Coleção pessoal de andresaut
Abraços não mofam.
Eles resistem ao tempo. Não se estragam, não vencem, não perdem valor.
Um abraço guardado na memória aquece até décadas depois. É o presente que nunca se deteriora.
Saudade é falta de iniciativa.
Muitas vezes o que chamamos de saudade é apenas a ausência de um gesto. Bastaria uma ligação, um encontro, uma palavra.
A iniciativa transforma distância em presença. Quem age, reduz a saudade a quase nada.
A vida é breve: aproveite.
Cada instante é um presente que não se repete. A vida é feita de relâmpagos: passa rápido demais para ser desperdiçada.
Aproveitar é estar inteiro no agora, sem adiar alegrias. Porque o amanhã nunca é garantido.
Para escalar a vida não é preciso cordas, basta a mão de um amigo.
Porque há montanhas que não aparecem no mapa. Elas surgem dentro do peito. São feitas de medo, de cansaço, de silêncio acumulado.
E a gente tenta subir sozinho.
Procura técnicas, livros, fórmulas, atalhos. Amarra nós imaginários na própria coragem. Finge que sabe escalar o que nunca foi treinado.
Mas a vida não é parede de pedra. É travessia de afeto.
Quando o terreno fica íngreme demais, quando os pés escorregam nas próprias dúvidas, não é a força do braço que salva. É o calor de outra mão segurando a nossa.
Amigo não é quem sobe por você. É quem sobe junto. Quem respira no mesmo ritmo. Quem diz calma quando o mundo inteiro parece gritar pressa.
Há mãos que são mais firmes que cordas, mais seguras que qualquer equipamento, porque são feitas de presença.
E presença é o que impede a queda de virar abismo.
No fim, a montanha continua alta. O vento continua forte. Mas quando a gente sente que não está só, até o medo aprende a ter menos altura.
Escalar a vida é isso. Não é chegar ao topo sozinho. É descobrir que a amizade transforma precipícios em caminhos compartilhados.
E às vezes a maior conquista não é alcançar o cume. É perceber que alguém escolheu segurar a sua mão justamente quando você achava que precisava provar que conseguia sozinho.
Nem todo silêncio quer resposta.
Descansar não é desistir, é recarregar o humano.
Há dias em que sobreviver já é produção suficiente.
O corpo também pensa, só mais devagar.
Às vezes a melhor ideia é não ter nenhuma hoje.
Pensamentos na Roda de Chimarrão
A roda de chimarrão se forma sem aviso. Um chega, outro puxa a cadeira, alguém esquenta a água. Quando se percebe, o tempo já diminuiu o passo e ninguém sente falta da pressa.
Na roda de chimarrão sempre tem quem fale menos. Não é silêncio vazio, é escuta. A cuia vai e volta, e junto dela um pensamento que ainda não terminou.
O silêncio na roda de chimarrão nunca constrange. Ele se senta junto, toma um mate e fica. Às vezes diz mais que a conversa inteira.
Tem roda de chimarrão que começa leve e, sem combinar, vai ficando funda. Quando vê, alguém falou de infância, outro de ausência, e ninguém tentou consertar nada.
A roda de chimarrão mostra o ritmo de cada um. Tem quem devolva a cuia rápido, tem quem demore. Ninguém apressa. O mate não gosta disso.
Na roda de chimarrão se encontram pessoas que talvez não se encontrassem em outro lugar. Ali, todo mundo bebe do mesmo amargo e isso iguala.
Algumas conversas só existem na roda de chimarrão. Fora dali não teriam espaço, nem clima. São feitas do vapor da água e da confiança que se cria sem anúncio.
Quando alguém chega atrasado na roda de chimarrão, a roda abre. Não precisa pedir licença. A cuia já sabe o caminho.
Tem roda de chimarrão em que ninguém resolve nada. E mesmo assim todo mundo sai melhor do que entrou. Resolver nunca foi o objetivo.
Na roda de chimarrão, a ansiedade vai ficando menor a cada gole. Não some, mas aprende a sentar e esperar.
Sempre tem uma risada que nasce do nada na roda de chimarrão. Não é piada ensaiada, é convivência se reconhecendo.
A roda de chimarrão não cobra explicação. Quem fala pouco fica. Quem fala demais também. O mate não mede ninguém.
Tem histórias que se repetem na roda de chimarrão. E ninguém reclama. Porque não é a história que importa, é quem está contando de novo.
Quando a água esfria na roda de chimarrão, alguém levanta e esquenta de novo sem dizer nada. Cuidar ali é gesto pequeno.
Às vezes a roda de chimarrão fica só no som da bomba. Ninguém se incomoda. Aquilo também é conversa.
A roda de chimarrão ensina que dá pra discordar e continuar sentado. A cuia passa mesmo assim.
Tem roda de chimarrão curta. Alguém precisa ir, outro chega só pra um mate. Mesmo assim valeu.
A cuia passa por mãos diferentes na roda de chimarrão e nunca muda. O que muda é o jeito de segurar.
Quando a roda de chimarrão termina, ninguém anuncia. Ela se desfaz como coisa viva, deixando um resto de calma no ar.
No fim, a roda de chimarrão não é sobre o mate. É sobre estar. O resto acontece sem esforço.
Alguns dizem que o fruto não cai longe do pé.
Mas a semente voa.
Vai com o vento,
vai no bico dos pássaros,
vai rolando sem saber exatamente onde vai parar.
Às vezes encontra um chão bom.
Outras vezes, não.
E está tudo certo.
Quando encontra, nasce.
Vira broto, depois árvore.
Dá flor, dá fruto.
E o ciclo segue, quietinho, fazendo o que sabe fazer.
A vida é assim.
Simples.
Delicada.
Tentativa.
Nem toda chuva ajuda.
Tem chuva que cuida.
Tem chuva que leva embora.
Nem todo vento espalha.
Tem vento que só passa.
Tem vento que machuca.
Talvez a gente não precise ser grande demais.
Nem forte demais.
Nem certo demais.
Talvez baste ser um pouco mais suave.
Um pouco mais atento.
Um pouco mais presente.
Ser como a chuva boa.
Que molha sem machucar.
Como o vento leve.
Que passa e deixa espaço.
E deixar a vida fazer o resto.
