ninguém mais
pode deter.

Carina Gameiro

Há coisas acontecendo
aqui dentro de mim:
um tecer das minhas
próprias tramas.

A delicadeza sempre tem o
poder de florescer em
pétalas de amor.

Anatômico


A vida que se faz entre os ventrículos
urgência silenciosa


um motor cego,
engenharia bruta sem licença,
transmuta o mundo sem sossego


Houve o silêncio,
o quase,
o não querer,
a porta estreita


o sopro hesitou
mas o sangue,
rio teimoso no dever,
insiste, insiste


em canais apertados encontra caminho


Milagre pesado,
sem seda, sem ornamento


batida seca contra a grade das costelas


uma aposta alta
onde a alma não cede,
não cede,
e acende no escuro
as próprias velas


O átrio recebe o medo,
o ventrículo devolve vida,
gramática de carne indizível


Pela fresta da pálpebra
a dor cedeu


e o soco do peito bate, bate, bate
até fabricar luz.



Carina Gameiro

A Doce Mordida


Morder a maçã do conhecimento
é assumir que o paraíso
não existe fora de nós.


A lucidez, ainda que nos liberte,
nos arranca para sempre da inocência.


Talvez por isso a loucura
tenha a sua própria
e secreta beleza de existir.

E se...

E se poeta
eu não fosse,
me amaria
mesmo assim?


E se eu chegasse
sem palavra alguma,
só um silêncio
imperfeito?


E se em mim
houvesse apenas
essa feiura
feita rachadura?


Ainda assim
me tocaria
onde sou
imperfeita?

Carina Gameiro

Sou tua


Sou tua mais que fui de mim outrora.


Algo em mim, secreto e tão profundo,
ao ver-te, abandonou seu próprio mundo
e em teu olhar fez sua morada.


Sou tua por amor
e por querer.


Se me busco, volto a te encontrar:
que já não sei se vivo em mim
ou se apenas respiro
em te amar.

Talvez doa lembrar
dos primeiros erros,
mas é preciso
reconhecer.

Foi caminhando que
você se tornou quem é.

Cada passo do passado
até os tortos, te trouxe
até aqui, inteiro e belo.

Vivo de encantamentos simples: um sopro de vento, um pôr do sol, uma vontade bonita de ser feliz.

⁠Meu deserto guarda estrelas que ninguém vê.