Coleção pessoal de antenor

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Soneto da Doce Renda

​Quero a beleza, que me dá tristeza
Essa que passa e que não faz demora
Que tem o dom de me deixar na mesa
A sós com o vinho, vendo o frio lá fora.

​Quero a mulher que seja como o fado
Mistura de agonia e de ternura
Que me devolva o coração quebrado
E me perdoe por tamanha cura.

​Pois só no traço desse amor bendito
É que o poeta encontra o seu grito
E justifica a dor de estar vivendo.

​Vem, minha amiga, derramar teu pranto
Que eu faço dele o meu melhor canto
Enquanto a vida vai se consumindo.

O teu Beijo


É um jeito de te querer que não pede licença,
que entra pelos poros,
que se faz urgência na ponta dos dedos
e calmaria no centro do peito.
​Eu te amo com a simplicidade das coisas essenciais,
como a luz que reconhece o dia
ou o mar que, em seu eterno retorno,
beija a areia com a mesma sede do primeiro encontro.
​Não quero te possuir,
quero apenas habitar o teu espaço,
ser a testemunha silenciosa das tuas manhãs,
o lugar onde você pode pousar o cansaço
e se permitir ser, finalmente, inteira.
​Você é o meu verso mais bonito,
o poema que eu não precisei escrever,
porque a vida — essa artífice de milagres —
já te desenhou inteira no meu destino.
​E se o amor é o esforço de dois seres
para serem um, sem deixarem de ser dois,
então que a nossa união seja esta valsa lenta,
onde o passo é o teu corpo,
e a música, enfim,
é o silêncio que a gente constrói quando se olha.