Coleção pessoal de AlmaViolada
O ódio que nasce de contemplar o céu alheio do fundo do próprio inferno não é veneno. É diagnóstico. É a alma reconhecendo, com clareza absoluta e inútil, a exata topografia da sua exclusão. Você não odeia o outro por ser feliz; odeia a distância intransponível entre a vida dele e a sua. Odeia a contiguidade sem permeabilidade. Odeia, acima de tudo, o fato de que, mesmo no fundo do poço, você ainda é capaz de olhar para cima. E que esse olhar, esse único e derradeiro movimento ascensional, não é prece e sim testemunho acusatório.
A atenção plena aquele estado glorificado é apenas o veículo. Amar completamente é direcionar toda a atenção plena para um único objeto. Sofrer completamente é o que acontece quando essa atenção, agora aguçada ao máximo, registra cada minúscula oscilação, cada sombra, cada afastamento ínfimo do objeto. Você não sofre apesar de amar. Sofre com a resolução de alta definição que o amor obriga você a usar para observar tudo, inclusive a própria possibilidade da perda. O amor não cria a faca. Apenas a afia até que seu fio seja atômico.
O mundo não teme o tirano. Tem pena do homem que precisou se tornar um tirano para sobreviver. E transforma essa pena em ódio, porque é mais fácil odiar a consequência do que enfrentar a causa.
O maior risco do amor não é amar e ser trocado. É desmontar-se por amor e, ao ser trocado, descobrir que não se lembra mais do projeto original de si mesmo.
Eu não queria que você fosse racional comigo. Queria que você fosse irracional por mim tanto quanto fui por nós.
”Sua mentira é fraca. Sua farsa, transparente. Se não tem capacidade nem mesmo de forjar uma boa ilusão, de me fazer desejar o engano, então cale-se. Não insulte minha inteligência com uma ficção de segunda categoria. Ou me engane tão bem que eu me perca no conto, ou me enfrente com verdade. Sem meio-termo.
Família
"O Ano Novo não os transforma; apenas os força a usar, por algumas horas, a máscara de humanidade que guardam para ocasiões especiais. A tragédia é saber que a máscara existe, está disponível, e ainda assim preferem mostrar o rosto nu da própria amargura."
O ‘Feliz Ano Novo’ é a única mentira que a sociedade permite que você grite em uníssono. Um pacto para fingir que o calendário tem poder de apagar vidas tiradas, dívidas pendentes e dor. Uma farsa necessária para que o motor do mundo, movido a esquecimento, continue girando.
O amor é um verbo de acumulação. O ódio, um verbo de subtração. Você é a soma viva do verbo que mais frequentemente conjuga.
Ódio
Volte-o para si: você será a cidade queimada, o império em ruínas.
Dirija-o para fora: você se tornará o fogo que consome tudo o que toca e, inevitavelmente, a mão que o segura.
Ódio é o combustível definitivo.
E a escolha mais importante da sua vida pode ser se você o usará para se incendiar ou para incendiar o mundo ao seu redor.
"Todos estão ocupados demais tentando parecer inteiros para os outros para notar que estão em frangalhos por dentro.Use essa informação não para desprezá-los, mas para se libertar da tirania do olhar alheio."
"Existe um plano onde tudo o que você disse é lei:
Sentimentos são inúteis como ferramentas para consertar um motor.
Perguntas são brechas por onde entra o caos.
E seguir o coração é uma rendição da fortaleza da razão.
Mas a vida não habita nesse plano.
Ela transita no espaço estreito e vasto entre a utilidade e o inútil, a certeza e a pergunta, a razão e o delírio.
O não poeta olha para esse espaço e vê apenas erro e confusão.
O poeta olha para o mesmo espaço e vê a única coisa que vale a pena ser chamada de verdade."
O ignorante, o sábio e o sensato não são três homens diferentes. São três momentos de um mesmo homem em sua jornada pelo conhecimento.
Heroísmo e vilania são duas prisões diferentes com a mesma grade: a necessidade de ser compreendido.
O anti-herói é aquele que quebrou a grade e agora vagueia no território vasto e sem nome da própria consciência.
Seu único julgamento é o do espelho.
Sua única lei, a do seu próprio sangue.
Herói: o mundo em primeiro lugar.
Vilão: você em primeiro lugar.
Anti-herói: o ''lugar'' em si é a questão e ele se recusa a dar uma resposta que caiba num slogan.
Não preciso de heróis nem de fãs.
Preciso de testemunhas humanas
que vejam minha luz e minha sombra
sem precisar aumentar ou apagar nenhuma das duas.
Sim, sou um tanto ruim.
Mas prefiro minha ruindade autêntica
a uma bondade emprestada.
Pelo menos assim,
quando alguém me amar,
saberá exatamente o que está abraçando: um ser intrinsecamente ruim.
A vitória solitária
A medalha foi o meu abraço de metal.
Frio, brilhante e dado por uma mão que não conhecia meu nome.
Inúmeras vezes, a porta se abriu para o teu recolhimento,
fossem males do corpo, da alma ou do pressionado bom desempenho na escola
Eu só desejei o teu bem, e em cada regresso, foi festa e contentamento,
o abraço que esperou, sempre sincero, sempre aberto.
Mas quando a minha alma vestiu o casulo protetivo por certo tempo,
buscando um porto, um silêncio para curar a própria dor,
Vi a rede social, palco de frias indiretas,
e a espera em que me puseste, desprovida de qualquer calor.
Essa é a nossa cicatriz mais funda, a cruel diferença:
Minha primavera em teu inverno, teu gelo na minha presença.
