Chuva
Em algum lugar, à beira do mar da minha querida Florianópolis, sob a chuva que cai incessante, as sonatas de Beethoven não são apenas música, são tempestades que rasgam a alma, ondas que se confundem com notas e silêncios que ecoam na vastidão do céu cinzento.
O céu se abre sem alarde, a chuva já quer cessar. Um coração cansado retorna, sem pressa de explicar. O perdão chega como o vento, e o amor aprende a esperar.
Há noites em que o passado é uma chuva lenta no rosto, cada gota desenha mapas de feridas que não cicatrizam. Ando pelas ruas da memória descalço, procurando um porto. Não encontro abrigo, encontro só sinais de onde fui naufragado. E aprendo a navegar com a fome como timão.
Tentar manter a chama acesa na chuva de novembro não é um teste de força, mas de teimosia cega. O verdadeiro amor reside em aceitar que a cera vai escorrer, que a luz vai ser trêmula, e mesmo assim, continuar protegendo a pequena vigília com o corpo.
Se a chuva de inverno promete não durar para sempre, é porque há um ciclo implacável de renovação em curso. A escuridão, embora vasta, é apenas uma ausência temporária, não é preciso ignorá-la, mas usá-la como a tela nítida para o desenho exato da luz que o amanhã trará.
Deixe o choro ser a chuva ácida que lava os escombros do que se foi, a lágrima é a água benta que purifica o olhar para o recomeço.
Minhas palavras de alerta caíram como gotas de chuva silenciosas, incapazes de alcançar aqueles que eu tentava ensinar.
Há noites em que minha voz se perde como folha na chuva, cada palavra desfia-se em gotas que não alcançam ninguém. O quarto vira um navio naufragado de memórias, e eu mergulho por coisas que nem sempre merecem resgate.
A chuva hoje tocou a janela como quem pede licença para entrar. Dentro de mim há móveis que rangem com lembranças. As palavras saem mansamente, como se pedissem perdão. Às vezes penso que sou feito de corredores vazios. E nesses corredores ecoam os passos que um dia me ensinaram a voltar.
Às vezes sinto que minha alma é um piano de cauda abandonado sob a chuva, onde cada gota que cai sobre as teclas evoca um acorde de saudade que ninguém mais sabe tocar. A música que resta em mim não é para os ouvidos do mundo, mas para o silêncio dos que já se perderam de si mesmos.
A vida não é sobre esperar a tempestade passar, nem sobre aprender a dançar na chuva como dizem os pôsteres motivacionais; é sobre entender que você é a própria chuva, o trovão e o arco-íris, e que nada disso faz sentido sem o solo firme da sua aceitação.
Atravesso um campo de lama sob uma neblina espessa e uma chuva fina, fria e incessante. Pelo caminho, criaturas de asas, escamas e dentes enormes observam minha passagem. No entanto, nenhuma delas me causa medo. O verdadeiro horror não habita nesses monstros, mas na certeza de que, ao alcançar o fim do lamaçal, descubro que ele era apenas o início. E, condenado ao mesmo percurso, recomeço infinitamente uma jornada da qual jamais consigo partir.
- Tiago Scheimann
Tempo? chuva ou sol? Céu, terra e mar?
Agora o mundo é de todos e para todos, mais ainda não estou nessa orbita.
Se já viveste numa casa com telhas de céu, paredes de vento, janelas de chuva, portas de solidão e cama de pedra, aprendeste o quão é fria a humanidade.
Estar sob as mesmas estrelas, sob a mesma lua, sob o mesmo sol, sob a mesma chuva, sob os mesmos poemas, sob o mesmo Amor: contigo.
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