Carina Gameiro
Talvez doa lembrar
dos primeiros erros,
mas é preciso
reconhecer.
Foi caminhando que
você se tornou quem é.
Cada passo do passado
até os tortos, te trouxe
até aqui, inteiro e belo.
Sou tua
Sou tua mais que fui de mim outrora.
Algo em mim, secreto e tão profundo,
ao ver-te, abandonou seu próprio mundo
e em teu olhar fez sua morada.
Sou tua por amor
e por querer.
Se me busco, volto a te encontrar:
que já não sei se vivo em mim
ou se apenas respiro
em te amar.
E se...
E se poeta
eu não fosse,
me amaria
mesmo assim?
E se eu chegasse
sem palavra alguma,
só um silêncio
imperfeito?
E se em mim
houvesse apenas
essa feiura
feita rachadura?
Ainda assim
me tocaria
onde sou
imperfeita?
Carina Gameiro
A Doce Mordida
Morder a maçã do conhecimento
é assumir que o paraíso
não existe fora de nós.
A lucidez, ainda que nos liberte,
nos arranca para sempre da inocência.
Talvez por isso a loucura
tenha a sua própria
e secreta beleza de existir.
Anatômico
A vida que se faz entre os ventrículos
urgência silenciosa
um motor cego,
engenharia bruta sem licença,
transmuta o mundo sem sossego
Houve o silêncio,
o quase,
o não querer,
a porta estreita
o sopro hesitou
mas o sangue,
rio teimoso no dever,
insiste, insiste
em canais apertados encontra caminho
Milagre pesado,
sem seda, sem ornamento
batida seca contra a grade das costelas
uma aposta alta
onde a alma não cede,
não cede,
e acende no escuro
as próprias velas
O átrio recebe o medo,
o ventrículo devolve vida,
gramática de carne indizível
Pela fresta da pálpebra
a dor cedeu
e o soco do peito bate, bate, bate
até fabricar luz.
Carina Gameiro
O Sertão Dentro de Mim
O sertão que eu trago
não tá no mapa
ele mora em mim
nas partes em que a palavra
não cabe
onde o silêncio
diz sim
Tem dia
que sou chão rachado
pedra dura
pó e calor
onde a lágrima
não escorre
mas queima
o peito
e a dor
Mas foi na seca
que eu vi brotar
meu fio d’água
escondido
milagre pequeno
e teimoso
me mantendo vivo
Já tive sede de afeto
sede de mim
de abrigo
mas aprendi
com o deserto
que a falta
também é amigo
O sertão que vive em mim
é duro
mas quer crescer
porque o amor
que nasce da dor
ninguém mais
pode deter.
Carina Gameiro
SOBRE AS ÁGUAS
Dizem frágil o que flutua,
Julgam casca o que é raiz.
Mas a água que me embala
Sabe bem o que eu fiz.
Lavo as dores nas correntezas,
Sem pressa de me encontrar.
Minha leveza é o manto
Que escolhi para me guiar.
Não me decifre pelo traço,
Nem me limite ao olhar.
Sou o mistério que acolhe
Quem tem coragem de mergulhar.
Doce segredo,
Manso jeito de existir.
Quem vê apenas a superfície
Não me vê expandir.
Porque o rio que me atravessa
Já não corre como ontem.
Levo mundos sob as águas
Que nem todos podem ver.
Carina Gameiro
Eu brindo. Sou muito além do que se vê. Quem me olha na superfície julga ver apenas uma silhueta frágil na correnteza, mas há uma doçura secreta em flutuar. Minha leveza não é fraqueza, é o jeitinho manso que encontrei de carregar minhas tristezas e incertezas. Não tente me decifrar; apenas sinta a essência da vida que me move. Sou um mistério que não quer assustar, mas sim abraçar quem também tem coragem de mergulhar no profundo.
FRIDA, FOGO E CARNE
por Carina Gameiro
Frida não pediu permissão.
Fez da dor um estúdio,
do sangue um pincel,
e da alma, uma obra-prima.
Ela não amou leve.
Amou até quebrar os ossos,
até confundir amor e abismo,
até se tornar a própria pintura viva.
Chamaram de intensa,
mas era apenas verdade demais
para caber em molduras pequenas.
Frida era o grito que o mundo engoliu.
A flor que cresceu sob escombros.
O espelho que não mentia,
e por isso, revelava.
Ela não teve medo de ser humana,
nem de ser divina.
Fez do corpo o altar e a ferida,
do amor a ruína e o renascimento.
Frida era mulher antes de ser mito.
Era fogo, era carne, era cor.
E ainda hoje,
quando o medo tenta me domesticar,
eu escuto sua voz rasgando o ar:
“Pés, para que os quero,
se tenho asas para voar?”
Odisseia Terrestre e Sagrada
Minha odisseia é terrestre e sagrada.
Sou apenas uma pequena entre as Evas,
aprendendo a florescer
meu próprio jardim.
Recolho do barro
a parte de mim
que o tempo julgou indigna.
Sob as unhas,
a terra guarda
a divindade.
Toda flor
nasce depois
de uma longa conversa
entre a raiz e a escuridão.
Não temo o inverno.
Se trago cicatrizes,
que sejam sulcos.
É neles
que a primavera
encontra morada.
Carina Gameiro
