Coleção pessoal de alexandre_calixto
Deve ser bom ser uma dessas pessoas que não se apegam a nada. Nem a pessoas, nem a coisas, nem aos próprios sentimentos. Parece mais leve, mais simples.
Eu não sou assim. Eu me apego a tudo.
A pessoas que já deveriam ter saído da minha vida há muito tempo. Ainda me pego querendo saber se estão bem e quando vejo que estão, por algum motivo, algo em mim se contrai.
Me apego também a coisas que já não fazem sentido. Guardo objetos, lembranças, pequenos pedaços de um passado que já deveria ter ficado para trás. E cada coisa guardada acaba trazendo de volta algo que eu já deveria ter esquecido.
E me apego até a sentimentos vazios. Coisas que já não significam tanto, mas que continuam ocupando espaço dentro de mim.
Sinto que estou vivendo num tipo de limbo.
Sem sono, sem muito amor próprio, como se a vida tivesse perdido um pouco da força.
Às vezes penso que, se pudesse construir uma máquina do tempo, não seria para voltar.
Por que insistimos em viver dentro de ciclos de pensamentos que não nos levam a lugar algum? Às vezes me sinto como um personagem preso em um daqueles filmes que começam pelo final, quando tudo já aconteceu, quando o destino já está selado, e ainda assim somos obrigados a assistir cada passo que levou até ali.
Não sei exatamente por que não tomo uma atitude. Fico girando dentro dos mesmos receios, repetindo as mesmas preocupações, como um disco gasto que insiste em tocar a mesma música. E o pior é saber que esses temores, muitas vezes, insultam minha própria inteligência. Eu os reconheço como inúteis e ainda assim não consigo escapar deles.
Talvez eu devesse ter deixado tudo para trás em algum momento. Escolhido outro rumo, outra estrada, outro horizonte. Mas permaneço aqui, parado num lugar estranho, com a sensação constante de que todos os dias acabo de chegar e já me arrependo de estar aqui.
Não há mais grandes desafios no caminho. Apenas a silenciosa obrigação de preservar aquilo que já existe. Manter de pé estruturas que eu mesmo sei que, cedo ou tarde, terão um fim.
E assim sigo vivendo como se já não houvesse propósito algum.
Embora, às vezes, eu escute o maior de todos os propósitos ecoando na minha mente, um choro pequeno, uma voz fina que insiste em me lembrar que a vida ainda me chama.
Mas há uma parte de mim que permanece imóvel diante disso tudo.
Uma parte que, infelizmente, parece incapaz de mudar.
Um homem só encontra a mulher ideal quando olhar no seu rosto e vir um anjo e, tendo-a nos braços, ter as tentações que só os demônios provocam.
O que se faz com uma vida quando ela parece já ter sido lançada na direção errada? Às vezes penso nela como uma flecha que deixou o arco cedo demais.
Há coisas dentro de mim com as quais não sei conviver. Meus erros, meus pecados, as decisões que se acumulam como marcas difíceis de apagar.
E a culpa… a culpa é uma companhia persistente. Ela não grita, não exige nada em voz alta. Apenas permanece. Sentada ao lado dos meus pensamentos, me lembrando em silêncio, de tudo aquilo que eu gostaria de ter sido e de tudo aquilo que, apesar das intenções, acabei não sendo.
Ainda assim, sigo aqui. Não exatamente por esperança clara, mas talvez por uma espécie de espera. Como se em algum ponto do caminho algo pudesse finalmente interceptar essa flecha, antes que ela encontre o destino errado que parece aguardá-la.
Às vezes tenho a sensação de viver alguns passos atrás de mim mesmo. Caminho, falo, tomo decisões… mas meus pensamentos parecem observar tudo de longe, como se não reconhecessem totalmente as minhas próprias ações. Há um desencontro silencioso entre quem pensa e quem age dentro de mim.
Sou impulsivo. Sei exatamente os caminhos que deveria evitar, mas, ainda assim, meus pés parecem escolhê-los primeiro. É como assistir a mim mesmo atravessando portas que já sei, de antemão, que não deveriam ser abertas.
Também não sei se amo como os outros amam. Eu cuido, me preocupo, assumo responsabilidades, tento proteger quem está por perto. Faço tudo aquilo que dizem que o amor faz… mas o sentimento dentro de mim é estranho, deslocado, como se estivesse escrito em um idioma que todos entendem menos eu.
Às vezes choro em silêncio. Não por grandes tragédias, mas por pequenas falhas repetidas, por erros que eu mesmo construo com as minhas próprias mãos. Existe uma parte de mim que gostaria profundamente de ser melhor, mais claro, mais correto, mais inteiro.
E, ainda assim, carrego um peso que talvez nem seja meu. Sinto-me responsável por tudo que chega até mim: pelos problemas, pelas pessoas, pelos desencontros. Mesmo aquilo que claramente pertence ao mundo dos outros acaba encontrando um lugar dentro de mim.
Talvez por isso eu viva assim, um pouco perdido, um pouco atento demais, tentando, no meio da banalidade dos dias, encontrar algum ponto onde meus pensamentos e minhas ações finalmente decidam caminhar lado a lado.
O homem que confessa os seus pecados, os seus crimes ou os seus erros nunca é o mesmo que os cometeu.
Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes a vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém a morte. Pois mesmo os muitos sábios não conseguem ver os dois lados.
É de se apostar que toda idéia pública, toda convenção aceita seja uma tolice, pois se tornou conveniente à maioria.
Há muito tempo deixei de me reconhecer. Em tantos momentos me enganei sobre mim mesmo, estive errado, caminhei às cegas, girando em círculos como quem procura uma saída que talvez nem exista.
Sinto como se houvesse um muro invisível entre quem eu sou e quem venho sendo. Um muro silencioso, erguido pouco a pouco, que hoje parece alto demais para ser atravessado. É como se algo, ali no meio desse vazio, impedisse o resgate daquilo que um dia foi a minha alma.
E assim sigo, com a estranha sensação de que, em algum ponto do caminho, perdi a ligação de estar verdadeiramente conectado a mim mesmo. Como se eu ainda habitasse este corpo, mas já não encontrasse o caminho de volta para dentro de mim.
Sinto como se ninguém jamais tivesse realmente me conhecido. Como se cada pessoa que cruzou o meu caminho, até mesmo aquelas que caminharam ao meu lado por tanto tempo, tivesse visto apenas um pedaço de mim, um fragmento isolado, nunca o todo.
Às vezes imagino o que aconteceria se todos esses fragmentos se reunissem em um só lugar, como pedaços dispersos de um espelho quebrado. Tenho a estranha sensação de que, se alguém finalmente visse esse reflexo completo, algo dentro de mim desmoronaria, talvez o mundo que construí para me manter de pé.
Carrego comigo essa solidão antiga, quase familiar. E, no fundo, acredito que talvez seja melhor assim. Porque há certas partes de nós que parecem destinadas a permanecer em silêncio, guardadas na penumbra onde ninguém mais alcança.
A vida me fode, não nos damos bem. Tenho que comê-la pelas beiradas, não tudo de uma vez só. É como engolir baldes de merda.
A dor é uma coisa estranha.
Um gato que mata um pássaro,
um acidente de automóvel,
um incêndio...
A dor chega,
BANG,
e eis que ela te atinge.
É real.
E aos olhos de qualquer pessoa pareces um estúpido.
Como se te tornasses, de repente, num idiota.
E não há cura para isso,
a menos que encontres alguém
que compreenda realmente o que sentes
e te saiba ajudar...
Não sei quanto às outras pessoas, mas quando me abaixo para colocar os sapatos de manhã, penso, Deus Todo-Poderoso, o que mais agora?
O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.
Por muito tempo eu me vi como uma boa pessoa, sentia como se fosse abençoado por uma aura mística, as mãos de Deus, mas em um pequeno momento, uma pequena circunstância, uma decisão errada e eu não consigo mais conviver comigo mesmo. Uma rua errada e hoje todos os piores adjetivos são vistos no espelho. Vai ser preciso um longo caminho de redenção e boa sorte para corrigir o curso, por hoje só posso dar o primeiro passo.
