Coleção pessoal de AlmaViolada
O reconhecimento dos incapazes é a censura disfarçada.
Prefiro o desprezo sincero dos simplórios
à aprovação mentirosa que mancha o que sou.
A vaia, ao menos, não pede que eu me rebaixe a ser compreendido.
Há um cárcere pior que a solidão:
É o corpo que respira contra a vontade da alma que já se apagou.
Maldito quem é dono de um coração que bate
e de um espírito que já assinou sua rendição,
sem permissão para que um silêncio definitivo
sepulte o que a vida já consumiu.
Amei como uma pergunta, exigindo uma resposta. Esqueci que o amor verdadeiro é um verbo sem objeto indireto.
Um fantasma sabe que é um fantasma.
Eu nem essa certeza tenho.
Será que fui sequer um susto passageiro,
um arrepio na sua tarde?
Ou fui como o ar que você respirou
e nunca percebeu?
Até para ser uma lembrança ruim
é preciso ter deixado marca.
E você me nega até isso:
o privilégio amargo
de ter sido uma má lembrança.
Fui o nada que nem como nada
foi lembrado.
Palavras me elevam a um pedestal.
Ações me mostram a escada: um estranho sobe, eu desço.
O tempo que você nega a um laço antigo é a tradução definitiva do meu verdadeiro lugar na sua vida.
A espiritualidade moderna é líquida: escorre pelo cano digital do cartão de crédito. Dar gorjeta no Uber é o novo ato de fé: rápido, indolor e com recibo.
Já estou morto, mas não há sangue nem uma cena do crime. Já estou morto, mas ninguém percebeu — e nunca irá perceber. Por dentro, já sou vazio; minha alma se esgotou. Meus olhos perderam o brilho, e minha mente encontra-se no limite. Minha decomposição já se iniciou, não a da pele ou dos órgãos, mas a da minha pura e única essência. Estou lentamente me esvaindo, perdendo de mim mesmo, sem poder fazer nada além de espectar o meu próprio sofrimento lento, duradouro e mortal."
Falham os rótulos que tento carregar. Não encontro em mim a arquitetura de um bom filho,a paciência de um namorado, a constância de um amigo. Nem mesmo o título de 'melhor amigo' me assenta; é um manto pesado para ombros que não sabem sustentá-lo.
Na matemática dos afetos, sou uma equação mal-resolvida. Um primo distante, um irmão ausente mesmo estando presente, um aluno cuja mente é um território de dispersão.
Não sou um porto seguro; sou um mar em tempestade permanente. A verdade que resta,nua e crua, é que não sou 'alguém bom' no catálogo do mundo.
Sou apenas um humano. Um aglomerado de tentativas e falhas,oferecendo aos outros o pouco que consegue juntar de si — um punhado de areia molhada, na esperança vã de que consigam construir algo sólido sobre ele.
Falecer é para a ciência, é uma página virada no livro da biologia. Morrer é para a alma, é uma biblioteca inteira que pega fogo. A conexão é a fumaça que nos faz chorar — o sinal visível de que algo invisível se foi.
“Sou o ponto onde todas as posições se desfazem, a recusa que não cabe nem no nome de recusa. Não estou dentro nem fora, sou o fora que não é lugar, o silêncio que não é ausência, o vazio que não pode ser preenchido porque não pode ser tocado. Sou a borda do mapa que não existe, o traço que se apaga antes de ser traçado, a impossibilidade erguida como única forma de presença.”
Não existem finais felizes... porque nunca existiram começos felizes. Existimos apenas no verbo 'tentar', e nosso maior fracasso foi acreditar que o imperfeito poderia um dia se completar.
